terça-feira, fevereiro 10, 2009

Um 'bem haja' ao projecto Gutenberg



Clicando aqui é possível ler esta maravilha: Paisagens da China e do Japão (1906), de Wenceslau de Moraes.

(Obrigada, Manuel)

Pequeno pretexto para ir dar um passeio a Itália...



Um clássico dos Pixies




I was swimmin' in the Carribean
Animals were hiding behind the rock
Except the little fish
...

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Vale uma aposta?

Faz parte da história da filosofia ocidental a tentativa de argumentar racionalmente a favor da existência de Deus. O argumento mais conhecido é, talvez, o de Santo Anselmo: o argumento ontológico (a ratio Anselmi). Relativamente a Santo Anselmo ou Descartes (que precisava de um "Deus" que certificasse o conhecimento humano), Pascal modificou os termos em que o problema foi colocado, e, em vez de tentar provar que Deus existe de facto, concentrou-se nas razões de que dispomos para postular tal existência. A entrada "Pascal's Wager" da Standford Encyclopedia of Philosophy explica detalhadamente o argumento de Pascal, sintetizando-o assim: «To put it crudely, we should wager that God exists because it is the best bet.»

Examinons donc ce point, et disons : Dieu est, ou il n’est pas. Mais de quel côté pencherons-nous ? La raison n’y peut rien déterminer : il y a un chaos infini qui nous sépare. Il se joue un jeu, à l’extrémité de cette distance infinie, où il arrivera croix ou pile. Que gagerez-vous ? Par raison, vous ne pouvez faire ni l’un ni l’autre ; par raison, vous ne pouvez défendre nul des deux.Ne blâmez donc pas de fausseté ceux qui ont pris un choix ; car vous n’en savez rien.— « Non; mais je les blâmerai d’avoir fait, non ce choix, mais un choix ; car, encore que celui qui prend croix et l’autre soient en pareille faute, ils sont tous deux en faute : le juste est de ne point parier ».—Oui ; mais il faut parier ; cela n’est pas volontaire, vous êtes embarqué. Lequel prendrez-vous donc ? Voyons. Puisqu’il faut choisir, voyons ce qui vous intéresse le moins. Vous avez deux choses à perdre : le vrai et le bien et deux choses à engager : votre raison et votre volonté, votre connaissance et votre béatitude, et votre nature a deux choses à fuir : l’erreur et la misère. Votre raison n’est pas plus blessée, en choisissant l’un que l’autre, puisqu’il faut nécessairement choisir. Voilà un point vidé. Mais votre béatitude ? Pesons le gain et la perte en prenant croix que Dieu est. Estimons ces deux cas : si vous gagnez, vous gagnez tout ; si vous perdez, vous ne perdez rien. Gagnez donc qu’il est, sans hésiter.[…]Et ainsi, notre proposition est dans une force infinie, quand il y a le fini à hasarder à un jeu où il y a pareils hasards de gain que de perte, et un infini à gagner. Cela est démonstratif ; et si les hommes sont capables de quelque vérité, celle là l’est.

Sideways




É um filme de 2004. Chama-se Sideways e é muito bom.
Quem também fala sobre os nossos "amigos vinhos" é Jonathan Nossiter, o autor de Mondovino, em entrevista à Ler deste mês.

sábado, fevereiro 07, 2009

Frases profundas

«Gosto de guindastes e gosto de contentores.»

José Sá Fernades em entrevista à Sábado (n.º 249)

O "negócio" dos trabalhos académicos

Na revista Sábado desta semana (n.º 249):

Teses académicas à venda na Net
Há à venda em Portugal teses de doutoramento que podem chegar aos 50 mil euros. De acordo com o Diário de Notícias, o negócio dos trabalhos académicos por encomenda estende-se aos mestrados e às licenciaturas - e com preços de todo o tipo. Muitos desses trabalhos são publicitados pela Internet, meio por excelência para o negócio. No entanto, em muitos casos os artigos comprados acabam por se revelar como verdadeiros plágios - e só por isso os prevaricadores são descobertos.
(p. 16)

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Uma selecção de Jack London por Jorge Luís Borges

A ler no Ípsilon de hoje:

Gustavo Rubim sobre A Mão de Midas, um livro que reúne cinco contos de Jack London. Os contos foram escolhidos por Jorge Luís Borges, que assina também a introdução.



