segunda-feira, outubro 06, 2008

Consolação

Boécio e a Filosofia, Mattia Preti (séc. XVII)



Book I

I who once wrote songs with joyful zeal
Am driven by grief to enter weeping mode.
See the Muses, cheeks all torn, dictate,
And wet my face with elegiac verse.
No terror could discourage them at least
From coming with me on my way.
They were the glory of my happy youth
And still they comfort me in hapless age.
Old age came suddenly by suffering sped,
And grief then bade her government begin:
My hair untimely white upon my head,
And I worn out bone-bag hung with flesh.
[...]

Boethius. The Consolation of Philosophy


«The Consolation of Philosophy has been many things to many men»
(da introdução da Penguin, 1999)

quarta-feira, outubro 01, 2008

'Agora a sério' II

"José Sócrates e Chávez são tão amigos que a Câmara Municipal de Lisboa pensa oferecer uma casa ao presidente da Venezuela".
Diogo Quintela, no programa Dia D

'Agora a sério'

«Agora a sério» - a expressão que a Ana Lourenço repetiu mais vezes durante a entrevista aos "Gato Fedorento" no programa Dia D.

domingo, setembro 21, 2008

Lunchtime

Lunch atop a Skyscraper, Charles C. Ebbets (1932)

segunda-feira, setembro 15, 2008

Sangue Sábio


O romance Wise Blood (1949), de Flannery O'Connor, apresenta a história de um pregador - Hazel Motes - que, rejeitando a ideia de uma verdade subjacente a todas as verdades, pretende negar a fé na Igreja de Cristo. Motes procura, em última análise, estabelecer uma diferença entre Cristo e a Verdade (o que significa colocar na negativa João 14.6). A verdade absoluta, dirá Motes pregando a doutrina da 'nova Igreja sem Cristo', é que não há alma e não há consciência; além disso, a nova Igreja não concebe a possibilidade do milagre ('os cegos não poderão ver, os coxos não andarão e aquele que morre não volta a viver'). No entanto (e paradoxalmente), o sentido das acções de Hanzel Motes parece consistir em provar que o falso cego Asa Hawks não se enganou quando sugeriu que a fé é um facto. Saber isto significa, para Motes, perceber que o conhecimento da verdade se revela na integridade.

sábado, setembro 13, 2008

The Portrait of a Lady



Áreas disciplinares como a "narratologia" («a ciência que procura formular a teoria dos textos narrativos na sua narratividade»; cf. M. Bal. Narratologie, 1977) talvez não existissem se os estudos literários partissem da tese de que usamos as mesmas palavras e as mesmas proposições para nos referirmos a personagens e a pessoas - i.e. para procedermos à sua caracterização e descrevermos as suas vidas.

Um dos traços mais interessantes da história da americana Isabel Archer prende-se com o facto de H. James explorar a ideia de que as melhores descrições de cada personagem, das suas acções e do seu destino são fornecidas por outros livros, por outros textos literários. Na verdade, é possível ler o romance como a história de uma mudança na forma de entender a relação entre os livros (a arte) e a vida. Note-se: se Isabel era muito dada a leituras antes da sua chegada a Inglaterra, procurando desse modo saciar a curiosidade e aprender algo sobre a vida (é-nos dito que ela procurava perceber até que ponto as 'descrições livrescas' condiziam com a realidade que encontrara no velho continente), no final da história (quando sabe que o seu projecto de vida falhou) o que caracteriza o seu estado de espírito ao regressar à biblioteca de Gardencourt é, pelo contrário, a 'pouquíssima atracção para os romances'. Há, a meu ver, dois modos possíveis de interpretar esta mudança: 1) Isabel percebe que os livros nada têm a ensinar sobre a vida (o mesmo é dizer que não vale a pena tentar perceber se a vida a e a literatura condizem); 2) Isabel percebe com dor a proximidade entre os livros e a vida (percebe, por exemplo, que 'comédia' e 'tragédia' não são "apenas" categorias literárias, ou, como nós é dito no cap. XLIX, que o epíteto 'perversa' se aplica tanto a personagens histórias como a pessoas). Esta segunda interpretação parece-me a mais justa por várias razões, mas sobretudo porque condiz com a reflexão sobre a arte do romance que acompanha todo o texto (ou - o que é o mesmo - a vida de Isabel). Não é por acaso que Ralph Touchett deixa a sua biblioteca a Miss Stackpole, a melhor amiga de Isabel que viera até à Europa em busca de matéria-prima para os seus artigos, ou seja, procurando, como um romancista, conhecer de perto a vida das pessoas. E é também nas considerações de Ralph que a auto-reflexividade do romance se exibe melhor: Ralph sobrevive até ao final do romance por curiosidade. Sobrevive porque quer saber o que Isabel Archer fará com a sua vida; quer, em suma, apreciar o retrato.

