sexta-feira, dezembro 12, 2008

Arte e Singularização

«E eis que para se ter a sensação da vida, para sentir os objectos, para sentir que a pedra é pedra, existe aquilo a que se chama arte. A finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo da singularização dos objectos e o processo consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O acto de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objecto, aquilo que já se "tornou" não interessa à arte.»

V. Chklovski. "A arte como processo", in Tzvetan Todorov. Teoria da Literatura - I. Textos dos formalistas russos. Lisboa: Edições 70, 1999 (1.ª edição Théorie de la Littérature, 1965)

Breve apontamento sobre a "seriedade" (Quadratura do Círculo)

Esta noite, no programa Quadratura do Círculo, discutiu-se o problema das faltas dos deputados. Depois de Pacheco Pereira ter proferido palavras pouco simpáticas sobre as qualidades políticas das pessoas que estão na Assembleia da República - a "qualidade política" releva, em seu entender, do sentido de dedicação ao serviço público -, Lobo Xavier sublinhou a pouca importância que o Parlamento tem hoje, não apenas em Portugal, e opinou sobre a transformação dos deputados em funcionários públicos. Referindo-se ao tempo em que era deputado e líder de bancada, considerou que, desde então, foi imposto um sistema de controlo muito rígido. A adopção deste sistema, sugeriu Lobo Xavier, supõe a dúvida sobre a palavra dos deputados - uma dúvida acerca da sua "seriedade". Sobre isto, penso duas coisas: o raciocínio de Lobo Xavier está, em certa medida, certo (i.e., este raciocínio está certo ao supor que a sociedade se deve reger pelo princípio de que, até prova em contrário, as pessoas são sérias); deste raciocínio, não se segue, porém, a conclusão, ou seja, a ideia de que a palavra (dita a quem?) basta. Saber o que se faz no Parlamento é um direito de quem tem o dever de votar, e dispor de meios para poder saber o que por se faz não implica a acusação de falta de seriedade.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Symposium

«And who will deny that the creative power by which all living things are begotten and brought forth is the very genius of Love? Do we not, moreover, recognize that in every art and craft the artist and the craftsman who work under the direction of this same god achieve the brightest fame, while those that lack his influence grow old in the shadow of oblivion? It was longing and desire that led Apollo to found the arts of archery, healing, and devination - so he, too was a scholar in the school of Love.»


Plato, "Symposium", The Collected Dialogues, including the Letters. Edited by Edith Hamilton and Huntington Cairns. Princeton University Press, 1961.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Homens e vermes. A Febre, de Le Clézio


Por fim, com frenesim, todo o corpo transformado em
máquina de cavar, insecto debatendo-se, torcendo-se
no meio do terrapleno, furando buracos por toda a parte,
com os braços, as pernas, os ombros, as ancas, a cabeça mesmo.
"Martin"

...nunca, não, nunca se saberá verdadeiramente até
que ponto o homem não passa dum vermezinho.
"Um dia de velhice"

"A febre", "O dia em que Beaumont travou conhecimento com a sua dor", "Parece-me que o barco se dirige para a ilha", "Atrás", "O homem que anda", "Martin", "O mundo está vivo", "Então poderei encontrar a paz e o sono" e "Um dia de velhice" fazem parte de uma obra que Jean-Marie Gustave Le Clézio, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura 2008, publicou em 1965 (tit. orig. La Fièvre) e que a Ulisseia editou no mês passado, com tradução de Liberto Cruz. Se o modo clássico de narrar se define por um princípio de coerência a que por vezes se chama 'aristotélico', princípio segundo o qual as histórias bem contadas têm princípio, meio e fim, as 'histórias de loucura' reunidas em A Febre são, exactamente, narrativas que negam a noção clássica de bem contar. Este traço parece, no entanto, decorrer de aspectos da 'vida imitada', e não tanto, ou apenas secundariamente, de uma opção estética (do mesmo modo, é improvável uma apreciação meramente estética de "experiências" como o nouveau roman; nestas experiências literárias, associadas a um período em que a palavra "Deus" foi banida do vocabulário de certa filosofia, não deixa de estar em causa, quase freudianamente falando, um certo mal-estar).