quinta-feira, fevereiro 05, 2009

O amor é outra revolução - uma história de Arthur Miller


Foi quando me saiu pela boca fora:
- Que se foda o futuro.
A. Miller. Uma rapariga simples

Há livros que prendem os leitores nas primeiras linhas. Depois, há duas hipóteses: ou convencem ou são um desapontamento. No primeiro caso, a promessa de grandeza e profundidade cumpre-se; no segundo, concluímos, finda a leitura, que poderíamos ter ocupado o nosso tempo com outras coisas. Pertence ao primeiro tipo de livros Uma rapariga simples, de Arthur Miller. Começa assim:

Nessa segunda-feira de manhã, Janice acordou com frio, o que era estranho: parecia que um vento lhe soprava por cima à medida que despertava de um sono profundo, lembrando-se de que era Junho e que na véspera tinha estado calor em Central Park. E abrindo os olhos virada para ele, como de costume, viu que a cara dele estava estranhamente pálida. Apesar de nela ainda ainda persistir o que ela chamava sorriso do sono e da habitual expressão de felicidade nas comissuras da boca. Mas parecia mais pesado em cima do colchão. Percebeu imediatamente e com horror levantou a mão e tocou-lhe na bochecha. Era o fim de uma longa história.

A pequena história de Miller começa, portanto, pelo fim, e isto em dois sentidos: num sentido que se prende com a "diegese", isto é, com a história contada, começando com a morte de uma personagem (Charles), e num sentido que releva da construção da narrativa, porque é o fim dessa narrativa, e aquilo que se segue, ao longo de sessenta páginas, constitui um retrato de Janice, a personagem que acorda ao lado de um morto. A descrição deste momento contém, aliás, um pormenor importante: Janice estava virada para Charles («como de costume») e Charles, saberemos depois, era cego. Ele não a poderia ver, mas isto significava, para Janice, a paz.

Antes de Charles, existiram vários homens. Desses, as figuras familiares representam algo que Janice quis abandonar - como fez, de facto, ao esquecer-se das cinzas do pai, David Sessions, num bar:

- Queres dizer que as perdeste? - Ela desligou, cortando-lhe a palavra, assustada. Tinha deixado o papá no bar. Sentiu uma fraqueza nas pernas à medida que a surpreendia um medo supersticioso. Toda a sua negação ateia da religião colapsou e teve que se recompor. Finalmente, pensou ela, o que é o corpo? Só a ideia de uma pessoa interessa, e o papá está dentro do meu coração. [...] Tentou lembrar-se de um filósofo clássico que talvez tivesse reconciliado as duas verdades, mas cansou-se do esforço.
[...]
Veio-lhe à mente um pensamento estranho: o corpo era uma coisa mais abstracta que a alma, que nunca desaparecia.

O irmão e o primeiro marido, Sam, encontram-se em posições muito distintas mas igualmente insuportáveis. Se o primeiro representa o desejo de enriquecer por especulação (que Janice rejeita assim: Viver para o dinheiro tem qualquer coisa de errado. Não quero começar.), Sam representa a ideologia incapaz de chegar até à vida e à arte - a ideologia enquanto impossibilidade de ver para além de uma grelha (comunista) de interpretação do mundo. Na verdade, Sam não consegue "ver" Ticiano ou Rembrandt, do mesmo modo que é incapaz de "ver" o que há de inaceitável no pacto assinado por Estaline e Hitler:

Mas era penoso olhar para os quadros dos museus com ele ao lado - ela tinha tirado um curso de história de arte em Hunter - e ouvir apenas de Picasso que ele se tinha convertido ao partido ou sobre os códigos secretos anti-monárquicos escondidos na pintura de Ticiano ou sobre as metáforas da luta de classes em Rembrandt.

A "imensa felicidade" que representará para Janice o amor de um cego, Charles, não se prende apenas com a tranquilidade que advém de não se sentir julgada pela beleza do rosto, ou pela ausência dela. Resulta de algo mais profundo e não muito diferente da verdade sobre pintura que tentara, em vão, explicar a Sam. No fundo, trata-se da possibilidade de a verem de forma justa, porque talvez isso tenha tudo a ver com o amor.

