segunda-feira, outubro 20, 2008

Mal Nascida

Aceita-se hoje a ideia (para a qual muito contribuíram os românticos quando definiram a singularidade da visão genial como critério de valor artístico) de que cabe à arte mostrar aquilo que as pessoas, na sua experiência quotidiana, não conseguem ver: a beleza, a complexidade das coisas a que nos habituámos, a fragilidade de certos valores e ideias, etc.. A julgar pelo filme mais recente de João Canijo, o Mal Nascida, parece existir, no caso de algum cinema português, a intenção de mostrar um Portugal que os Portugueses não conseguem ver devido a uma certa educação, a uma certa história. A mal nascida é aquela cuja vida constitui a perfeita antítese do sentido etimológico do seu nome: Lúcia. A vida de Lúcia nada tem de luminoso; a sua única alegria, diz a dada altura, é tratar da casa de Jusmino, o homem que ela, como mulher, não pode amar. Lúcia é, na verdade, uma criança que só se transforma em mulher entregando-se a uma relação incestuosa e matando a mãe; a sua condição trágica resulta, como no teatro grego, dos laços de sangue.
Contudo, já em cima sugeri, o filme de Canijo não consiste apenas na adaptação moderna de um mito grego; trata-se, com efeito, de uma adaptação a partir da qual é possível também tentar compreender o que é 'ser português' e perceber, deitando por terra uma certa ideia luminosa que a mitologia da saudade ajudou a tecer, quais os 'labirintos' desse 'ser português' (para utilizar a expressão que Eduardo Lourenço tornou célebre num conjunto de ensaios não menos célebre: O Labirinto da Saudade). Neste sentido, os objectos que permitem caracterizar as personagens pertencem ao simbólico. No caso da mãe de Lúcia, as imagens de Nossa Senhora, de muitas cores e tamanhos, traduzem claramente a transformação do sagrado em kitsch, o que aliás condiz bem com a ética sui generis que Evaristo tão bem descreve com a expressão 'Ai a puta da caridade'. Pelo contrário, as roupas simples de Lúcia mostram que a sua verdade não se mostra por ostensão. Mas disto não deve inferir-se que o Mal Nascida faz o elogio da integridade de Lúcia. A vida de Lúcia perdeu-se porque o passado não ficou resolvido e, em certo sentido, ela é o exemplo de como a fixação numa verdade - ou 'cena' - primitiva transforma a vida em sobrevivência.

domingo, outubro 19, 2008

Kit Watkins, Evening Mothra

quinta-feira, outubro 16, 2008

A. Campos e Daisy

«Lisboa sempre foi uma cidade de calçadas ilustradas com desenhos e ornatos em pedrinhas multicolores compostas por operários de martelinho arteiro: são eles que desenham e escrevem o chão que pisamos todos os dias. Mas este grafismo - Daisy - aqui, aos pés de Álvaro de Campos, valia como uma assinatura milagrosa. Um fim de viagem, uma espera do nada, do impossível.
E eis que de repente apareceu ela. Ela em pessoa. Daisy, não havia dúvida. Surgiu na montra, por entre véus e grinaldas, a compor um manequim e, embora marcada pela idade, continuava com a tal estelinha no rosto a fazê-la perdurar para sempre.»

Do conto "O viajante anunciado", de José Cardoso Pires.
O conto descreve o assombro e a perplexidade de Álvaro de Campos ao ler as Poesias de Álvaro de Campos, e a viagem em busca de Daisy.

Inédito publicado na Ler (edição n.º 73, Outubro de 2008)

terça-feira, outubro 14, 2008

Arte, Literatura e Conhecimento

Pequena lista de perguntas interessantes:

- Que tipo de coisas aprendemos quando lemos romances ou poemas?
- Fará sentido relacionar 'conhecimento' e 'literatura'?
- A arte e a literatura ensinam coisas profundas sobre a vida? E ensinam melhor do que qualquer sistema filosófico? [E já agora, o que são 'coisas profundas'?]
- Há razão para defender o ensino das Humanidades com base em argumentos que relevem da noção de "valor cognitivo"?


Li aqui um texto sobre estas questões. Trata-se da resposta de Desidério Murcho a algumas ideias defendidas por Maria Helena Santana em Literatura e Ciência na Ficção do Século XIX (Lisboa: Imprensa Nacional, 2007). Vale a pena ler os comentários e respectivas respostas.

segunda-feira, outubro 13, 2008

O fim e a busca, explicadas a Lucílio

«Para começar, se achas bem, dir-te-ei qual a diferença entre sabedoria e filosofia. A sabedoria é o bem supremo do espírito humano, enquanto a filosofia é o amor, o impuslso pela sabedoria; aquela aponta o fim que esta alcança. A origem do termo 'filosofia' é transparente: o próprio nome indica qual é aqui o objecto do amor. A sabedoria tem sido definida por alguns como a ciência das coisas divinas e humanas; para outros, a sabedoria consiste em conhecer o divino e o humano, e as respectivas causas. Esta adenda parece-me supérflua, porquanto as causas do divino e do humano são, em si, uma parte do divino. Também a filosofia tem sido definida de várias maneiras: uns consideram-na o estudo da virtude, outros o estudo do modo de adquirir ideias correctas; por alguns outros foi ainda definida como a busca de uma razão justa.
Onde há, praticamente, acordo é em considerar que a filosofia e a sabedoria são coisas diferentes. De facto, é impossível que a busca de uma finalidade se confunda com essa finalidade».

Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Livro XIV, Carta 89
(Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2.ª ed., 2004).

sábado, outubro 11, 2008

Bellini, por Cecilia Bartoli

sexta-feira, outubro 10, 2008

Da interpretação das ovelhas


Observação de José Pacheco Pereira no Quadratura do Círculo (09/10): José Sá Fernandes imaginou-se um Pina Manique com direito a 'interpretações jurídicas'.

(A propósito da decisão de Sá Fernandes de mandar retirar o cartaz que o PNR colocou em Entrecampos)

quarta-feira, outubro 08, 2008

Fragonard, por Jorge de Sena




«O Balouço», de Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!
Jorge de Sena, Metamorfoses

terça-feira, outubro 07, 2008

Fernando Pessoa e o Estado



António M. Feijó sobre a exposição de literatura portuguesa "Weltliteratur. Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!":

«O interesse em usar Pessoa é que por um lado, em Portugal, há um lugar comum, corrente em pessoas ligadas à literatura, que afirmam estarem cansadas de Pessoa, fatiga esta que parece, no mínimo, bizarra. O outro aspecto é o de que há uma espasmódica apropriação de Pessoa pelo Estado. Esta apropriação é, evidentemente, política e assimétrica: o Estado precisa de Pessoa mas Pessoa não precisa do Estado.»


Entrevistado, com Manuel Aires Mateus, por Elisabete Caramelo (Jornal da Exposição)

segunda-feira, outubro 06, 2008

Consolação

Boécio e a Filosofia, Mattia Preti (séc. XVII)



Book I

I who once wrote songs with joyful zeal
Am driven by grief to enter weeping mode.
See the Muses, cheeks all torn, dictate,
And wet my face with elegiac verse.
No terror could discourage them at least
From coming with me on my way.
They were the glory of my happy youth
And still they comfort me in hapless age.
Old age came suddenly by suffering sped,
And grief then bade her government begin:
My hair untimely white upon my head,
And I worn out bone-bag hung with flesh.
[...]

Boethius. The Consolation of Philosophy


«The Consolation of Philosophy has been many things to many men»
(da introdução da Penguin, 1999)

quarta-feira, outubro 01, 2008

'Agora a sério' II

"José Sócrates e Chávez são tão amigos que a Câmara Municipal de Lisboa pensa oferecer uma casa ao presidente da Venezuela".
Diogo Quintela, no programa Dia D

'Agora a sério'

«Agora a sério» - a expressão que a Ana Lourenço repetiu mais vezes durante a entrevista aos "Gato Fedorento" no programa Dia D.

domingo, setembro 21, 2008

Lunchtime

Lunch atop a Skyscraper, Charles C. Ebbets (1932)

segunda-feira, setembro 15, 2008

Sangue Sábio


O romance Wise Blood (1949), de Flannery O'Connor, apresenta a história de um pregador - Hazel Motes - que, rejeitando a ideia de uma verdade subjacente a todas as verdades, pretende negar a fé na Igreja de Cristo. Motes procura, em última análise, estabelecer uma diferença entre Cristo e a Verdade (o que significa colocar na negativa João 14.6). A verdade absoluta, dirá Motes pregando a doutrina da 'nova Igreja sem Cristo', é que não há alma e não há consciência; além disso, a nova Igreja não concebe a possibilidade do milagre ('os cegos não poderão ver, os coxos não andarão e aquele que morre não volta a viver'). No entanto (e paradoxalmente), o sentido das acções de Hanzel Motes parece consistir em provar que o falso cego Asa Hawks não se enganou quando sugeriu que a fé é um facto. Saber isto significa, para Motes, perceber que o conhecimento da verdade se revela na integridade.

sábado, setembro 13, 2008

The Portrait of a Lady



Áreas disciplinares como a "narratologia" («a ciência que procura formular a teoria dos textos narrativos na sua narratividade»; cf. M. Bal. Narratologie, 1977) talvez não existissem se os estudos literários partissem da tese de que usamos as mesmas palavras e as mesmas proposições para nos referirmos a personagens e a pessoas - i.e. para procedermos à sua caracterização e descrevermos as suas vidas.