Com efeito, quase todas as personagens das histórias de A Febre se caracterizam por uma vivência em que se perdeu a correlação entre sentido e fim. Paoli, na história "O homem que anda", caminha sem sentido, caminha por caminhar («Obliquou então para a direita, e começou a atravessar a praia, sem saber muito bem como é que tudo aquilo acabaria», p. 114). As referências ao passado de cada personagem são praticamente nulas, não existindo também qualquer ideia de futuro, de direcção. O presente é o tempo em que têm lugar acontecimentos que nunca são provocados. Dito de outro modo, aquilo que é vivido pelas personagens não tem, à partida, causa exterior - a sua «febre de inquietação» (expressão de um ensaio de Vergílio Ferreira que tem por título "Ansiedade/angústia e a cultura moderna" e que é possível ler aqui) é como a dor com que Beaumont trava conhecimento, i.e., assemelha-se a uma infecção interna. Contudo, não deixa de ser possível considerar que as várias formas de 'pequena loucura' (expressão que surge no texto de Le Clézio que apresenta as nove histórias) constituem, mais precisamente, reacções a tudo: «porque nem sequer há meio de poder recorrer ao nada para determinar a vida; o homem não está sozinho: coisas comuns e gritantes habitam-no, dão-lhe a sua forma», lê-se em "Um dia de velhice" (p. 213). São como reacções orgânicas de um animal humano, animal consciente da sua finititude, a um modo de vida em que o número das coisas que se fazem (como o número de quilómetros que um homem pode andar) não é «a lei de toda a vida profunda» (p. 103). Em passagens que lembram a definição sartriana de "inferno", os outros são descritos como a multidão anónima que vive mecanicamente, esquecida da sua fragilidade essencial. A multidão feita dos mesmos: «Os homens e as mulheres eram sempre os mesmos por toda a parte; nas suas faces pálidas, os traços não se mexiam, os narizes continuavam fixos, e as rugas não se multiplicavam. E no entanto, estavam em movimento, viviam de maneira ininterrupta» (p. 215).

Escrita que pretende descrever a alucinação, a subversão do real - escrita que procura dizer tudo o que, como a dor, parece escapar à possibilidade de comunicação -, a escrita de Le Clézio atinge também, em certos momentos, a clareza das descrições precisas e exactas.
Um exemplo perfeito é, a meu ver, "Martin", a história, em tom kafkiano, de uma 'metamorfose sem transformação', em que a possibilidade de compreender realmente a existência decorre da percepção de uma semelhança essencial: a semelhança entre o ser humano e um animal que se enrola sobre si mesmo para proteger «a vida palpitante» (p. 149).

Referência das páginas: A Febre, Lisboa: Editora Ulisseia, 2008.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

'Palavras de fósforo' (uma definição de poesia?)

«Palavras de fósforo nasciam em silêncio, enterradas no mais profundo da cabeça, talvez na nuca, e essas palavras acendiam-se e apagavam-se, também, na noite do vazio pré-histórico, prontas a organizarem-se em frases, a modelarem proposições circunstanciais, conjuntivas, interrogativas. Como se reticências as tivessem ligado entre si.»

J. M. G. le Clézio, "O dia em que Beaumont travou conhecimento com a sua dor".

Excerto de uma das 'nove histórias de loucura' incluídas em A Febre (Lisboa: Editora Ulisseia, 2008. Tradução de Liberto Cruz. 1.ª edição - Paris: Gallimard, 1965).

domingo, dezembro 07, 2008

O berço

Poema

Tu estás em mim como eu estive no berço
como a árvore sob a sua crosta
como o navio no fundo do mar


Mário Cesariny, Pena Capital.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

A felicidade não tem história. 'A Viagem do Elefante'

Diz-se, depois de que primeiro o tivesse dito tolstoi,
que as famílias felizes não têm história.
Também os elefantes felizes não parece que a tenham.
José Saramago, A Viagem do Elefante

Na passagem que abre este post, Saramago, fazendo alusão às primeiras palavras do romance Anna Karénina, apresenta uma definição exacta do seu livro mais recente: este livro é a história de um elefante infeliz, porque só os (elefantes) infelizes têm uma história (a Poética de Aristóteles diz, sobre as pessoas, uma coisa parecida por outras palavras...). Classificar o livro como "romance" é ir de encontro à classificação do autor, que, no programa Pessoal...e Transmissível e noutros lugares, defendeu antes a etiqueta "conto longo" (José Saramago parece aliás dar-se mal com certas teorizações sobre o fenómeno literário. Em tempos, afirmou que a distinção entre narrador e autor carecia de fundamento. Segundo relatos de quem estava presente - em Coimbra, creio -, alguns professores de Literatura e de Teoria da Literatura sentiram-se incomodados).

