sexta-feira, novembro 07, 2008

'Portugalidade' (II)

«[...] a melhor ideia que temos de nós próprios provém da poesia e não da prosa. Desta última guardamos sobretudo o que nos distancia de nós próprios, entre a ironia e o sarcasmo. Pensamo-nos mais altamente à maneira de Camões do que à maneira de Eça. Ou, deste último, recolhemos as páginas mais "poéticas" que nos dedicou n'A Cidade e as Serras

Manuel Clemente, Portugal e os Portugueses. Assírio & Alvim, 2008.

'Coisas Boas'

Joan as Police Woman - To Survive

Patricia Barber - The Cole Porter Mix


quinta-feira, novembro 06, 2008

'Portugalidade' (I)

Há dias, depois de ler a entrevista de Carlos Vaz Marques na Ler, lembrei-me das crónicas que Miguel Esteves Cardoso escreveu no Expresso. Em muitas dessas crónicas, com um humor brilhante, procurou (preparando o caminho para outros humoristas) captar os traços da "pinta" dos Portugueses ("A Pinta dos Portugueses" é o título de uma crónica publicada em Os meus problemas). Esteves Cardoso chamou-lhe "pinta" em vez de "identidade", mas as suas crónicas tratam sobretudo desse 'tema importantíssimo' que é o problema de Portugal ou do "ser português" – segundo Eduardo Lourenço, foram os literatos do século XIX que lhe conferiram uma seriedade especial (note-se que os modos de colocar o problema, as suas formulações, variam; Teixeira de Pascoaes, por exemplo, foi ao ponto de conceber a existência de uma “arte de ser Português”; na edição da Arte de Ser Português que tenho, da Assírio & Alvim, o prefácio é de Miguel Esteves Cardoso).
Na verdade, o problema de Portugal continuou a preocupar durante o século XX outras pessoas, para além dos poetas. Recentemente, José Gil alcançou um feito quase histórico para a “filosofia portuguesa”, colocando no top de vendas um livro que pretende tratar do mesmo problema. Falo de Portugal Hoje – O Medo de Existir. Uma vez que o livro vendeu e continua a vender, convém lembrar a existência de um texto – o de Silvina Rodrigues Lopes, publicado no n.º 3 da revista Intervalo, de Maio de 2007 – que contesta a tese defendida por José Gil. Uma síntese do argumento de Silvina Rodrigues Lopes pode ser lida aqui.
(2007 foi também o ano em que Miguel Real publicou A Morte de Portugal, que mereceria um longo post.)

John McCain

É sem dúvida um belíssimo discurso.

«
Esta campanha foi a maior honra da minha vida.»
John McCain

terça-feira, novembro 04, 2008

Miguel Esteves Cardoso

Numa fantástica entrevista, na Ler de Novembro, Miguel Esteves Cardoso fala

- dos livros de Saramago;

(«Acho os livros dele mal escritos. Mal escritos no sentido de serem convencidos da sua própria grandeza, da importância do que ele diz. É uma espécie de declaração ao mundo. Não uma história. Não um romance. A importância dos livros só se verifica muito tempo depois. Não é uma coisa instantânea. Não é uma questão de declarar ao mundo as minhas ideias. Isso fazem os filósofos e outras pessoas assim. Os romancistas são contadores de histórias.»)

- da relação entre a ética do escritor e a escrita;

(«Se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura ficamos com nada. Se se tirarem os bêbados fica-se com zero. Se deixarmos só os livros feitos por pessoas que se portavam bem, tratavam bem a mulher, que eram bons amigos e pagavam as contas a tempo, ficamos só com merda. O único autor que foi boa pessoa e ao mesmo tempo um génio é capaz de ser, sei lá, o Beckett.»)

- dos 'escritores boa onda';

(«O Cardoso Pires era boa onda, um gajo porreiro e um grande escritor. O que ele escanhoou e limpou a lingua! Eu gosto dos que lavam a língua. Há escritores que fazem isso. Despojam-na daquele excesso de ornamentação, de adjectivos, de descrições, de mobília, do raio que o parta.»)

- da poesia (i.e., da literatura) portuguesa;

(«Os grandes escritores são todos poetas. A não ser a Agustina».

«Tu lês o Mário Cesariny ou o Herberto Helder ou o João Miguel ou o Joaquim Manuel Magalhães e ficas... O António Franco Alexandre. O Ruy Cinatti. É uma coisa devastadora. Portanto, o problema está resolvido. Pessoa. Camões. Quer dizer, o problema da nossa literatura está resolvido. Não é preciso inventá-la ou reinventá-la. Está escrita.»)

