quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Sobre os "luseiros"... (não resisti a citar isto)

Depois de ter ouvido há pouco que o Sporting (que no outro dia deixou os adeptos em delírio) perdeu hoje por 0-5, não resisto a uma citação. E atenção que o que segue é um "exercício de humor":

«Os esportinguistas não são losers no sentido americano. São luseiros genuínos. É verdade que perdem muito. Mas esfalfam-se. Correm como doidos.
Aplicam-se denodadamente mesmo quando já vão três na bilha e só faltam vinte segundos. Nunca desistem; tal é o brio em perder.
São artistas da derrota, luseiros de primeiro. Marcam primeiro; o jogo parece ganho mas, graças a não sei que artes, acabam sempre por alcançar o objectivo. Chegam a jogar muito bem - estão provavelmente entre as melhores cinquenta equipas portuguesas. E podem melhorar. Os jogadores vão a todas. Esgotam-se fisicamente. Enquanto outras equipas que eu cá sei (como aquela do bairro do Benfica) se contentam com um florilégio de tornozelo aos 83 minutos; os jogadores do Sporting comportam-se conforme os princípios (e digo isto sem ironia) mais nobres do desporto inglês: o importante não é ganhar. É jogar; participar; fazer o melhor que se pode e, sobretudo, perder.
Não é possível, sem ajuda, que uma equipa tenha tanto azar como o Sporting. Vez após vez, conseguem perder jogos que mereceriam ganhar. Contratarão orixás banidos que lhes polvilhem o relvado de pragas? Sem dúvida.»

Miguel Esteves Cardoso. "Só para benfiquistas".
A minha andorinha. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006. p. 175.

Outra maravilha. De Courbet


La femme au perroquet (1866)
Oil on canvas
The Metropolitan Museum of Art, New York

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Pessimismo (?) a propósito de Courbet

Eu dou um rebuçado ao senhor juiz se 1% dos licenciados portugueses — e não necessariamente dos que concorrem à polícia ou à magistratura — tiver alguma vez ouvido falar de Cindy Sherman ou Matthew Barney. Courbet? A que título?

Eduardo Pitta, "Ainda Courbet", no Da Literatura

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Ainda sobre o "Slumdog Millionaire"

Agradeço ao Ricardo Gonçalves, autor do blogue CineArte, a análise - a meu ver, justa e bem fundamentada - do filme Slumdog Millionaire e o link para as notas que escrevi sobre o mesmo filme.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Finais felizes. Algumas notas sobre o filme "Slumdog Millionaire"

Segundo li em alguns blogues - o Sound + Vision foi um deles -, a crítica de cinema entre nós andou agitada por causa do filme Slumdog Millionaire. No Expresso, Vasco Baptista Marques falou em «pornografia da pobreza» e «McDonaldização do real» (esta segunda expressão justificaria uma tese em semiótica...), sugerindo que o filme é um exemplo de como certas pessoas fazem cinema com a exploração da decadência e da pobreza. Como João Lopes já referiu no Sound + Vision, a brevidade do texto de Vasco Marques não ajuda na exposição do argumento. Na verdade, o argumento tem um ponto interessante se pensarmos que pode servir de mote para uma discussão sobre ética e arte; é que é muito difícil especificar quando, em cinema, se passa do "mostrar" ao "explorar". E, por vezes, a arte serve (verbo que uso aqui à falta de melhor) para isso mesmo: para lembrar que a decadência existe.

