quinta-feira, novembro 20, 2008

Política e interpretação

Neste momento, na Sic Notícias, os elementos do Quadratura do Círculo estão a discutir o que é uma ironia; procuram perceber o que pensa Manuela Ferreira Leite quando fala. Pacheco Pereira diz que é preciso perceber o "conteúdo". António Costa fez uma "piada com ironia"... Lobo Xavier interpretou como um exagero (uma hipérbole, portanto). Isto promete.

«Nem sequer cigarros...» (polémicas)

Teixeira de Pascoaes sobre Fernando Pessoa:

«Não digo que foi mau poeta. Digo que não foi poeta, isto é, nem bom nem mau poeta. E se foi poeta, foi-o só com a exclusão de todos os outros, desde Homero até aos nossos dias... Veja a "Tabacaria": não passa de uma bricandeira. Que poesia há ali? Não há nenhuma, como não há nada... nem sequer cigarros!... Fernando Pessoa tentou intelectualizar a poesia e isso é a morte dela».

Teixeira de Pascoaes. Entrevistado por Álvaro Bordalo (in O Primeiro de Janeiro, ano 82, n.º 140, Porto, 24.5.1950). Ensaios de Exegese Literária e Vária Escrita. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

quarta-feira, novembro 19, 2008

A Estrada


Há textos literários que pretendem ser uma reflexão sobre o mal, a violência, a decadência - em última instância, uma reflexão que permita perceber quais os fundamentos de que dispomos para atribuir significado às palavras "humano" e "desumano". A Estrada (tit. orig. The Road, 2006), de Cormac McCarthy , é um desses textos. O ponto de partida é a viagem (metáfora antiquíssima...) de duas personagens, um pai e um filho, em luta contra um espaço devastado, um espaço em que o cinzento domina e o único branco vem do céu, literalmente: em forma de neve. A devastação apocalíptica é «a fragilidade de todas as coisas enfim revelada» (p. 25) (uma das expressões de tom aforístico, quase sibilino, que constituem um traço da escrita de McCarthy); pássaros e árvores são coisas que existem «só nos livros» (p. 106). A viagem até ao Sul é uma viagem de sobrevivência e um imperativo, algo que tem de acontecer porque o pai e o filho são "os bons", as pessoas que não comem outras pessoas. Eles transportam, como Prometeu, o fogo.

A existir uma carga simbólica e alegórica no romance, esta é, pode dizer-se, a consequência de uma escrita (escrita irregular, em que as frases longas, sem dar azo a fôlego, alternam com frases curtas, algumas semelhantes a máximas) que deseja aproximar-se do mistério, daquilo que pode explicar o devir do mundo e dos homens - que pretende aproximar-se de um 'mapa do mundo no seu devir'. A possibilidade de ver na história um símbolo não anula a realidade das personagens porque o mistério está nelas: «Havia alturas em que ficava a ver o rapaz dormir e começava a soluçar descontroladamente, mas não era por causa da morte. [...] achava que era por causa da beleza ou da bondade» (p. 88).

Referência das páginas: C. McCarthy. A Estrada. Lisboa: Relógio d'Água, 2007. Tradução de Paulo Faria.

O mal da sabedoria (H. Bloom)

«Que uso poderá ser o da sabedoria, se só nos é possível alcançá-la na solidão, reflectindo sobre as nossas leituras? A maior parte de nós sabe que a sabedoria desaparece no mesmo instante quando estamos em crise».

Harold Bloom. Onde está a sabedoria?, Lisboa: Relógio d'Água, 2008. Tradução de Miguel Serras Pereira.

terça-feira, novembro 18, 2008

Do congresso ao divã: Manuela Ferreira Leite


- Alô
- PSD!!!!! PSD!!!!!!
- Ó Pacheco Pereira, não esteja constantemente a maçar-me para o telemóvel. Eu se quiser saber de si vou ao seu blogue. Olhe, vá ter com o Lobo Xavier, sim, a ver se eu lá estou…

n' Os Contemporâneos

Uma interpretação possível: «Manuela Ferreira Leite não foi feita para isto» (José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro)

Crises

«Fala-se muito de crise financeira. Mas há uma outra crise ainda mais terrível: a crise de ideias para a resolver.»

José
Medeiros
Ferreira, no Bicho Carpinteiro

sábado, novembro 15, 2008

Uma história da objectividade


«Objectivity has a history, and it is full of surprises. Lorraine Daston and Peter Galison chart the emergence of objectivity in the mid-nineteenth-century sciences — and show how the concept differs from alternatives, truth-to-nature and trained judgment.»

O resto da recensão aqui.