Taxinomias à parte, a crítica tem vindo a descrever o livro como um dos melhores de Saramago desde a atribuição do Nobel (para alguns, a leitura levou à 'reconciliação' com o autor de Memorial do Convento; para outros, a publicação de A Viagem do Elefante é a cereja em cima do bolo, sendo "o bolo" a série de actividades na quais o escritor dá provas de grande vitalidade). A meu ver, há de facto uma diferença, algo de novo, nesta obra de Saramago, mesmo em relação ao romance de 1982. Não diria, como também já se disse, que a novidade se prende com o facto de a narrativa deixar de estar subordinada a "intenções alegorizantes", que transformam a interpretação numa espécie de jogo de adivinhação. Parece-me antes que Saramago, que parece ter lido/ouvido a definição de «romancista» dada por Miguel Esteves Cardoso no n.º 75 da Ler (i.e., o romancista é aquele que conta histórias), escreve a história da viagem de Salomão com uma concepção diferente da "interpretação" e do acto de "ler", concepção que em dados momentos se torna explícita (no n.º 994 do JL, afirma: «As interpretações que possa suscitar são evidentemente livres [...]»).

Há um momento da história em que um padre é chamado a exorcizar, por via das dúvidas, o elefante que D. João III ofereceu a Maximiliano da Áustria. Antes da acção purificadora, há uma discussão sobre a coerência de Jesus (que, sem justificação, matou os porcos onde estavam alojados seres diabólicos, os Demónios que também inspiraram Dostoiévski) que leva o cura a insurgir-se contra um homem que fala dos escritos sagrados sem "saber ler": «E tu quem és para dizeres que jesus não pensou bem, Está escrito, padre, Mas tu não sabes ler, Não sei ler, mas sei ouvir, Há alguma bíblia em tua casa, Não, padre, só os evangelhos, faziam parte de uma bíblia, mas alguém os arrancou de lá, E quem os lê, A minha filha mais velha, é verdade que ainda não consegue ler de corrido, mas, graças às vezes que já leu o mesmo, vamos percebendo-a cada vez melhor» (p. 81). O interessante é que o aviso dado pelo padre, a quem cabe apontar o caminho/a leitura («lembra-te de que quem se mete por atalhos, nunca sai de sobressaltos»), parece descrever a noção do que é compreender ou interpretar o mundo que a narração das várias "peripécias" da viagem vai sugerir.

Como um membro da caravana a quem coube a tarefa de transformar a história (quase épica) de Salomão em Literatura, o narrador/autor acompanha o que acontece, mas, porque está especialmente atento ao funcionamento das palavras (cf. p. 84, p. 155), não dá pistas conclusivas que permitam, por exemplo, asseverar que aquele elefante representa uma pessoa (e que o romance é uma descrição fatalista da existência, um pouco à Ricardo Reis). Podemos falar do romance deste modo, e considerar que a viagem é, como sempre, metáfora de um caminho que é o da própria vida, mas não é Saramago que o determina. Como os humanos, Salomão está sujeito à lei da vida, ou seja, à lei que introduz uma curta distância entre o triunfo e o olvido, mas não deixa de ser um elefante cujos dejectos ofendem o olfacto delicado do arquiduque. De certo modo, é como se a narrativa, porque é feita de palavras (tudo o que temos), fosse apenas o início de uma conversação (p. 84), uma conversação sobre o sentido, algo que, como a própria literatura, talvez se confunda com a "eternidade".