A intuição e algumas coisas que li levam-me a pensar que que há algo no filme Slumdog Millionaire que suscita facilmente embirrações: o final. Clarifico: o happy ending. Talvez pela influência que a concepção aristotélica da tragédia teve na apreciação da arte narrativa no Ocidente (ou talvez pela concepção cristã de que vive muita dessa arte), o final feliz está conotado com a pouca profundidade, como se, na condição humana (de que a arte será o espelho mais fiel), verdade e infelicidade coincidissem. Bom, o filme acaba bem, é um facto, mas não deixa de ser verdade que a história de um slumdog que se transforma em milionário é, num certo sentido, realista. É realista (i.e., fiel àquilo a que chamamos "vida") no sentido em que mostra que a vida é feita de coisas que controlamos e de outras que não controlamos (e é por isso que ideias como estas são um disparate), e que podemos ser felizes, ou experimentar 'momentos' de felicidade (uma inflexão para agradar aos mais cépticos), porque certas circunstâncias o determinaram. Fazemos coisas com vista à felicidade (sim, os clássicos têm sempre razão) mas nem sempre percebemos que coisas contribuem decisivamente para isso: para a nossa felicidade (para sabermos a "resposta certa") ou, veja-se a história do rei de Tebas, para a nossa infelicidade. Percebemos - esta é a nossa condição trágica, arrisco-me a dizer - quando relacionamos tudo (como Édipo ao ouvir o adivinho Tirésias), quando percebemos que a nossa vida é um enredo e que aquilo que fizemos teve determinadas consequências; e nesse momento, conhecendo ou não a felicidade, sabendo ou não as respostas, a vida faz sentido.

Como diz a dada altura o apresentador do programa, há situações que são "bizarramente possíveis". Não conheço explicação mais clara do conceito aristotélico de verosimilhança.

domingo, fevereiro 22, 2009

Elogio da leitura

[...]

Que uma pessoa não leia nada (não leia livros, porque jornais e revistas as pessoas vão espreitando) não me parece problemático. O catastrofismo nestas matérias é absurdo. Quem (como eu) lê compulsivamente, considera a leitura o alfa e ómega da existência. Mas não é. Se há pessoas que tendo aptidão e possibilidade económica para comprar livros, preferem não o fazer, isso é com elas. Há um certo totalitarismo dos leitores face aos que não lêem que tem aspectos detestáveis. Os leitores tratam os outros como gentalha. E dizem sempre que que não lê «não sabe o que perde». Que os livros nos oferecem prazeres e sensações únicas e inesquecíveis. Mas também há quem diga isso do surf ou do sadomasoquismo. E nem toda a gente compra pranchas e chicotes. Não há pois nenhuma razão para que os letrados se achem acima dos outros, e considerem o seu gosto como gosto universal.

Mesmo porque isso comporta alguns equívocos. As pessoas que elogiam a leitura invocam todo o tipo de vantagens. No entanto, tirando a vantagem estética, a leitura de livros não tem nenhuma utilidade especial. É mesmo uma actividade eminentemente e gloriosamente inútil. Imaginar que a cultura nos torna moralmente melhores é um erro trágico (vejam a Alemanha no século passado). As pessoas que lêem não se distinguem das outras pela virtude. Só um platónico ingénuo imagina tal coisa. Digamos que a literatura serve para tornar mais complexa e subtil a nossa percepção do mundo. É como um determinado vinho que prepara o nosso paladar para certa comida. Mas isso é uma experiência individual, contingente, imprevisível. E não nos deve levar a supor que as pessoas letradas são melhores pessoas.

Mais importante: a literatura não traz felicidade. O mundo está cheio de letrados miseráveis e poetas suicidas. Ao passo que entre as pessoas genuinamente felizes que conheci, estão dezenas que certamente só leram capítulos e fotocópias. Há um certo conforto na literatura, mas a literatura problematiza, questiona, traz angústias suplementares às nossas angústias naturais.

[...]

Pedro Mexia. "Victoria e os Livros". Primeira Pessoa. Casa das Letras, 2006, pp. 291-292.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Livros ao preço de um café


Começou há umas semanas. Num hipermercado, entre a secção de roupa e o corredor da comida para animais, lá estava ele: um grande monte de livros. E, no meio daquele conjunto caótico (onde autores muito diferentes - José Cardoso Pires, Paul Auster e Margarida Rebelo Pinto, para citar alguns - conviviam perfeitamente), alguns exemplares de Primeira Pessoa, um livro que reúne as crónicas que Pedro Mexia publicou na Grande Reportagem. O preço: 2,99 €.

Depois, foi o livro Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie. O romance que deu a Rushdie o Booker of Bookers Prize vinha com a Sábado por mais 1 €; a tradução é a da Dom Quixote. Esta semana é o Lolita, de V. Nabokov, pelo mesmo preço.