Mente, Cérebro e Filosofia (Kant e Hegel)


Não é, bem entendido, The Encyclopedia of Philosophy, editada por Paul Edwards (New York: Macmillan, 1967), talvez a melhor enciclopédia de filosofia que conheço, mas, como já aqui escrevi, recomendo sobretudo pela clareza com que são tratados temas centrais da filosofia ocidental. Sobre o número 3, dedicado a Kant (9 artigos) e Hegel (3 artigos), não diria que foi certeira a escolha de todas as imagens que acompanham os textos (uma característica importante desta publicação), mas mantenho a recomendação e acrescento outra razão: o preço (4.90€).

sexta-feira, novembro 14, 2008

Sobre o 'animal escondido em Sócrates', 'estética não-aristotélica' e outras coisas (Governo Sombra, 14.11.2008)

Os membros do Governo Sombra comentaram o facto de o 'Sr. Silva' ter exigido, a propósito dos recentes acontecimentos no parlamento madeirense, o «regresso à normalidade». Pedro Mexia observou que a noção de 'normalidade', no caso da política do arquipélago da Madeira, está muito próxima daquilo que definimos como 'anormal'.

A respeito do caso recente sobre Manuel Pinho [para mais esclarecimentos, veja-se o editorial da revista Sábado, com o título sugestivo: "Manuel Pinho e o Obama Português"], foi notado que o primeiro-ministro tende a considerar normal o que é 'escandaloso', e a ficar chocado com 'insinuações'. Ainda sobre José Sócrates, Pedro Mexia quis destacar as recentes declarações do primeiro-ministro em que este parece estar 'à beira de esganar Manuel Alegre' (José Sócrates: «Quanto ao Manuel Alegre, já sabemos que ele está sempre a dar razão a toda a gente menos ao Governo e ao PS. Isso é com o Manuel Alegre»). Para o Governo Sombra, estas declarações lembram que há um 'animal escondido' no primeiro-ministro.

De registar ainda a observação de João Miguel Tavares sobre a manifestação de 100 mil professores ('o facto de estar muita gente na rua não significa que essas pessoas têm razão'), uma proposta de Ricardo Araújo Pereira (um sistema de avaliação com cotas para o governo) e o comentário de Pedro Mexia às recentes declarações 'estapafúrdias' de Manuela Ferreira Leite sobre a comunicação social.

Nas notas finais, espaço para uma referência ao caso do despedimento de Joana Morais Varela, directora da Colóquio/Letras, e à utilidade inquestionável do site da FCG que permite consultar os artigos que foram publicados na revista. Sobre cinema, João Miguel Tavares defendeu que é preferível ver o filme que estiver na sala ao lado de Ensaio sobre a Cegueira, com o argumento de que este 'amplia a dose alegórica excessiva da escrita de Saramago'. A terminar, Ricardo Araujo Pereira propõe que se coma uma cenoura torta (uma explicação para esta proposta pode ser lida aqui). Assim, com a melhor piada do programa, advoga uma 'estética não-aristotélica para os legumes' - legumes que, convém lembrar, 'são para meter no bucho'.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Metaphysicians and 'misplaced poets' (A. J. Ayer)

«Among those who recognise that if philosophy is to be accounted a genuine branch of knowledge it must be defined in such a way as to distinguish it from metaphysics, it is fashionable to speak of the metaphysician as a kind of misplaced poet.»

A. J. Ayer. Language, Truth and Logic, 1935.

terça-feira, novembro 11, 2008

'Portugalidade' (III)



A propósito da questão da 'portugalidade' (e também a outros propósitos), é recomendável a leitura de Portugal e os Portugueses, livro de Manuel Clemente, Bispo do Porto, que a Assírio & Alvim publicou em Abril deste ano. A obra reúne textos diversos (e com origens diversas), desde textos de vertente ensaística, como é o caso de "Relação entre os Portugueses e Portugal", a entrevistas em que Manuel Clemente fala sobre o papel da Igreja Católica no mundo contemporâneo ou (em tom kantiano) sobre a fé entendida como proposta racional não-relativista («[Bento XVI] acredita que o mundo, a vida, são entendíveis numa base que ultrapassa muito o subjectivismo da sensibilidade ou da circunstância. Há estruturas gerais que nos permitem ser Humanidade e que se desistirmos de chegar lá estará tudo perdido», em entrevista conduzida por José Manuel Fernandes e Raquel Abecasis).

