sábado, fevereiro 28, 2009

Sobre "Os filhos da meia-noite"


Na Ler de Fevereiro, Rogério Casanova assina uma “Breve Introdução à Teoria da Literatura” (Ler, n.º 77, pp. 12-12). O texto consiste numa síntese das tendências da Teoria da Literatura desde o formalismo russo, apostado em explicar como pode um conjunto de palavras causar certos efeitos, ao pós-colonialismo. A respeito desta última tendência, o humor de Casanova deita por terra certos argumentos que, em última instância, pretendem fazer da leitura literária uma forma de pedir desculpa pelo passado – colonial – do Ocidente. Lembrei-me desta "introdução" quando percebi, lendo algumas recensões, que a um livro como Os filhos da meia-noite, de Sulman Rushdie, é aplicado o rótulo “literatura pós-colonial”. Bom, depois de ter lido o romance de Rushdie, parece-me que se trata de um texto que permite questionar uma definição de literatura pós-colonial exclusivamente centrada no alcance histórico-político de uma obra. É certo que a vida de Saleem Sinai, aquele que nasce quando nasce a Índia (em 1947), está ligada "literalmente" e por “metáfora” (uma ideia que é repetida em várias passagens) aos acontecimentos políticos do país. Mas é importante notar que, depois de ter perdido todas as referências ao passado, referências representadas, metonimicamente, por uma escarradeira, Saleem percebe que a causa do seu mal – a causa da “injustiça” que descobriu na selva – é o significado político da sua existência, o facto de a sua vida ser um espelho da vida de um país, o que também explica a “doença do optimismo” de que sofre. A maldição (e o privilégio) de Saleem – penso que o texto autoriza esta interpretação – é, no fundo, a maldição (e o privilégio) de uma literatura que não pode contornar a História mas precisa, ao mesmo tempo, de libertar-se dessa História.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Melancolia doseada


«Semideuses», uma das crónicas reunidas em Primeira Pessoa (Casa das Letras, 2006), é uma resposta de Pedro Mexia às pessoas que o acusaram de apresentar de si mesmo uma imagem muito negativa, excessivamente desencantada. Mexia responde com Fernando Pessoa. Responde com um poema de Álvaro de Campos que consiste num conjunto de invectivas contra todos os que nunca falharam em nada, contra os que vencem sempre, contra aqueles que estão sempre de bem com a vida. É uma resposta aceitável, que legitima o tom pessoalíssimo dos textos de Primeira Pessoa. Em Nada de Melancolia (Edições tinta-da-china, 2008), livro que reúne as crónicas que apareceram entre Janeiro de 2006 e Abril de 2007 na revista NS do Diário de Notícias, o tom pessoal é ligeiramente atenuado para dar lugar, sobretudo, à enunciação do sentimento de nostalgia. Assim, o tom pessoal já não decorre tanto de uma descrição de si próprio – acompanhada, quase sempre, de auto-ironia –; ele nasce antes da descrição de certos objectos e espaços, aqueles a que a memória conferiu um poder evocativo especial. Entram nesta categoria músicas de Climie Fisher, os telegramas ou o Café Império, que esteve quase a ser substituído - o que não seria coisa de somenos importância - pelo Reino de Deus.

Sobre os "luseiros"... (não resisti a citar isto)

Depois de ter ouvido há pouco que o Sporting (que no outro dia deixou os adeptos em delírio) perdeu hoje por 0-5, não resisto a uma citação. E atenção que o que segue é um "exercício de humor":

«Os esportinguistas não são losers no sentido americano. São luseiros genuínos. É verdade que perdem muito. Mas esfalfam-se. Correm como doidos.
Aplicam-se denodadamente mesmo quando já vão três na bilha e só faltam vinte segundos. Nunca desistem; tal é o brio em perder.
São artistas da derrota, luseiros de primeiro. Marcam primeiro; o jogo parece ganho mas, graças a não sei que artes, acabam sempre por alcançar o objectivo. Chegam a jogar muito bem - estão provavelmente entre as melhores cinquenta equipas portuguesas. E podem melhorar. Os jogadores vão a todas. Esgotam-se fisicamente. Enquanto outras equipas que eu cá sei (como aquela do bairro do Benfica) se contentam com um florilégio de tornozelo aos 83 minutos; os jogadores do Sporting comportam-se conforme os princípios (e digo isto sem ironia) mais nobres do desporto inglês: o importante não é ganhar. É jogar; participar; fazer o melhor que se pode e, sobretudo, perder.
Não é possível, sem ajuda, que uma equipa tenha tanto azar como o Sporting. Vez após vez, conseguem perder jogos que mereceriam ganhar. Contratarão orixás banidos que lhes polvilhem o relvado de pragas? Sem dúvida.»