(Referência das páginas: edição da Caminho)

terça-feira, dezembro 02, 2008

Amizade e Interpretação

Uma boa maneira de descrever algumas das coisas que
fazemos às coisas seria dizer que, em todo o mundo, grupos
diferentes de pessoas se reúnem à volta de muitos bocados desse
mundo, atribuindo-lhe intenções, disposições e até linguagens.
Miguel Tamen, Amigos de Objectos Interpretáveis

O livro Amigos de Objectos Interpretáveis é percorrido por uma teoria sobre a interpretação. Na introdução, onde é apresentada uma síntese clara do argumento, Miguel Tamen enumera três teses que o leitor irá encontrar: uma tese sobre a linguagem e sobre o seu uso numa ‘sociedade de amigos’; uma tese que rejeita a existência de objectos possuidores de algo como uma “essência interpretável”; e uma tese sobre pessoas responsáveis pela existência de objectos interpretáveis. Uma teoria da amizade une estas teses, uma vez que se acredita ser o acto interpretativo uma prática de sociedades de amigos (i.e., esta teoria supõe que o acto de interpretar coisas como poemas ou pinturas pode ser análogo ao de fazer amigos). A referência a Aristóteles não fica implícita, e Tamen acrescenta a esta referência dois aspectos: primeiro, a amizade é sintoma de consenso, ideia que surge no início da dissertação aristotélica sobre a amizade nas várias Éticas (para Tamen, sociedades de amigos de determinados objectos caracterizam-se pelo consenso relativamente ao modo de lidar com esses objectos); segundo, é possível falar de amizade sem reciprocidade no sentido aristotélico (i.e., algumas sociedades de amigos limitam-se a ‘fazer falar’ certos objectos).

Título original: Friends of Interpretable Objects (2001). Tradução portuguesa de David Neves Antunes (Lisboa: Assírio & Alvim, 2003).

Alberto Caeiro também se divertia

Entrevista com Alberto Caeiro
«- O amigo que me enviou o seu livro disse-me que ele era renascente, isto é, filiado na corrente da Renascença Portuguesa. Mas eu não creio...
- E faz muito bem. Se há gente que seja diferente da minha obra, é essa. O seu amigo insultou-me sem me conhecer comparando-me com essa gente. Eles são místicos. Eu o menos que sou é místico. Que há entre mim e eles? Nem o sermos poetas, porque eles o não são. Quando leio Pascoaes farto-me de rir. Nunca fui capaz de ler uma cousa dele até ao fim. Um homem que descobre sentidos ocultos nas pedras, sentimentos humanos nas árvores, que faz gente dos poentes e das madrugadas almas. É como o idiota belga dum Verhaeren, que um amigo meu, com quem fiquei mal por isso, me quis ler. Esse então é inacreditável.
- A essa corrente pertence, parece, a Oração à Luz de Junqueiro.
- Nem poderia deixar de ser. Basta ser tão má. O Junqueiro não é um poeta. É um arranjador de frases. Tudo nele é ritmo e métrica. A sua religiosidade é uma léria. A sua adoração da natureza é outra léria. [...]».

Alberto Caeiro. Poesia. Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. Obras de Fernando Pessoa / 18. Lisboa: Assírio & Alvim, 2.ª ed., 2004.
Excerto da "resposta" de Pascoaes aqui.

domingo, novembro 30, 2008

Gaffes

Porque isto é mesmo muito bom, merece ser "citado". Outro sketch d'Os Contemporâneos.



Via Arrastão (e, no Arrastão, via Blasfémias)

'Misturar alhos com bugalhos'; 'Não bate a bota com a perdigota'

As expressões deliciosas que dão título a este post foram ditas no programa Eixo do Mal, no momento de uma discussão que hoje foi particularmente acesa (noutras emissões, o recurso a um tom mais entusiasmado fica quase sempre a cargo de Daniel Oliveira). Clara Ferreira Alves e Daniel Oliveira defenderam, contra Pedro Marques Lopes, a leitura política do "caso Dias Loureiro", o caso que durante esta semana deu azo a coisa nunca vista: o embaraço de Cavaco Silva devido a questões que pode(ria)m comprometer a sua "seriedade", algo que nenhum dos comentadores do programa questionou (de certo modo, o atributo da "seriedade" parece estar para Cavaco Silva como o da "coerência" esteve para Álvaro Cunhal). A discussão fez-me reflectir sobre duas coisas: (1) o conceito de "leitura política"; (2) as vantagens de discussões como esta. No momento em que escrevo, uma possível relação entre estes dois pontos leva-me à conclusão de que o lado mais positivo no caso de polícia em que consiste o caso BPN é o facto de, pelo menos, suscitar debates que lembram a existência de um laço essencial entre política e ética, por outras palavras, debates que lembram que o sistema não funciona quando esse laço é quebrado. O lado negativo, claro está, é que o caso pode vir a ser uma prova de que a noção de política como serviço público, como actividade que implica dedicação à res publica, está, para recorrer a uma expressão também nossa, "pelas ruas da amargura".