Em "Relação entre os Portugueses e Portugal", Manuel Clemente, preferindo a noção de «densidade» à de «hipertrofia» (proposta por Eduardo Lourenço noutros tempos), defende que é a «densidade interior acumulada» que permite explicar a «infinita capacidade de adaptação» dos Portugueses. No mesmo sentido, sugere ainda que a poesia, o retrato poético do que somos, fortalece a relação 'fundamentalmente bíblica' que os Portugueses mantêm com Portugal. Na secção "Notas de Cultura Portuguesa", encontramos textos que remetem para um tempo em que o autor tinha «vagar para História» e nos quais se argumenta, por exemplo, que o culto mariano releva de uma «devoção nacional» (cf. "Maria na devoção dos Portugueses: uma devoção nacional?"). O argumento, escorado numa enumeração de factos históricos, exige, como qualquer reflexão pertinente sobre a 'portugalidade', um juízo crítico sobre a relação entre a História e a teoria.

sexta-feira, novembro 07, 2008

'Portugalidade' (II)

«[...] a melhor ideia que temos de nós próprios provém da poesia e não da prosa. Desta última guardamos sobretudo o que nos distancia de nós próprios, entre a ironia e o sarcasmo. Pensamo-nos mais altamente à maneira de Camões do que à maneira de Eça. Ou, deste último, recolhemos as páginas mais "poéticas" que nos dedicou n'A Cidade e as Serras

Manuel Clemente, Portugal e os Portugueses. Assírio & Alvim, 2008.

'Coisas Boas'

Joan as Police Woman - To Survive

Patricia Barber - The Cole Porter Mix


quinta-feira, novembro 06, 2008

'Portugalidade' (I)

Há dias, depois de ler a entrevista de Carlos Vaz Marques na Ler, lembrei-me das crónicas que Miguel Esteves Cardoso escreveu no Expresso. Em muitas dessas crónicas, com um humor brilhante, procurou (preparando o caminho para outros humoristas) captar os traços da "pinta" dos Portugueses ("A Pinta dos Portugueses" é o título de uma crónica publicada em Os meus problemas). Esteves Cardoso chamou-lhe "pinta" em vez de "identidade", mas as suas crónicas tratam sobretudo desse 'tema importantíssimo' que é o problema de Portugal ou do "ser português" – segundo Eduardo Lourenço, foram os literatos do século XIX que lhe conferiram uma seriedade especial (note-se que os modos de colocar o problema, as suas formulações, variam; Teixeira de Pascoaes, por exemplo, foi ao ponto de conceber a existência de uma “arte de ser Português”; na edição da Arte de Ser Português que tenho, da Assírio & Alvim, o prefácio é de Miguel Esteves Cardoso).
Na verdade, o problema de Portugal continuou a preocupar durante o século XX outras pessoas, para além dos poetas. Recentemente, José Gil alcançou um feito quase histórico para a “filosofia portuguesa”, colocando no top de vendas um livro que pretende tratar do mesmo problema. Falo de Portugal Hoje – O Medo de Existir. Uma vez que o livro vendeu e continua a vender, convém lembrar a existência de um texto – o de Silvina Rodrigues Lopes, publicado no n.º 3 da revista Intervalo, de Maio de 2007 – que contesta a tese defendida por José Gil. Uma síntese do argumento de Silvina Rodrigues Lopes pode ser lida aqui.
(2007 foi também o ano em que Miguel Real publicou A Morte de Portugal, que mereceria um longo post.)

John McCain

É sem dúvida um belíssimo discurso.

«
Esta campanha foi a maior honra da minha vida.»
John McCain

terça-feira, novembro 04, 2008

Miguel Esteves Cardoso

Numa fantástica entrevista, na Ler de Novembro, Miguel Esteves Cardoso fala

- dos livros de Saramago;

(«Acho os livros dele mal escritos. Mal escritos no sentido de serem convencidos da sua própria grandeza, da importância do que ele diz. É uma espécie de declaração ao mundo. Não uma história. Não um romance. A importância dos livros só se verifica muito tempo depois. Não é uma coisa instantânea. Não é uma questão de declarar ao mundo as minhas ideias. Isso fazem os filósofos e outras pessoas assim. Os romancistas são contadores de histórias.»)

- da relação entre a ética do escritor e a escrita;

(«Se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura ficamos com nada. Se se tirarem os bêbados fica-se com zero. Se deixarmos só os livros feitos por pessoas que se portavam bem, tratavam bem a mulher, que eram bons amigos e pagavam as contas a tempo, ficamos só com merda. O único autor que foi boa pessoa e ao mesmo tempo um génio é capaz de ser, sei lá, o Beckett.»)

- dos 'escritores boa onda';

(«O Cardoso Pires era boa onda, um gajo porreiro e um grande escritor. O que ele escanhoou e limpou a lingua! Eu gosto dos que lavam a língua. Há escritores que fazem isso. Despojam-na daquele excesso de ornamentação, de adjectivos, de descrições, de mobília, do raio que o parta.»)

- da poesia (i.e., da literatura) portuguesa;

(«Os grandes escritores são todos poetas. A não ser a Agustina».