Miguel Esteves Cardoso. "Só para benfiquistas".
A minha andorinha. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006. p. 175.

Outra maravilha. De Courbet


La femme au perroquet (1866)
Oil on canvas
The Metropolitan Museum of Art, New York

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Pessimismo (?) a propósito de Courbet

Eu dou um rebuçado ao senhor juiz se 1% dos licenciados portugueses — e não necessariamente dos que concorrem à polícia ou à magistratura — tiver alguma vez ouvido falar de Cindy Sherman ou Matthew Barney. Courbet? A que título?

Eduardo Pitta, "Ainda Courbet", no Da Literatura

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Ainda sobre o "Slumdog Millionaire"

Agradeço ao Ricardo Gonçalves, autor do blogue CineArte, a análise - a meu ver, justa e bem fundamentada - do filme Slumdog Millionaire e o link para as notas que escrevi sobre o mesmo filme.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Finais felizes. Algumas notas sobre o filme "Slumdog Millionaire"

Segundo li em alguns blogues - o Sound + Vision foi um deles -, a crítica de cinema entre nós andou agitada por causa do filme Slumdog Millionaire. No Expresso, Vasco Baptista Marques falou em «pornografia da pobreza» e «McDonaldização do real» (esta segunda expressão justificaria uma tese em semiótica...), sugerindo que o filme é um exemplo de como certas pessoas fazem cinema com a exploração da decadência e da pobreza. Como João Lopes já referiu no Sound + Vision, a brevidade do texto de Vasco Marques não ajuda na exposição do argumento. Na verdade, o argumento tem um ponto interessante se pensarmos que pode servir de mote para uma discussão sobre ética e arte; é que é muito difícil especificar quando, em cinema, se passa do "mostrar" ao "explorar". E, por vezes, a arte serve (verbo que uso aqui à falta de melhor) para isso mesmo: para lembrar que a decadência existe.

A intuição e algumas coisas que li levam-me a pensar que que há algo no filme Slumdog Millionaire que suscita facilmente embirrações: o final. Clarifico: o happy ending. Talvez pela influência que a concepção aristotélica da tragédia teve na apreciação da arte narrativa no Ocidente (ou talvez pela concepção cristã de que vive muita dessa arte), o final feliz está conotado com a pouca profundidade, como se, na condição humana (de que a arte será o espelho mais fiel), verdade e infelicidade coincidissem. Bom, o filme acaba bem, é um facto, mas não deixa de ser verdade que a história de um slumdog que se transforma em milionário é, num certo sentido, realista. É realista (i.e., fiel àquilo a que chamamos "vida") no sentido em que mostra que a vida é feita de coisas que controlamos e de outras que não controlamos (e é por isso que ideias como estas são um disparate), e que podemos ser felizes, ou experimentar 'momentos' de felicidade (uma inflexão para agradar aos mais cépticos), porque certas circunstâncias o determinaram. Fazemos coisas com vista à felicidade (sim, os clássicos têm sempre razão) mas nem sempre percebemos que coisas contribuem decisivamente para isso: para a nossa felicidade (para sabermos a "resposta certa") ou, veja-se a história do rei de Tebas, para a nossa infelicidade. Percebemos - esta é a nossa condição trágica, arrisco-me a dizer - quando relacionamos tudo (como Édipo ao ouvir o adivinho Tirésias), quando percebemos que a nossa vida é um enredo e que aquilo que fizemos teve determinadas consequências; e nesse momento, conhecendo ou não a felicidade, sabendo ou não as respostas, a vida faz sentido.

Como diz a dada altura o apresentador do programa, há situações que são "bizarramente possíveis". Não conheço explicação mais clara do conceito aristotélico de verosimilhança.

domingo, fevereiro 22, 2009

Elogio da leitura

[...]