sábado, novembro 29, 2008

Ainda sobre o centenário do nascimento de Lévi-Strauss

«A France Presse, assinalando a data, chama-lhe "o último gigante do pensamento francês". [...]A obra de Lévi-Strauss, recordam-nos os dois grossos volumes da Antropologia Estrutural, é também a última tentativa de sistematizar filosoficamente a experiência humana, prosseguindo a aventura dos grandes herdeiros do Iluminismo nos séculos XIX e XX (Marx à cabeça). Em certo sentido, ele é o derradeiro pensador da modernidade, embora paradoxalmente tenha posto em causa os seus fundamentos ao dizer que não há uma evolução histórica da magia para a ciência ou do mito para a razão, antes várias racionalidades coexistentes, como sugere em La Pensée Sauvage, Le Totémisme Aujourd'hui ou o delicioso Mito e Significado».

O texto de Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte.

sexta-feira, novembro 28, 2008

A arca

Graças ao trabalho desenvolvido pelo Instituto de Estudos sobre o Modernismo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, já temos isto e isto.

'Máquinas que criam mitos' - sobre os 100 anos de C. Lévi-Strauss

«Se, para Bergson, o Homem seria uma “machine à faire des dieux”, para CLS, parafraseando essa visão, o Homem pode ser visto como uma “machine à faire des mythes” (embora não só, claro: também é natural que produza ciência, que por sua vez se espelha em mitos).»
Hermínio Martins.
O texto completo no blogue Os Livros Ardem Mal.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Literatura e sabedoria segundo Harold Bloom


Mas o Sublime nietzschiano, como o de Longino e o de Shelley,
baseia-se no abandono dos prazeres mais fáceis em vista da
experiência de outros mais difíceis. A poesia forte é difícil,
e é memorável em consequência de um prazer difícil,
sendo que um prazer suficientemente difícil é uma espécie de dor.
Hardol Bloom, Onde Está a Sabedoria?

Em cada obra de génio reconhecemos os nossos pensamentos
postos de lado; regressam a nós como uma certa majestade alheia.
Emerson, "Confiança em si", citado por H. Bloom

Onde está a sabedoria?, título editado recentemente pela Relógio d'Água, é a tradução de uma obra que Harold Bloom publicou em 2004 (título original: Where Shall Wisdom be Found?) e dedicou a Richard Rorty. Nas primeiras linhas, Bloom esclarece que o livro «surge de uma experiência pessoal, reflectindo a busca de uma sageza capaz de aliviar e esclarecer os traumas resultantes do envelhecimento, da recuperação de uma doença grave e da dor causada pela perda de amigos queridos» (p. 15). Com efeito, ao longo de três partes/capítulos, Bloom procura reflectir sobre a relação entre a leitura e a procura da sabedoria (ou "sageza", para manter a palavra que me lembro de ter lido pela primeira vez numa descrição de Maina Mendes, romance de Maria Velho da Costa). Dirigindo-se a 'leitores comuns' e tomando como ponto de partida a ideia de que «fiéis ou não, todos nós aprendemos a aspirar à sabedoria, seja onde for que possa estar» (p. 15), Bloom, que se autodefine como «judeu e gnóstico» (p. 236), nunca chegará a tomar como sinónimos "sabedoria" e "conforto". Neste sentido, uma paráfrase justa do seu pensamento será: 'aprendemos coisas com os autores sapienciais (eg. aprendemos a conhecer os nossos limites) mas essa aprendizagem não é uma forma de conforto'.

