sábado, abril 11, 2009

Música para o fim-de-semana

«As lágrimas caíam todas espontaneamente, por muito que pudesse surpreendê-lo a pouca resistência que tinha a Helen O'Connell e a Bob Eberly cantando alternadamente os versos de "Green Eyes", por muito que pudesse maravilhá-lo o condão de Jimmy e Tommy Dorsey para o transformarem no género de velho vulnerável que nunca julgara poder vir a ser. Mas deixem alguém nascido em 1926, dizia, tentar ficar sozinho em casa num sábado à noite, em 1998, e ouvir Dick Haymes cantar "Those Little White Lies". Deixem-nos fazer isso e deixem-nos dizer-me, depois, se não compreendem finalmente a famosa doutrina da catarse desencadeada pela tragédia.»
Philip Roth. A Mancha Humana.

quinta-feira, abril 09, 2009

Planos

- Tens de pensar na vida. Tens trinta anos. A partir dos trinta e cinco, a gravidez passa a ser de risco. Tens de fazer planos para a tua vida.
- Planos? Planos de cinco anos como o Estaline?

Do filme Happy-Go-Lucky.

segunda-feira, abril 06, 2009

"A Noite da Iguana e outras histórias"

A Noite da Iguana e outras histórias, livro que a Assírio & Alvim publicou recentemente (2009, tradução de José Agostinho Baptista), reúne nove contos de Tennessee Williams. Entre eles está, portanto, a 'short story' sobre a experiência de Miss Edith Jelkes no hotel mexicano Costa Verde, um texto de 1948 que T. Williams iria transformar depois numa peça. A peça, por sua vez, serviu de ponto de partida para o filme realizado por John Huston:



Nas primeiras linhas do conto "Retrato de uma rapariga em vidro", diz-se: «Quanto à minha irmã, ela era ainda mais difícil de definir do que eu» (p. 61). As histórias de Williams são, sobretudo, histórias de pessoas difíceis de definir, pessoas cujas vidas constituem um desafio a tudo o que se apresenta como expectável, ou como o caminho para uma "felicidade razoável". Em certa medida, todas parecem partilhar de uma «secreta sabedoria» (p. 64) sobre o carácter imperfeito da criação («Se Ele, o Criador, não ordenara todas as coisas da melhor maneira [...]», p. 21, conto "A Maldição") e a crueldade a que estão submetidas todas as criaturas («Como é terrível estar à mercê de gente sem piedade!», p. 89, conto "A Noite da Iguana").

Na história da irmã que vive 'num mundo de vidro e de música', o seu retrato - retrato construído por um irmão que escreve poemas - consiste na negação da ideia que o vidro pode, à partida, sugerir, ou seja, a transparência, ou a possibilidade de um sentido sem interpretação. A rapariga retratada, tendo a capacidade de dizer coisas que não primam pela evidência («Nunca descobri o que queria dizer com aquilo», p. 73), é alguém que vive com certos livros e a quem não ocorre que «um livro é uma coisa que se lê e, uma vez acabado, se põe de parte» (p. 65). Em certa medida, este é o retrato de uma pessoa que não encontra sentido na diferença que Flora (conto "A Coisa Importante") estabelece entre a 'realidade ideal' da escrita e a vida (p. 119), ou na diferença entre verdade e poesia (p. 113, conto "A Semelhança entre um estojo de violino e um caixão") e que, por essa razão, admite que as estrelas possam ter cinco pontas. Já no caso de Billy e Cora (conto "Sociedade a dois"), a coerência dos seus actos releva de uma 'espécie de anarquia moral', que rejeita a sociedade sem espaço para a liberdade individual: «Era uma espécie de anarquia moral o que, indubitavelmente, os mantinha juntos, uma verdadeira aversão que comungavam contra tudo o que fosse restritivo e falso na sociedade em que viviam e contra cuja natureza lutavam sem desfalecimentos» (p. 153). Como eles, a irmã do poeta rejeita uma existência ordenada de certo modo, mas (devido a uma maior fragilidade, que o vidro também sugere) exprime essa rejeição vivendo «à espera que a espécie de brilho de pedra preciosa de cada peça arrancasse do seu espírito a dolorosa realidade» (p. 64).

Nas histórias deste pequeno livro (160 páginas), ganha destaque o dom de T. Williams para escrever com uma clareza, um sentido visual e uma fluidez narrativa que não sacrificam o densidade psicológica das personagens. Talvez isto explique também por que razão a sua obra se prestou a tantas adaptações para cinema.