Que uma pessoa não leia nada (não leia livros, porque jornais e revistas as pessoas vão espreitando) não me parece problemático. O catastrofismo nestas matérias é absurdo. Quem (como eu) lê compulsivamente, considera a leitura o alfa e ómega da existência. Mas não é. Se há pessoas que tendo aptidão e possibilidade económica para comprar livros, preferem não o fazer, isso é com elas. Há um certo totalitarismo dos leitores face aos que não lêem que tem aspectos detestáveis. Os leitores tratam os outros como gentalha. E dizem sempre que que não lê «não sabe o que perde». Que os livros nos oferecem prazeres e sensações únicas e inesquecíveis. Mas também há quem diga isso do surf ou do sadomasoquismo. E nem toda a gente compra pranchas e chicotes. Não há pois nenhuma razão para que os letrados se achem acima dos outros, e considerem o seu gosto como gosto universal.

Mesmo porque isso comporta alguns equívocos. As pessoas que elogiam a leitura invocam todo o tipo de vantagens. No entanto, tirando a vantagem estética, a leitura de livros não tem nenhuma utilidade especial. É mesmo uma actividade eminentemente e gloriosamente inútil. Imaginar que a cultura nos torna moralmente melhores é um erro trágico (vejam a Alemanha no século passado). As pessoas que lêem não se distinguem das outras pela virtude. Só um platónico ingénuo imagina tal coisa. Digamos que a literatura serve para tornar mais complexa e subtil a nossa percepção do mundo. É como um determinado vinho que prepara o nosso paladar para certa comida. Mas isso é uma experiência individual, contingente, imprevisível. E não nos deve levar a supor que as pessoas letradas são melhores pessoas.

Mais importante: a literatura não traz felicidade. O mundo está cheio de letrados miseráveis e poetas suicidas. Ao passo que entre as pessoas genuinamente felizes que conheci, estão dezenas que certamente só leram capítulos e fotocópias. Há um certo conforto na literatura, mas a literatura problematiza, questiona, traz angústias suplementares às nossas angústias naturais.

[...]

Pedro Mexia. "Victoria e os Livros". Primeira Pessoa. Casa das Letras, 2006, pp. 291-292.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Livros ao preço de um café


Começou há umas semanas. Num hipermercado, entre a secção de roupa e o corredor da comida para animais, lá estava ele: um grande monte de livros. E, no meio daquele conjunto caótico (onde autores muito diferentes - José Cardoso Pires, Paul Auster e Margarida Rebelo Pinto, para citar alguns - conviviam perfeitamente), alguns exemplares de Primeira Pessoa, um livro que reúne as crónicas que Pedro Mexia publicou na Grande Reportagem. O preço: 2,99 €.

Depois, foi o livro Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie. O romance que deu a Rushdie o Booker of Bookers Prize vinha com a Sábado por mais 1 €; a tradução é a da Dom Quixote. Esta semana é o Lolita, de V. Nabokov, pelo mesmo preço.

Hoje, foi a vez de Pedro, Lembrando Inês (2001) e O Anjo da Tempestade (2004), dois textos de Nuno Júdice - poesia e prosa, respectivamente - reunidos num livro que faz parte da colecção "Frente e Verso", uma nova colecção da Visão. O preço de cada livro é convidativo: cinquenta cêntimos.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Famílias numerosas


Morning prayers with Sebastian Bach,
a painting by T. E. Rosenthal (1870)

sábado, fevereiro 14, 2009

Um 'bêbado que morreu a mendigar, zarolho'

A propósito de um comentário da Ana, lembrei-me destes versos de Cesário Verde:

Uns operários, nestes descampados,
Também surdiam, de chapéu de coco,
Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
Artistas despedidos, desgraçados.

Muitos! E um bêbado - o Camões - que fora
Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
Com uma pala verde sobre um olho!
Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

Prolonga-se aqui a imagem do autor d'Os Lusíadas que Almeida Garrett apresentara em Camões. Mas nestes versos de Cesário, de "Em petiz", a palavra "zarolho" é decisiva na construção de um retrato desencantado de Camões, reforçando a ideia (ou o sentimento de tristeza e soturnidade, que é o sentimento de um Ocidental) de que a pátria é sempre ingrata para os poetas.