[Sam] - Eles não têm necessariamente consciência disso, claro, mas os grandes nomes estavam sempre em oposição à classe dominante.
[Janice] - Mas, querido, isso não tem nada a ver com pintura.


Arthur Miller. Uma rapariga simples. Lisboa: Editorial Teorema, 1997 (tít. orig. Plain Girl, 1992, 1995). (A tradução portuguesa apresenta alguns erros e gralhas.)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

"Doidinhos pela economia!": Eça no seu melhor

II
Maio 1871

Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista, e o constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro partidos oficiais, com jornal e porta para rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros, de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! Eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? - Vejamos.
O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.
O partido histórico é constitucional, monárquico, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.
O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.
O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!
Todos quatro são católicos,
Todos quatro são centralizadores,
Todos quatro têm o mesmo afecto à ordem,
Todos quatro querem o progresso, e citam a Bélgica,
Todos quatro estimam a liberdade.
Quais são então as desinteligências! - Profundas! Assim, por exemplo, a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.
O partido histórico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas. O partido regenerador nega, nega, numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são - as Públicas Liberdades.
A conflagração é manifesta!
[...]
Eça de Queiroz. Uma Campanha Alegre, de "As Farpas".
Lisboa: Livros do Brasil, 2000, pp. 31-32.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Steve McQueen sobre "Hunger"


Qu'est-ce qui vous a amené à tourner ce film sur la prison de Maze, l'Irlande du Nord en 1981 et la personnalité de Bobby Sands?

J'avais onze ans à l'époque, et l'idée d'un homme qui s'arrêtait de manger pour être entendu m'avait beaucoup frappé. Ce mélange d'une nourriture qui n'entre pas dans la bouche pour que le son qui en sorte soit plus fort, c'est troublant, c'est une situation orale qui me fascinait. Deux autres événements concomitants m'ont marqué: les émeutes de Brixton, et la victoire de mon équipe de football, Tottenhan Hotspurs, en finale de la coupe d'Angleterre. Tout cela réuni a representé un éveil pour l'adolescent que j'étais. C'est encore la même anée qu'eut lieu le mariage royal, avec tout le nationalisme qui l'accompagnait. Quant à la personnalitité de Bobby Sands, Jean-Luc Godard, dans une conversation avec la critique Pauline Kael, à New York, où ils ne parvenaient pas à s'entendre, avait déclaré que si Bobby Sands était quelqu'un d'important, c'est parce que'il avait une caractère enfantin. Kael avoua plus tard qu'elle n'avait pas compris ce qu'il voulait dire. Moi, cela m'a fait penser à l'enfant assis à table qui refuse de manger, à qui les parents disent en quittant la salle à manger qu'il n'ira pas se coucher avant d'avoir fini son plat. Cet enfant seul dans une pièce, résistant par l'unique moyen qu'il ait à sa disposition, représente pour moi une image forte, assez voisine de celle que j'avais de Bobby Sands.

La prison de Maze m'intéressait parece que l'extraordinaire y devenait ordinaire. Pendant quatre ans et demi, ces prisoniers étalaient leurs excréments sur les murs et pissaient dans leur cellule. C'était devenu la norme. C'était surréaliste, comme de la science-fiction, et je voulais observer cet environnement et comprendre comment des êtres humains pouvaient vivre dans ce monde inimaginable.

Steve McQueen em entrevista à Positif (Novembre 2008, n.º 573)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Intelectuais

«As universidades são óptimas prisões para que os intelectuais não venham cá para fora fazer merda».

João Pereira Coutinho (aqui)

domingo, fevereiro 01, 2009

Um desabafo: o que me irrita em Heidegger

Não são as análises etimológicas, análises muito chatas (que alguns descrevem, eufemisticamente, como "forçadas"); nem a criação de palavras por justaposição para exprimir 'ideias novas'; nem a tendência para omitir passagens dos autores comentados, quando essas passagens põem em causa todo o comentário - não é isto. Aquilo que irrita mesmo em Heidegger é o facto de a definição de "Ser" ficar sempre em aberto. Sim, sabemos que os pré-socráticos descobriram a pólvora. E que Platão, coitado, não percebeu. E sabemos que o Ser dos pré-socráticos é o "Ser na sua presença", o "Ser na sua claridade", o "Ser que se vai revelando". E depois é-nos dito que o Ser, afinal, é o tempo, porque a verdade "é aquilo que aparece". Pois...