Na reflexão que desenvolve, Bloom parte da interpretação dos autores que, em seu entender, formularam um pensamento novo e contribuíram para uma redefinição do que somos como ocidentais, ocupando deste modo o panteão dos autores mais "influentes" (sim, Bloom retoma em vários momentos a tese que defendeu em A Angústia da Influência, de 1973, e que agora sintetiza tão bem na frase: «toda a literatura forte é uma espécie de roubo», p. 145). Entre eles, estão os autores do Livro de Job (que ensina uma forma de temor derivada da consciência de que «não possuímos uma linguagem apropriada para os nossos contactos com o divino», p. 24) e do Eclesiastes (que formula uma "sabedoria da aniquilação", mais tarde retomada por Shakespeare), Platão (que pretende rivalizar com Homero e ascender ao lugar de filósofo-educador da Grécia; para Bloom, a melhor interpretação da querela foi apresentada por Iris Murdoch no ensaio "The Fire and the Sun", incluído num volume que citei aqui), Homero (cuja obra, contendo uma concepção da vida como campo de batalha de forças arbitrárias, disputa com os primeiros escritos do Antigo Testamento 'a consciência das nações do Ocidente'), Shakespeare e Cervantes (autores sapienciais da literatura moderna, o primeiro realizando uma síntese única de ideias antigas e modernas, o segundo tratando a 'literatura' como tema), Montaigne (sábio universal e pragmático, que nos leva à aceitação de nós próprios e cujos ensaios são um tributo à lucidez humana), Francis Bacon (uma espécie de poeta da prosa com tendências prometaicas), Samuel Johnson (escritor dado aos aforismos que afirma a vida e nega quaisquer interpretações dogmáticas), Goethe (que legou o ideal da Bildung), Emerson (esse Goethe americano que formulou a doutrina da confiança em si e deixou muitos discípulos; Bloom refere Whitman e poderia ter acrescentado F. Pessoa), Nietzsche ('poeta falhado' defensor de um esteticismo extremo e que percebeu as virtudes cognitivas da poesia), Freud (segundo Bloom, nunca estamos livres de Freud mas Freud, por seu turno, também não conseguiu libertar-se do pensamento judaico segundo o qual tudo é passado e tudo é semanticamente sobredeterminado) e Proust (o romancista que, como nenhum outro, transformou o ciúme em metáfora do "combate estético pela imortalidade"). Na última parte (Sabedoria Cristã), Bloom elabora uma caracterização do pensamento gnóstico (partindo do comentário do Evangelho apócrifo de S. Tomé) e sublinha a importância das reflexões agostinianas sobre o valor da leitura, i.e., sobre aquilo que podemos esperar da relação com os textos.

O texto de Bloom, note-se, é suportado pela possibilidade de estabelecer uma diferença entre autores sapienciais e filósofos. Ao primeiro grupo pertencem escritores como Platão e Shakespeare; no segundo, Bloom inclui figuras da história intelectual do ocidente como Hume ou Wittgenstein. Se a diferença supõe a influência como ideia central, é sempre possível argumentar sobre o carácter influente, ou seja, discutir sobre o cânone. E Bloom é, de resto, um crítico que não hesita em "polemizar" quando se trata de defender os clássicos e o cânone da literatura ocidental. Em Onde está a sabedoria? não faltam as invectivas contra as 'enxurradas' de literatura light (assim como as referências muito pouco simpáticas à administração Bush).


Referência das páginas: Harold Bloom. Onde está a sabedoria?, Lisboa: Relógio d'Água, 2008. Tradução de Miguel Serras Pereira.

Política e formas de amizade

A propósito deste texto, lembrei-me disto:

«Os motivos pelos quais a amizade nasce distinguem-se segundo três formas essenciais; de acordo com esses três motivos, assim também são as respectivas formas de amizade. Há três formas essenciais de amizade e igual número de formas que caracterizam os objectos susceptíveis de amor. Segundo cada uma delas é possível uma afeição recíproca que não passe despercebida, e os que sentem amizade recíproca desejam-se mutuamente coisas boas, com base no modo como definem a sua amizade. Os que definem a sua amizade com base na utilidade não são amigos por aquilo que eles próprios são, mas pelo bem que daí pode resultar para ambos. De modo semelhante, acontece com os que definem a sua amizade com base no prazer, pois não se gosta de pessoas divertidas pelas qualidades do carácter que têm, mas por serem agradáveis. [...]
Mas a amizade perfeita existe entre os homens de bem e os que são semelhantes a respeito da excelência. Esses querem-se bem uns aos outros, de um mesmo modo. E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são.»