A 'condição humana' e a 'vulnerabilidade do pensamento', segundo Hannah Arendt

«Finalmente, a actidade de pensar - que, fiéis à tradição pré-moderna e moderna, omitimos da nossa reconsideração da vita activa - ainda é possível, e sem dúvida ocorre, onde quer que os homens vivam em condições de liberdade política. Infelizmente, e ao contrário do que geralmente se supõe quanto à proverbial torre de marfim dos pensadores, nenhuma outra capacidade humana é tão vulnerável; de facto, numa tirania, é muito mais fácil agil do que pensar. Como experiência vivida, sempre se supôs, talvez erradamente, que a actividade de pensar fosse privilégio de poucos. Talvez não seja presunçoso de mais acreditar que estes poucos são ainda mais reduzidos no nosso tempo - o que pode ser irrelevante, ou de relevância limitada, para o homem do futuro, mas não é irrelevante para o futuro do homem.».

Hannah Arendt. A condição humana. Lisboa, Editorial Relógio d'Água, 2001, p. 395. Tradução de Roberto Raposo. (The Human Condition, 1958)

Na RTP Memória: a não perder

A não perder! Razão para correr imediatamente para o televisor: está a dar agora na RTP Memória um episódio da série Duarte & C! Neste episódio, o mau da fita é um tipo que se fazia passar por zarolho e maneta! Desculpem o pleonasmo, mas isto é mesmo imperdível! Já está a gravar, evidentemente...

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

A intenção de "fazer" literatura


Foi um êxito de vendas em Itália e teve uma recepção muito positiva por parte da crítica. Falo de Con le Peggiori Intenzioni (2005), de Alessandro Piperno, livro que a Editorial Presença traduziu no final de 2008. Sobre este "romance", não será errado considerar que ele coloca, fundamentalmente, dois tipos de problemas: 1) problemas que se prendem com o modo como deve ser tratado (literariamente tratado) o tema da identidade judaica; 2) problemas que dizem respeito a uma dimensão auto-reflexiva da escrita e que, em última instância, glosam a impossibilidade de voltar a escrever um grande romance, i.e., a impossibilidade de voltar a escrever como Tolstoi ou Proust. Relativamente ao primeiro problema, a solução de Piperno consiste em apresentar uma perspectiva singular, hiperbólica mesmo, mostrando que os medos de um adolescente («Medo de não ser um homem. [...] Medo de ficar atolado neste pântano de erótica hesitação») podem parecer-se com o medo (real) de um habitante de Telavive. Noutra passagem, e a respeito de uma personagem muita dada ao convívio com judeus, o narrador exprime com clareza a contradição que há no facto de nos mostrarmos muito receptivos ao outro e de, ao mesmo tempo, nos orgulharmos desta abertura, como se os "outros" fossem espécies raras que temos a delicadeza de apreciar.

Porém, o que sobressai na obra de Alessandro Piperno é a intenção de escrever uma história que se integre numa linhagem especificamente literária, ficcional. Na verdade, o modo como as personagens são "construídas" mostra bem essa intenção: a sua caracterização inclui comparações com outros "seres de papel" (R. Barthes) - como nesta passagem: «Talvez sob a influência da minha condição de leitor, era-me fácil considerar Karen como a encarnação viva de muitas rarefeitas heroínas fim de século» (p. 150). Há também, embora menos frequentes, comparações com personagens e figuras emblemáticas da história do cinema. Mas a intenção de Piperno não serve de bom argumento para a tese de que a vida e a arte estão em "domínios" diferentes, para a ideia de que a "arte" é uma espécie de "reino" com regras muito próprias. O que a história de Piperno parece sugerir é que a ficção é o método mais exacto de que dispomos para compreender a vida, para clarificá-la (mais do que a psicanálise, o meio a que recorre uma das personagens).

Alessandro Piperno. Com as piores intenções. Lisboa: Editorial Presença, 2008. Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.

Um pintor que gostava de senhoras bem constituídas: P. P. Rubens

Rape of the Daughters of Leucippus
c. 1617


Venus at a Mirror
c. 1615


Pan and Syrinx
1617-19

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

'Fugir é bom nos romances!'

- Estás doida, Luísa, tu não estás em ti! Pode lá pensar-se em fugir? Era um escândalo atroz, éramos apanhados decerto, com a polícia, com os telégrafos! É impossível! Fugir é bom nos romances!

Eça de Queirós. O Primo Basílio

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Um 'bem haja' ao projecto Gutenberg



Clicando aqui é possível ler esta maravilha: Paisagens da China e do Japão (1906), de Wenceslau de Moraes.

(Obrigada, Manuel)

Pequeno pretexto para ir dar um passeio a Itália...