Cómico e Seriedade

«Todos os romances cómicos que valem alguma coisa são sobre assuntos de vida e morte.»
Flannery O'Connor

quinta-feira, setembro 11, 2008

Verdade e Bondade

«A maior parte daquilo que passa por discussão da "verdade" nos livros de filosofia é, de facto, relativo à justificação, tal como a maior parte daquilo que passa por discussão da "bondade" é relativo ao prazer e à dor.»
Rorty procurando responder ao argumento de Putnam (de Mind, Language and Reality) contra a intepretação de "verdade" como significando uma noção relativa a uma linguagem, a uma teoria ou a um 'conceptual scheme'.
(é no capítulo 6 de Philosophy and the Mirror of Nature)

quarta-feira, setembro 10, 2008

A Arte e a Vigília (um excerto de Nietzsche)

«Esse impulso para a formação de metáforas, esse impulso básico do homem que não se pode esquecer nunca porque com isso se abstrairia do próprio homem, não está de forma alguma dominado e só até certo ponto refreado pelo facto de se construir para ele um mundo novo, regular e rígido a partir dos seus produtos evanescentes, os conceitos, como se de uma fortaleza de tratasse. Ele procura uma outra área do seu agir, outro leito do rio, e encontra-o no mito e principalmente na arte. Não pára de confundir as classes e células dos conceitos ao propor novas transposições, metáforas e metonímias, ao mostrar constantemente o desejo de configurar o mundo já existente do homem desperto de modo tão colorido, desconexo e inconsequente, aliciante e sempre novo, tal como o é o mundo dos sonhos. No fundo, o homem vígil só tem a certeza de estar desperto devido à teia dos conceitos sólida e regular, e precisamente por isso cai às vezes na crença de que está a sonhar quando esta teia de conceitos é ocasionalmente rasgada pela arte.»
F. Nietzsche. "Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral" (Obras Completas de F. Nietzsche, Vol. I, Lisboa, Relógio d'Água, 1997. O ensaio de Nietzsche é de 1873 e foi traduzido por Helga Hoock Quadrado).

terça-feira, setembro 09, 2008

O cómico antitrágico de Machado de Assis

«O cómico é essa recusa [i.e. a recusa da consolação da inteligibilidade]: além de antimoderno, o cómico machadiano é antitrágico, no preciso sentido em que denuncia a presunção persistente de que o modelo trágico é o modelo adequado à inteligibilidade da vida e do mundo. A recusa do trágico é rigorosamente antimoderna - quer dizer, modernamente antimoderna - porque conduzida à opção pelo cómico: o tédio e a melancolia, o desconcerto e o absurdo, são e não podem ser senão matéria de comédia, e comédia filosófica, porque são e não podem ser senão matéria da inquirição filosófica que desfigura a face eufórica e providencialista dum mundo ordenado para o progresso.»
Abel Barros Baptista. "Mas este capítulo não é sério..."
(Revista Ler, n.º 72, Setembro 2008)

Os Poderes Filosóficos de W. Quine




quinta-feira, agosto 28, 2008

Aulas de Literatura: a avaliação de Tolstoi

«Tolstoi é o maior escritor russo de ficção em prosa. Deixando de lado os seus precursores Púchkin e Lermontov, talvez se possam ordenar os grandes artistas russos da prosa da seguinte forma: em primeiro Tolstoi; em segundo Gogol; em terceiro Tchékhov; e em quarto Turgueniev. É como dar notas aos trabalhos dos alunos, e não há dúvida de que Dostoievski e Saltykov estão lá fora à porta do meu gabinete para discutir a má nota que tiveram.»
Vladimir Nabokov, posfácio a Anna Karénina (trd. António Pescada. Relógio d'Água, 2006)