Aristóteles. Ética a Nicómaco. Tradução e notas de António C. Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2004, pp. 182-184.

terça-feira, novembro 25, 2008

Pois, há 'outras questões'

«O cineasta e realizador português João Botelho propõe-se fazer a adaptação cinematográfica do Livro do Desassossego. Para quando? Conseguirá ou não apoio? Essas são outras questões.»

Lido na Time Out Lisboa (Novembro de 2008, n.º 60).

segunda-feira, novembro 24, 2008

Apontamento sobre "A Turma"

Este post pretende ser um apontamento. Corrijo: este post só pode ser um apontamento, um texto que se define pela brevidade e (esperemos) pela clareza, porque o filme A Turma (Entre les Murs, de Laurent Cantet) escapa a qualquer interpretação que pretenda reduzir a sua complexidade, a qualquer interpretação que procure, por exemplo, atribuir-lhe à partida um tema. É verdade que a câmara está sempre dentro da escola (no pátio, no sala de aula, na sala do director, na sala de professores, no refeitório) e que, durante a maior parte do tempo, assistimos a uma aula de francês - o que poderia remeter-nos, desde logo, para o tema da educação -, mas também é certo que os momentos de maior tensão no filme correspondem a situações em que alguém abandona a sala de aula. Neste sentido, parece-me que o filme trata, mais propriamente, da capacidade (prefiro "capacidade" a "problema") de resistência à educação que caracteriza o ser humano (e eu gostaria de introduzir aqui o advérbio "felizmente"). Com efeito, a dada altura, um dos alunos dá a entender que é um erro pensar-se que a escola consegue "domar" alguém; certo é que, logo no início do filme, um dos professores exprime a sua impotência, a sua incapacidade de educar, dizendo que os alunos se comportam como animais. A ironia está nisto: se os alunos (as pessoas) fossem como "animais", Pavlov teria resolvido o problema da educação.

Tratar-se de uma aula de Francês, uma aula de língua - língua materna para muito poucos alunos - não é facto despiciendo. A discussão sobre o significado de palavras e expressões que, para alguns alunos, não passam de barulhos sem qualquer sentido, é perfeita como exemplo das dificuldades inerentes ao acto de ensinar. As palavras, como diria um filósofo importante, ganham sentido em jogos de linguagem; e o ponto é que a escola de hoje (dita "inclusiva") tem imensa dificuldade em afirmar-se perante todos os outros jogos. Em certo sentido, o professor da turma de "A Turma" aprende isto mesmo; como consequência do desentendimento com duas alunas, percebe que o significado das palavras não é algo que a escola possa impor.

Por fim, também não será por acaso que o filme termina com uma bela, e justa, descrição do método dialéctico praticado pela personagem principal d' A República. Ao escutar com fascínio a explicação do procedimento maiêutico de Sócrates, explicação apresentada por uma aluna, o professor torna-se o interlocutor visado, ou seja, naquele momento, ele percebe os limites do seu pensamento.