Hoje, foi a vez de Pedro, Lembrando Inês (2001) e O Anjo da Tempestade (2004), dois textos de Nuno Júdice - poesia e prosa, respectivamente - reunidos num livro que faz parte da colecção "Frente e Verso", uma nova colecção da Visão. O preço de cada livro é convidativo: cinquenta cêntimos.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Famílias numerosas


Morning prayers with Sebastian Bach,
a painting by T. E. Rosenthal (1870)

sábado, fevereiro 14, 2009

Um 'bêbado que morreu a mendigar, zarolho'

A propósito de um comentário da Ana, lembrei-me destes versos de Cesário Verde:

Uns operários, nestes descampados,
Também surdiam, de chapéu de coco,
Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
Artistas despedidos, desgraçados.

Muitos! E um bêbado - o Camões - que fora
Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
Com uma pala verde sobre um olho!
Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

Prolonga-se aqui a imagem do autor d'Os Lusíadas que Almeida Garrett apresentara em Camões. Mas nestes versos de Cesário, de "Em petiz", a palavra "zarolho" é decisiva na construção de um retrato desencantado de Camões, reforçando a ideia (ou o sentimento de tristeza e soturnidade, que é o sentimento de um Ocidental) de que a pátria é sempre ingrata para os poetas.

A 'condição humana' e a 'vulnerabilidade do pensamento', segundo Hannah Arendt

«Finalmente, a actidade de pensar - que, fiéis à tradição pré-moderna e moderna, omitimos da nossa reconsideração da vita activa - ainda é possível, e sem dúvida ocorre, onde quer que os homens vivam em condições de liberdade política. Infelizmente, e ao contrário do que geralmente se supõe quanto à proverbial torre de marfim dos pensadores, nenhuma outra capacidade humana é tão vulnerável; de facto, numa tirania, é muito mais fácil agil do que pensar. Como experiência vivida, sempre se supôs, talvez erradamente, que a actividade de pensar fosse privilégio de poucos. Talvez não seja presunçoso de mais acreditar que estes poucos são ainda mais reduzidos no nosso tempo - o que pode ser irrelevante, ou de relevância limitada, para o homem do futuro, mas não é irrelevante para o futuro do homem.».

Hannah Arendt. A condição humana. Lisboa, Editorial Relógio d'Água, 2001, p. 395. Tradução de Roberto Raposo. (The Human Condition, 1958)

Na RTP Memória: a não perder

A não perder! Razão para correr imediatamente para o televisor: está a dar agora na RTP Memória um episódio da série Duarte & C! Neste episódio, o mau da fita é um tipo que se fazia passar por zarolho e maneta! Desculpem o pleonasmo, mas isto é mesmo imperdível! Já está a gravar, evidentemente...

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

A intenção de "fazer" literatura


Foi um êxito de vendas em Itália e teve uma recepção muito positiva por parte da crítica. Falo de Con le Peggiori Intenzioni (2005), de Alessandro Piperno, livro que a Editorial Presença traduziu no final de 2008. Sobre este "romance", não será errado considerar que ele coloca, fundamentalmente, dois tipos de problemas: 1) problemas que se prendem com o modo como deve ser tratado (literariamente tratado) o tema da identidade judaica; 2) problemas que dizem respeito a uma dimensão auto-reflexiva da escrita e que, em última instância, glosam a impossibilidade de voltar a escrever um grande romance, i.e., a impossibilidade de voltar a escrever como Tolstoi ou Proust. Relativamente ao primeiro problema, a solução de Piperno consiste em apresentar uma perspectiva singular, hiperbólica mesmo, mostrando que os medos de um adolescente («Medo de não ser um homem. [...] Medo de ficar atolado neste pântano de erótica hesitação») podem parecer-se com o medo (real) de um habitante de Telavive. Noutra passagem, e a respeito de uma personagem muita dada ao convívio com judeus, o narrador exprime com clareza a contradição que há no facto de nos mostrarmos muito receptivos ao outro e de, ao mesmo tempo, nos orgulharmos desta abertura, como se os "outros" fossem espécies raras que temos a delicadeza de apreciar.