«Tu lês o Mário Cesariny ou o Herberto Helder ou o João Miguel ou o Joaquim Manuel Magalhães e ficas... O António Franco Alexandre. O Ruy Cinatti. É uma coisa devastadora. Portanto, o problema está resolvido. Pessoa. Camões. Quer dizer, o problema da nossa literatura está resolvido. Não é preciso inventá-la ou reinventá-la. Está escrita.»)

E de outras coisas, claro.

segunda-feira, novembro 03, 2008

'Diferença' (sobre as eleições americanas)

«[Visão] Como vê o Médio Oriente com Obama em Washington, admitindo que ganha?

Não faz a mínima diferença. Se Obama ganhar, manter-se-á o apoio incondicional a Israel. Nestes 30 anos, sempre que houve eleições nos EUA, os árabes disseram: "Esperemos que seja um democrata, eles serão mais justos." Mas nunca mudou nada. Continuaram as bombas, as invasões e os mísseis.

[...]

[Visão] Fala-se agora em conversas com os talibans para acabar com a guerra, no Afeganistão...

[Risos] Eles sempre falaram com os talibans. É como ouvir os israelitas dizerem que nunca falam com terroristas. Em 1992, falando, no Líbano, com antigos prisioneiros palestinianos expulsos, disse a um deles que ia viajar para Israel no dia seguinte. Ele disse: quer o número de casa do Shimon Peres? Deu-mo e estava correcto! Eles falam sempre.»

Robert Fisk, em entrevista à Visão (Visão, n.º 817)

'Mentes socráticas', por Moritz Schlick

«As long as people speak and write so much more than they think, using their words in a mechanical, conventional manner, disagreeing about the Good (in Ethics), the Beautiful (in Aesthetis) and the Useful (in Economics and Politics), we shall stand in great need of men with Socratic minds in all our human pursuits».

Moritz Schlick, Philosophical Papers. Vol. II. (1925-1936), H.L. Mulder & B.F.B. Van de Velde-Schlick, eds., Kluwer: Dordrecht, 1979, p. 369.

Responsabilidades

«Para não variar, logo no primeiro minuto, o CDS/PP tenta, perante as graves irregularidades no BPN investigadas pelo Banco de Portugal e pela PGR, concentrar as atenções nas eventuais culpas de Vitor Constâncio para que não se fale das responsabilidades dos gestores. Não digo que a fiscalização do papel do Banco de Portugal não seja relevante. Mas é interessante que seja a única coisa que preocupa sempre o CDS e o PSD. Foi assim no BCP, volta a ser assim no BPN. Só se espanta quem não sabe o que a casa gasta. Ouvido o CDS, estou muito curioso em ouvir o que tem o PSD a dizer sobre este caso. Basta ver os nomes dos administradores ao tempo a que reportam as irregularides (ou crimes) que levaram o banco a esta situação para perceber porquê.» Isto escreveu um dos suspeitos do costume.

Concordo com um ponto referido por Daniel Oliveira: penso que se fala muito pouco da responsabilidade dos gestores. E lembrei-me, a propósito desta questão, das palavras que Fernando Faria de Oliveira proferiu há algum tempo no Prós e Contras. Numa altura em que o governo preparava o plano para 'aliviar' a banca (i.e., uma linha de garantias de 20 mil milhões de euros), o presidente da Caixa Geral de Depósitos sublinhou, logo no início do programa, que o plano iria beneficiar sobretudo os clientes dos bancos. E justificou da seguinte forma: no caso de uma crise que afecte seriamente a banca, os clientes serão os primeiros prejudicados. Na verdade, em discursos como este nunca é incluída a questão da responsabilidade dos gestores. Como se os gestores fossem seres intocáveis.

sábado, novembro 01, 2008

A Ficção e a História (sobre as eleições americanas)


Sugeriu-se ontem no programa Expresso da Meia-Noite, da Sic Notícias, que a Ficção - cinema e séries televisivas - pode ter ajudado a tornar mais aceitável para os norte-americanos uma ideia que a História tornou menos aceitável: a ideia de um presidente negro. Deu-se o exemplo da série 24, onde surge o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Como já vem sendo hábito no caso de séries televisivas populares, 24 teve direito a uma "aproximação à filosofia". (Talvez menos optimista a respeito da imagem dos americanos que as acções de Jack Bauer promovem é a posição que Ray McGovern defende num artigo sobre tortura. O artigo começa com a citação de uma passagem dos Irmãos Karamazov.)

Espera-se agora, no caso da vitória de Obama, que a realidade imite a ficção só até certo ponto. Na série, segundo me lembro, o presidente negro era assassinado por conspiradores brancos.

Ainda a propósito das eleições americanas, este é um blogue contra a outra senhora.