Ainda a propósito da democracia - algumas notas

Na palavras que disse no dia 18, e que muita celeuma causaram, Manuela Ferreira Leite deixou implícita a tese de que é difícil fazer reformas em democracia. Penso que este é o ponto mais importante daquilo que disse. Em traços gerais, houve dois tipos de reacções à tese. O primeiro tentou escamotear o ponto sério, centrando-se em questões de retórica e estilística e dando assim origem a debates que tiveram, verdade seja dita, alguma piada. (O problema que encontro nestas discussões é o facto de se assumir que as discussões sobre palavras valem a pena porque a política é, essencialmente, uma arte de palavras.) O segundo tipo de reacção baseou-se na ideia de que aquela tese revela, muito simplesmente, a simpatia por um modelo político autoritário. De qualquer modo, do meu ponto de vista, podemos (1) considerar que a tese é defensável sem cairmos em autoritarismos, ou seja, podemos afirmar que é difícil fazer reformas em democracia querendo com isso dizer que a essência do “voto democrático” é a possibilidade de escolher caminhos de governação alternativos, ou (2) pensar que a tese só é defensável por pessoas que advogam um regime autoritário alicerçado na ideia, antiga (veja-se o argumento dos livros V e VI da República), de que há seres especiais, iluminados, que detêm um tipo de conhecimento superior ao da grande maioria das pessoas. Sendo possível admitir a primeira destas interpretações, aquilo que importaria saber não é o “grau de ironia” com que MFL disse o que disse, mas antes se as suas palavras comportam um lamento sobre as imperfeições inerentes ao sistema democrático. Não vale a pena citar Churchill, mas parece-me que, a existir esta lamentação, é como se as duas interpretações se fundissem e estivéssemos perante uma ideia sobre a perfeição do modelo político que releva da apologia de um consenso absoluto e inalterável.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Está tudo explicado: Manuela Ferreira Leite é divertidíssima e, por isso, precisa de um hermeneuta como assessor (Governo Sombra, 21.11.08)

Rui Miguel Tavares começou por destacar o caso BPN e lamentou a 'aparente' incompetência de Dias Loureiro. Pedro Mexia louvou o facto de o PSD propor uma comissão de inquérito sobre o caso e considerou estranha a permanência de Dias Loureiro como membro do Conselho de Estado. Para Ricardo Araújo Pereira, é "interessante" pensar que todos os envolvidos foram governantes.

Pedro Mexia quis falar sobre a actual situação do partido socialista francês e sublinhou que o momento vivido pelo partido da oposição em França permite reflectir sobre o futuro da esquerda. Rui Miguel Tavares tomou o caso como exemplo do "estilhaçamento" que tem afectado partidos arredados do poder. Mexia destacou também duas notícias que chegam de Espanha: a prisão de um dos líderes da ETA e a desistência de Baltasar Garzón de investigar desaparecimentos ocorridos durante a Guerra Civil e o franquismo (desistência justificada pelo facto de terem morrido todos os acusados).

Ricardo Araújo Pereira escolheu, como Mexia, a pasta dos Negócios Estrangeiros e deixou um aviso à Comissão Europeia: expulsar Durão Barroso pode ter consequências trágicas porque não se sabe quem aparecerá para ocupar o lugar... Mostrou-se também "agastado" com as entrevistas de Manuel Alegre.

Os factos recentes que dão conta de uma ligação da principal claque do Benfica ao tráfico de droga deram azo a observações curiosas. Porque também se fala da mesma situação noutras claques, Ricardo Araújo Pereira considerou que isto é tudo muito bom para estimular a economia da Colômbia e o fair play.

Um tema importante no programa foi o da ironia de Manuela Ferreira Leite. Depois de notarem que muitas coisas que Manuela Ferreira Leite diz não são para levar a sério, os membros do Governo Sombra concluíram que a líder do PSD é muito divertida. Assim, faz falta ao partido um hermeneuta que ajude a esclarecer as subtilezas do discurso.

Sobre a postura de Maria de Lurdes Rodrigues, Rui Miguel Tavares considerou a possibilidade de um "problema genético lusitano" que ajudaria a explicar por que razão os governantes portugueses não conseguem reunir dois traços: vontade de reformar e capacidade de diálogo. Ricardo Araújo Pereira considerou curioso o facto de a ministra ter cedido perante quem atira ovos [esta semana, o título da crónica semanal que assina na Visão é, precisamente, "O ovo da C+S Cristóvão Colombo"].

Os decretos da semana foram: ter os olhos na política americana (Rui Miguel Tavares); que os humoristas norte-americanos continuem a desempenhar de forma genial o seu papel (Pedro Mexia); que Carlos Queirós seja submetido a uma avaliação rigorosa, ficando com menos tempo para treinar (Ricardo Araújo Pereira). Pegando no decreto de Ricardo Araújo Pereira, Mexia reiterou uma ideia: um treinador não pode usar termos como "naïf" em conferências. Daqui a pouco, imagine-se, a discussão sobre o dasein heideggeriano chega ao balneário...