Porém, o que sobressai na obra de Alessandro Piperno é a intenção de escrever uma história que se integre numa linhagem especificamente literária, ficcional. Na verdade, o modo como as personagens são "construídas" mostra bem essa intenção: a sua caracterização inclui comparações com outros "seres de papel" (R. Barthes) - como nesta passagem: «Talvez sob a influência da minha condição de leitor, era-me fácil considerar Karen como a encarnação viva de muitas rarefeitas heroínas fim de século» (p. 150). Há também, embora menos frequentes, comparações com personagens e figuras emblemáticas da história do cinema. Mas a intenção de Piperno não serve de bom argumento para a tese de que a vida e a arte estão em "domínios" diferentes, para a ideia de que a "arte" é uma espécie de "reino" com regras muito próprias. O que a história de Piperno parece sugerir é que a ficção é o método mais exacto de que dispomos para compreender a vida, para clarificá-la (mais do que a psicanálise, o meio a que recorre uma das personagens).

Alessandro Piperno. Com as piores intenções. Lisboa: Editorial Presença, 2008. Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.

Um pintor que gostava de senhoras bem constituídas: P. P. Rubens

Rape of the Daughters of Leucippus
c. 1617


Venus at a Mirror
c. 1615


Pan and Syrinx
1617-19

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

'Fugir é bom nos romances!'

- Estás doida, Luísa, tu não estás em ti! Pode lá pensar-se em fugir? Era um escândalo atroz, éramos apanhados decerto, com a polícia, com os telégrafos! É impossível! Fugir é bom nos romances!

Eça de Queirós. O Primo Basílio

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Um 'bem haja' ao projecto Gutenberg



Clicando aqui é possível ler esta maravilha: Paisagens da China e do Japão (1906), de Wenceslau de Moraes.

(Obrigada, Manuel)

Pequeno pretexto para ir dar um passeio a Itália...



Um clássico dos Pixies




I was swimmin' in the Carribean
Animals were hiding behind the rock
Except the little fish
...

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Vale uma aposta?

Faz parte da história da filosofia ocidental a tentativa de argumentar racionalmente a favor da existência de Deus. O argumento mais conhecido é, talvez, o de Santo Anselmo: o argumento ontológico (a ratio Anselmi). Relativamente a Santo Anselmo ou Descartes (que precisava de um "Deus" que certificasse o conhecimento humano), Pascal modificou os termos em que o problema foi colocado, e, em vez de tentar provar que Deus existe de facto, concentrou-se nas razões de que dispomos para postular tal existência. A entrada "Pascal's Wager" da Standford Encyclopedia of Philosophy explica detalhadamente o argumento de Pascal, sintetizando-o assim: «To put it crudely, we should wager that God exists because it is the best bet.»

Examinons donc ce point, et disons : Dieu est, ou il n’est pas. Mais de quel côté pencherons-nous ? La raison n’y peut rien déterminer : il y a un chaos infini qui nous sépare. Il se joue un jeu, à l’extrémité de cette distance infinie, où il arrivera croix ou pile. Que gagerez-vous ? Par raison, vous ne pouvez faire ni l’un ni l’autre ; par raison, vous ne pouvez défendre nul des deux.Ne blâmez donc pas de fausseté ceux qui ont pris un choix ; car vous n’en savez rien.— « Non; mais je les blâmerai d’avoir fait, non ce choix, mais un choix ; car, encore que celui qui prend croix et l’autre soient en pareille faute, ils sont tous deux en faute : le juste est de ne point parier ».—Oui ; mais il faut parier ; cela n’est pas volontaire, vous êtes embarqué. Lequel prendrez-vous donc ? Voyons. Puisqu’il faut choisir, voyons ce qui vous intéresse le moins. Vous avez deux choses à perdre : le vrai et le bien et deux choses à engager : votre raison et votre volonté, votre connaissance et votre béatitude, et votre nature a deux choses à fuir : l’erreur et la misère. Votre raison n’est pas plus blessée, en choisissant l’un que l’autre, puisqu’il faut nécessairement choisir. Voilà un point vidé. Mais votre béatitude ? Pesons le gain et la perte en prenant croix que Dieu est. Estimons ces deux cas : si vous gagnez, vous gagnez tout ; si vous perdez, vous ne perdez rien. Gagnez donc qu’il est, sans hésiter.[…]Et ainsi, notre proposition est dans une force infinie, quand il y a le fini à hasarder à un jeu où il y a pareils hasards de gain que de perte, et un infini à gagner. Cela est démonstratif ; et si les hommes sont capables de quelque vérité, celle là l’est.