sábado, janeiro 31, 2009

Numa mercearia perto de si


Aqui perto só encontro esta:


quinta-feira, janeiro 29, 2009

Vamos lá falar um bocadinho sobre o pragmatismo

Sobre "método" de Paul de Man e outras questões

Outras questões como sejam: a possibilidade de uma interpretação filologicamente fundamentada, o carácter autotélico de todas as teorias, historicismo versus teoria, etc.. Quem se interessar por isto pode dar um salto até aqui.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Espirituosos e afins




«Ordinariamente, chamam-se, à francesa - espirituosos -, uns sujeitos dotados de génio motejador, aplaudidos com a gargalhada, e aborrecidos àqueles mesmos que os aplaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», à moderna, abrange os variados ofícios que, antes da nacionalização daquele estrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de casa, outros importados:
Chocarreiro - trejeiteador - arlequim -palhaço - proxinela - polichinela - maninelo - truão - jogral - goliardo - histrião - farsista - farsola - vejete - bobo - pierrot - momo - bufão - folião, etc.
Esta riqueza de sinonímia denota que o bobo medieval bracejou na Península Ibérica vergônteas e enxertias em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies.
Ora, o "espirituoso" tem de todas. A antiga jogralidade, que era mester vil, acendrada nos secretos crisóis do progresso social, chegou a nós afidalgada em "espírito", e com o foro maior de faculdade poderosa, cáustica, implacável.
Ainda assim o estreme espírito português, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça


Camilo Castelo Branco. "Gracejos que Matam", Novelas do Minho, vol. I., Porto: Lello & Irmão, 1980.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Dante, por Gustave Doré



- É um caso de amor infeliz, Sr.ª D. Felicidade - disse Julião. - É a história triste de Paulo e Francesca de Rimini.

Eça de Queirós, O Primo Basílio. Episódio Doméstico

segunda-feira, janeiro 26, 2009

"The pursuit of happiness" (não é literatura de auto-ajuda)


«Although I have no intention of attempting anything so rash as a 'history of mankind', I do believe that a history of happiness, at least initially, should be an intellectual history, a history of conceptions of this perennial human end the strategies devised to attain it, as these evolved in different ethical, philosophical, religious, and, I would add, political contexts, For whatever else might be (and it is, assuredly, many things), happiness in the West has functioned above all as an idea - an idea and aspiration that for particular reasons has exercised a powerful hold on the Western imagination. Given, as Freud recognized, the immense difficulty, even impossibility, of ever judging another's state of happiness with precision (indeed, of judging our own), I have chosen instead to focus on representations of the term and concept as these have developed over time. The changes [...] have been dramatic - so much that the "happiness" of yesterday bears only a scarce resemblance of the happiness" of today. But by charting the history of this development, and tracing the genealogy of what is now an overarching aspiration, I hope to show that there are important connections nonetheless.»
Darrin McMahon (prefácio, p. xiv)

Darrin McMahon. The Pursuit of Happiness. A History from the Greeks to the Present. Penguin Books / Allen Lane, 2006.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Interpretações cegas

Paul de Man sobre 'as exegeses que Heidegger consagrou a Hölderlin':

«Compreende-se que Heidegger tenha necessidade de uma testemunha [i.e. de uma testemunha da presença do Ser]. Mas porque tem esta de ser Hölderlin? Existem, bem entendido, razões secundárias, sentimentais e nacionais, a seu favor; estes comentários, concebidos imediatamente antes e durante a guerra, estão ligados muito directamente a uma meditação atormentada sobre o destino histórico da Alemanha, meditação essa que encontra eco nos poemas ditos "nacionais" de Hölderlin. [...] Existe todavia uma outra razão, bem mais profunda, que justifica esta escolha: é que Hölderlin diz exactamente o contrário daquilo que Heidegger o faz dizer».

Paul de Man. "As exegeses de Hölderlin por Martin Heidegger". O Ponto de Vista da Cegueira. Tradução de Miguel Tamen. Angelus Novus & Edições Cotovia, 1993. Título original Blindness and Insight. Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism (1971, 1983).