E de outras coisas, claro.

segunda-feira, novembro 03, 2008

'Diferença' (sobre as eleições americanas)

«[Visão] Como vê o Médio Oriente com Obama em Washington, admitindo que ganha?

Não faz a mínima diferença. Se Obama ganhar, manter-se-á o apoio incondicional a Israel. Nestes 30 anos, sempre que houve eleições nos EUA, os árabes disseram: "Esperemos que seja um democrata, eles serão mais justos." Mas nunca mudou nada. Continuaram as bombas, as invasões e os mísseis.

[...]

[Visão] Fala-se agora em conversas com os talibans para acabar com a guerra, no Afeganistão...

[Risos] Eles sempre falaram com os talibans. É como ouvir os israelitas dizerem que nunca falam com terroristas. Em 1992, falando, no Líbano, com antigos prisioneiros palestinianos expulsos, disse a um deles que ia viajar para Israel no dia seguinte. Ele disse: quer o número de casa do Shimon Peres? Deu-mo e estava correcto! Eles falam sempre.»

Robert Fisk, em entrevista à Visão (Visão, n.º 817)

'Mentes socráticas', por Moritz Schlick

«As long as people speak and write so much more than they think, using their words in a mechanical, conventional manner, disagreeing about the Good (in Ethics), the Beautiful (in Aesthetis) and the Useful (in Economics and Politics), we shall stand in great need of men with Socratic minds in all our human pursuits».

Moritz Schlick, Philosophical Papers. Vol. II. (1925-1936), H.L. Mulder & B.F.B. Van de Velde-Schlick, eds., Kluwer: Dordrecht, 1979, p. 369.

Responsabilidades

«Para não variar, logo no primeiro minuto, o CDS/PP tenta, perante as graves irregularidades no BPN investigadas pelo Banco de Portugal e pela PGR, concentrar as atenções nas eventuais culpas de Vitor Constâncio para que não se fale das responsabilidades dos gestores. Não digo que a fiscalização do papel do Banco de Portugal não seja relevante. Mas é interessante que seja a única coisa que preocupa sempre o CDS e o PSD. Foi assim no BCP, volta a ser assim no BPN. Só se espanta quem não sabe o que a casa gasta. Ouvido o CDS, estou muito curioso em ouvir o que tem o PSD a dizer sobre este caso. Basta ver os nomes dos administradores ao tempo a que reportam as irregularides (ou crimes) que levaram o banco a esta situação para perceber porquê.» Isto escreveu um dos suspeitos do costume.

Concordo com um ponto referido por Daniel Oliveira: penso que se fala muito pouco da responsabilidade dos gestores. E lembrei-me, a propósito desta questão, das palavras que Fernando Faria de Oliveira proferiu há algum tempo no Prós e Contras. Numa altura em que o governo preparava o plano para 'aliviar' a banca (i.e., uma linha de garantias de 20 mil milhões de euros), o presidente da Caixa Geral de Depósitos sublinhou, logo no início do programa, que o plano iria beneficiar sobretudo os clientes dos bancos. E justificou da seguinte forma: no caso de uma crise que afecte seriamente a banca, os clientes serão os primeiros prejudicados. Na verdade, em discursos como este nunca é incluída a questão da responsabilidade dos gestores. Como se os gestores fossem seres intocáveis.

sábado, novembro 01, 2008

A Ficção e a História (sobre as eleições americanas)


Sugeriu-se ontem no programa Expresso da Meia-Noite, da Sic Notícias, que a Ficção - cinema e séries televisivas - pode ter ajudado a tornar mais aceitável para os norte-americanos uma ideia que a História tornou menos aceitável: a ideia de um presidente negro. Deu-se o exemplo da série 24, onde surge o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Como já vem sendo hábito no caso de séries televisivas populares, 24 teve direito a uma "aproximação à filosofia". (Talvez menos optimista a respeito da imagem dos americanos que as acções de Jack Bauer promovem é a posição que Ray McGovern defende num artigo sobre tortura. O artigo começa com a citação de uma passagem dos Irmãos Karamazov.)

Espera-se agora, no caso da vitória de Obama, que a realidade imite a ficção só até certo ponto. Na série, segundo me lembro, o presidente negro era assassinado por conspiradores brancos.