Um dos traços mais interessantes da história da americana Isabel Archer prende-se com o facto de H. James explorar a ideia de que as melhores descrições de cada personagem, das suas acções e do seu destino são fornecidas por outros livros, por outros textos literários. Na verdade, é possível ler o romance como a história de uma mudança na forma de entender a relação entre os livros (a arte) e a vida. Note-se: se Isabel era muito dada a leituras antes da sua chegada a Inglaterra, procurando desse modo saciar a curiosidade e aprender algo sobre a vida (é-nos dito que ela procurava perceber até que ponto as 'descrições livrescas' condiziam com a realidade que encontrara no velho continente), no final da história (quando sabe que o seu projecto de vida falhou) o que caracteriza o seu estado de espírito ao regressar à biblioteca de Gardencourt é, pelo contrário, a 'pouquíssima atracção para os romances'. Há, a meu ver, dois modos possíveis de interpretar esta mudança: 1) Isabel percebe que os livros nada têm a ensinar sobre a vida (o mesmo é dizer que não vale a pena tentar perceber se a vida a e a literatura condizem); 2) Isabel percebe com dor a proximidade entre os livros e a vida (percebe, por exemplo, que 'comédia' e 'tragédia' não são "apenas" categorias literárias, ou, como nós é dito no cap. XLIX, que o epíteto 'perversa' se aplica tanto a personagens histórias como a pessoas). Esta segunda interpretação parece-me a mais justa por várias razões, mas sobretudo porque condiz com a reflexão sobre a arte do romance que acompanha todo o texto (ou - o que é o mesmo - a vida de Isabel). Não é por acaso que Ralph Touchett deixa a sua biblioteca a Miss Stackpole, a melhor amiga de Isabel que viera até à Europa em busca de matéria-prima para os seus artigos, ou seja, procurando, como um romancista, conhecer de perto a vida das pessoas. E é também nas considerações de Ralph que a auto-reflexividade do romance se exibe melhor: Ralph sobrevive até ao final do romance por curiosidade. Sobrevive porque quer saber o que Isabel Archer fará com a sua vida; quer, em suma, apreciar o retrato.

Cómico e Seriedade

«Todos os romances cómicos que valem alguma coisa são sobre assuntos de vida e morte.»
Flannery O'Connor

quinta-feira, setembro 11, 2008

Verdade e Bondade

«A maior parte daquilo que passa por discussão da "verdade" nos livros de filosofia é, de facto, relativo à justificação, tal como a maior parte daquilo que passa por discussão da "bondade" é relativo ao prazer e à dor.»
Rorty procurando responder ao argumento de Putnam (de Mind, Language and Reality) contra a intepretação de "verdade" como significando uma noção relativa a uma linguagem, a uma teoria ou a um 'conceptual scheme'.
(é no capítulo 6 de Philosophy and the Mirror of Nature)

quarta-feira, setembro 10, 2008

A Arte e a Vigília (um excerto de Nietzsche)

«Esse impulso para a formação de metáforas, esse impulso básico do homem que não se pode esquecer nunca porque com isso se abstrairia do próprio homem, não está de forma alguma dominado e só até certo ponto refreado pelo facto de se construir para ele um mundo novo, regular e rígido a partir dos seus produtos evanescentes, os conceitos, como se de uma fortaleza de tratasse. Ele procura uma outra área do seu agir, outro leito do rio, e encontra-o no mito e principalmente na arte. Não pára de confundir as classes e células dos conceitos ao propor novas transposições, metáforas e metonímias, ao mostrar constantemente o desejo de configurar o mundo já existente do homem desperto de modo tão colorido, desconexo e inconsequente, aliciante e sempre novo, tal como o é o mundo dos sonhos. No fundo, o homem vígil só tem a certeza de estar desperto devido à teia dos conceitos sólida e regular, e precisamente por isso cai às vezes na crença de que está a sonhar quando esta teia de conceitos é ocasionalmente rasgada pela arte.»
F. Nietzsche. "Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral" (Obras Completas de F. Nietzsche, Vol. I, Lisboa, Relógio d'Água, 1997. O ensaio de Nietzsche é de 1873 e foi traduzido por Helga Hoock Quadrado).

terça-feira, setembro 09, 2008

O cómico antitrágico de Machado de Assis

«O cómico é essa recusa [i.e. a recusa da consolação da inteligibilidade]: além de antimoderno, o cómico machadiano é antitrágico, no preciso sentido em que denuncia a presunção persistente de que o modelo trágico é o modelo adequado à inteligibilidade da vida e do mundo. A recusa do trágico é rigorosamente antimoderna - quer dizer, modernamente antimoderna - porque conduzida à opção pelo cómico: o tédio e a melancolia, o desconcerto e o absurdo, são e não podem ser senão matéria de comédia, e comédia filosófica, porque são e não podem ser senão matéria da inquirição filosófica que desfigura a face eufórica e providencialista dum mundo ordenado para o progresso.»
Abel Barros Baptista. "Mas este capítulo não é sério..."
(Revista Ler, n.º 72, Setembro 2008)

Os Poderes Filosóficos de W. Quine