Ainda a propósito das eleições americanas, este é um blogue contra a outra senhora.

sexta-feira, outubro 31, 2008

O 'danoso ofício dos poetas', por A. M. Pires Cabral



Agora que a Ler de Novembro não deve demorar a chegar às bancas, vale a pena destacar, sob a forma de definições, algumas ideias sobre a poesia e os poetas de que falou António Manuel Pires Cabral na entrevista de Carlos Vaz Marques (na Ler de Outubro):
Poetas: são aqueles ‘que ajudam a compreender um bocadinho melhor este mistério tramado que é a vida’;
Metáforas: o 'danoso ofício' com que se ocupam os poetas; as metáforas fizeram-se para disfarçar a realidade; uma metáfora 'bem arrumadinha' proporciona 'um prazer estético extraordinário';
Poesia: ‘o tempo da poesia grandiloquente já lá vai’; a nova poesia deve aproximar-se 'do rés das coisas'.
Poesia e filosofia: a poesia pode proporcionar a reflexão através de uma 'utilização engenhosa da linguagem'; a poesia coloca questões filosóficas de forma ‘mais agradável e menos hermética’.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Inclassificável (ainda sobre o salário mínimo) (II)

As declarações de Augusto Morais são inclassificáveis por várias razões. Estas são duas:

- Em vez de um argumento, temos uma ameaça, e uma ameaça às pessoas (Augusto Morais não lhes chama 'pessoas', mas sim «43720 contratos»; afinal, é preciso rigor nestas coisas);
- Sobre a alegação de que o aumento de 24 euros/mês é «tecnicamente» (o advérbio é de Augusto Morais) insuportável para as PMEs, seria interessante, já agora, uma averiguação para perceber quantas vezes é esse o valor (24 euros), por exemplo, da factura de um almoço que, «tecnicamente», entrará na contabilidade de uma dessas PMEs.

Este é um dos casos em que as decisões políticas podem (devem) traduzir uma visão a longo prazo e alguma racionalidade. Sim, porque é difícil perceber como pode a economia crescer quando ainda se discute se as pessoas devem receber um salário que, «tecnicamente», dá para sobreviver.

Inclassificável (ainda sobre o salário mínimo)

Isto é inclassificável.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Moralidade e Política

A frase de Fernando Martins, que cito no post anterior, assim como a leitura de um dos comentários a esse texto, comentário que parecia supor que a relação entre moral e economia é uma coisa estranha, fizeram-me pensar sobre a relação entre as esferas da política (é hoje evidente a necessidade de colocar o económico na esfera do político, chame-se a isso 'regulação' ou outra coisa qualquer) e da moral. No fundo, pensei que a incoerência que encontro muitas vezes em certos discursos releva da falta de clareza com que é entendida esta relação. Assim, há pessoas que defendem a aprovação de certas leis com base no pressuposto de que a política e a moral são províncias desavindas, e que, portanto, a justiça da lei é proporcional à sua suposta neutralidade. Noutras ocasiões, as mesmas pessoas vociferam e insurgem-se contra a aprovação de certos diplomas com base na ideia de que há valores morais/éticos fundamentais que estão a ser violados. Talvez isto se explique pelo facto de palavras como 'ética' ou 'moral' se terem transformado em 'cascas vazias' que, de vez em quando, vale a pena usar. É uma hipótese.

Economia e Moral (sobre o salário mínimo)

«Salários mínimos artificialmente baixos permitem a existência de empresas social, económica e moralmente insustentáveis.»

Fernando Martins, no Cachimbo de Magritte

terça-feira, outubro 28, 2008

Dos livros e da imagem do filósofo


Três Livros

Na sala ‘Nietzsche’, com a belíssima música dos ‘Músicos do Tejo’, Nuno Nabais, professor de Filosofia (e livreiro há sete anos), falou das actividades da Fábrica Braço de Prata e reflectiu sobre algumas teses defendidas em três livros: Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, Sob Palavra. Instantâneos Filosóficos, de Jacques Derrida, e O Imperceptível Devir da Imanência - sobre a filosofia de Deleuze, de José Gil.
- Sobre o método antropológico de Lévi-Strauss, referiu a intenção estruturalista de classificar o conjunto da experiência humana segundo um modelo que lembra a construção de uma tabela periódica.
- Sobre a obra de Derrida, que consiste num conjunto de entrevistas sobre temas políticos e éticos, considerou tratar-se de uma boa introdução ao pensamento do filósofo francês e leu passagens sobre o conceito de mentira.
- Sobre a obra de José Gil, destacou o facto de se tratar de um conjunto de textos que reflectem sobre o problema da imanência em Deleuze. E, com clareza, referiu a oposição postulada por Deleuze entre "tradições da transcendência" (nas quais o sentido do mundo sensível releva de um plano transcendente) e "tradições da imanência" (que procuram encontrar no sensível os princípios da sua inteligibilidade).

A Imagem do Filósofo
A conversa sobre livros termina com Nuno Nabais a referir que a imagem do filósofo é substancialmente diferente na tradição anglo-saxónica e na tradição representada, por exemplo, por Deleuze. Na tradição americana e inglesa, defende, o filósofo é visto como um jornalista erudito que 'explica o real à opinião pública e legitima mudanças determinadas por decisões parlamentares'; na tradição de que faz parte Deleuze, pelo contrário, o filósofo é o pensador de vanguarda, alguém que 'rasga novos caminhos para a humanidade'.

Governo Sombra, 24.10.2008

João Miguel Tavares compara o novo álbum dos Madredeus (com bateria, guitarra eléctrica e harpa) com 'o Mosteiro dos Jerónimos pintado com graffiti' e defende que Manuela Ferreira Leite tem um ‘fascínio pelo abismo’. Ricardo Araújo Pereira fala das considerações humorísticas do deputado Pita Ameixa. Pedro Mexia mostra-se pouco preocupado com a abstenção nas eleições dos Açores e aconselha Miguel Sousa Tavares a adquirir uma 'pen'. Foi no Governo Sombra.

segunda-feira, outubro 27, 2008

O romance e a filosofia, segundo Kundera

«[...] todos os grandes temas existenciais que Heidegger analisa em Ser e Tempo, julgando-os abandonados por toda a filosofia europeia anterior, foram desvendados, mostrados, iluminados por quatro séculos de romance (quatro séculos de reincarnação europeia do romance). Um por um, o romance descobriu à sua própria maneira, pela sua própria lógica, os diferentes aspectos da existência: com os contemporâneos de Cervantes interroga-se sobre o que é a aventura; com Samuel Richardson, começa a examinar "o que se passa no interior", a desnudar a vida secreta dos sentimentos; com Balzac descobre o enraizamento do homem na História; com Flaubert explora a terra até então incógnita do quotidiano; com Tolstoi debruça-se sobre a intervenção do irracional nas decisões e no comportamento humanos. Sonda o tempo: o fugidio momento passado com Marcel Proust; o fugidio momento presente com James Joyce. Interroga, com Thomas Mann, o papel dos mitos que, vindos do fundo dos tempos, guiam os nossos passos. Et caetera, et caetera.»

Milan Kundera, L'Art du roman, 1987 (trad. port. A Arte do Romance, Dom Quixote, 1988)

domingo, outubro 26, 2008

Mente, Cérebro e Filosofia



Descobri recentemente, e recomendo, a publicação brasileira Mente, Cérebro & Filosofia. Em seis números, esta revista apresenta a síntese de algumas ideias dos mais importantes pensadores ocidentais. Recomendo sobretudo por duas razões: 1) é uma revista de filosofia em que os argumentos de autores como Platão ou Berkeley são expostos com clareza sem que isso implique a ausência de rigor (os artigos são escritos por mestres e doutorados em Filosofia); 2) as pinturas e gravuras escolhidas para acompanhar os textos são muito pertinentes, não constituindo uma mera ilustração (e.g., no n.º 1 da revista, o artigo sobre a concepção aristotélica da amizade tem uma belíssima iluminura de um manuscrito francês do século XV; esta iluminura pretende representar os tipos de amizade que Aristóteles descreve na Ética a Nicómaco).

quinta-feira, outubro 23, 2008

Filosofia e Literatura, segundo Iris Murdoch

«[...] philosophy does one thing, literature does many things and involves many different motives in the creator and the client. It makes us happy, for instance. It shows us the world, and much pleasure in art is pleasure of recognition of what we vaguely knew was there but never saw before. Art is mimesis and good art is, to use another Platonic term, anamnesis, 'memory' of what we did not know we knew. Art 'holds the mirror up to nature'. Of course this reflection or 'imitation' does not mean slavish or photographic copying. But it is important to hold on to the idea that art is about the world, it exists for us standing out against a background of our ordinary knowledge. Art may extend this knowledge but is also tested by it. We apply such tests instinctively, and sometimes of course wrongly, as when dismiss a story as implausible when we have not really understood what sort of story it is.»

Iris Murdoch. "Literature and Philosophy: a Conversation with Bryan Magee". Existentialists and Mystics. Writings on Philosophy and Literature. Edited by Peter Conradi. Penguin Books, 1998.

terça-feira, outubro 21, 2008

As melhores óperas em 10 minutos