domingo, abril 05, 2009

Lucio, o 'homenzinho', e a gata Nitchevo

«O pressentimento de que não iria conservar o emprego por muito mais tempo tornou-se uma obsessão: uma ideia que se agarrava ao cérebro e não o abandonava em momento algum. Apenas à noite, com Nitchevo, a gata, conseguia afastar, em parte, esses negros pensamentos. A presença do animal como que negava todos os desígnios da má sorte. É claro que Nitchevo não tinha nada a ver com a roda da fortuna; para ela tudo corria de acordo com uma ordem natural e determinada e não havia razão para apreensões. Todos os seus gestos eram lentos, calmos, revestidos de elegância e graça. Os olhos de âmbar detinham-se em cada objecto com olímpica serenidade. Nem em relação à comida se precipitava. Lucio trazia-lhe todas as noites leite para a ceia e para o pequeno-almoço; Nitchevo esperava tranquilamente, sentada sobre o traseiro, enquanto ele despejava o leite num pires velho emprestado pela proprietária e que colocava no chão, ao pé da cama. Depois estendia-se sobre os lençóis, observando e esperando que Nitchevo se dirigisse lentamente para o pires azul-claro. Levantava os olhos para ele uma vez - muito devagar - esses olhos amarelados e fixos; só depois começava a comer, baixando delicadamente o pequeno queixo para a borda do pires, avançando a ponta vermelha da língua; então, o quarto enchia-se da doce e leve música da sua boca a lamber. Lucio observava-a e ao fazê-lo era como se se esquecesse de tudo. Os apertados nós da angústia desatavam-se, libertando-o. Não sentia no fundo do corpo aquele sentimento opressivo, aquela tensão que fazia o coração bater tão depressa. Começava a ter sono enquanto a olhava - um sono que era quase êxtase. Nitchevo adquiria uma forma cada vez maior. O quarto perdia contornos, diluía-se. Parecia-lhe agora que eram do mesmo tamanho: sim, ele era um gato como Nitchevo - estavam deitados lado a lado no chão, lambendo leite no confortável e aconchegado calor de um quarto trancado, longe de fábricas e capatazes, longe de louras proprietárias de peito assombroso.
Nitchevo levava imenso tempo a lamber o leite. Lucio adormecia muitas vezes antes de ela acabar. Acordava mais tarde, sentindo o seu pequeno calor junto a si - com a mão dormente acariciava-a e sentia a levíssima vibração das vértebras enquanto ronronava. Estava a ficar gorda. Os flancos sobressaíam. É evidente que não houve nenhuma declaração de amor entre os dois, mas sabiam que havia um contrato entre eles, um contrato que duraria até ao fim da vida.
[...]
Nitchevo não precisava que lhe dissessem que Deus fixara residência nesta cidade. Já por duas vezes descobrira a sua existência: primeiro na pessoa do russo, e agora na de Lucio. É duvidoso que os distinguisse verdadeiramente. Ambos representavam a mesma infinita misericórdia. Tornavam-lhe a vida agradável e segura. Tiraram-na da rua e deram-lhe uma casa. Uma casa quente, e almofadas e tapetes macios. Vivia contente de dia e de noite, ao contrário de Lucio, com a sua alegria meramente nocturna. A dela era uma alegria perfeita, jamais interrompida. (Se Ele, o Criador, não ordenara todas as coisas da melhor maneira, a verdade é que concedera um inestimável dom aos animais, ao privá-los da inquietante faculdade de prever o futuro).»

Tennessee Williams. "A Maldição". A Noite da Iguana e Outras Histórias. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, pp. 16-17, 21. Tradução de José Agostinho Baptista.

sábado, abril 04, 2009

Música para o fim-de-semana, e um diálogo

1) A música



(a qualidade desta gravação não é a melhor...)


2) O diálogo

Afinal, qual é a essência da vida? A vida é trágica ou cómica? O que se segue é o final do filme Melinda and Melinda.

[quatro pessoas conversam]

- Quem conta uma história acrescenta sempre algo. Ouvimos a história, escolhemos pormenores. Assim, moldamos a história e tornamo-la uma tragédia - como a queda de uma mulher apaixonada. E é assim que tu vês a vida. Enquanto tu pegas nos pormenores e coloca-los numa comédia romântica. Óptimo. É a tua visão da vida. Mas é óbvio que não há uma essência definitiva que se possa eleger.

- Bom, existem momentos de humor. Eu gosto de explorá-los. Mas eles existem dentro de um contexto de tragédia.

- Vocês vão todos ao funeral do Phil Dorfman na semana que vem? Ele teve um ataque cardíaco. Tinha acabado de receber o electrocardiograma, que estava bem.

- Eu detesto funerais.

- Eu também. Rio-me sempre nos momentos errados.

- Aí está. Rimo-nos porque isso disfarça o nosso verdadeiro terror à mortalidade.

- Bom, eu não queria que começássemos a falar sobre funerais.

- Como é que o mundo pode ter alguma piada se nem podemos confiar num electrocardiograma?

- Eu quero ser cremado.

- Agora ou depois de morreres?

- Vamos mudar de assunto. Viemos até aqui para nos divertirmos.

- Vamos brindar aos bons momentos. Trágicos ou cómicos, a coisa mais importante a fazer é gozarmos a vida enquanto podemos porque só passamos por cá uma vez, e quando acabar, acabou. E, com um electrocardigrama ou não, quando menos esperamos, tudo pode acabar assim. [estala os dedos e acaba o filme]

sexta-feira, abril 03, 2009

Felicidade felina (continuação)

Para ler esta maravilha, é só ir aqui.

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, or George or Bill Bailey -
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter -
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?

(...)

O link foi-me enviado pelo Manuel.

quarta-feira, abril 01, 2009

Felicidade felina

«Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz. (...).»
O texto de João Pereira Coutinho continua n'O Sítio.

(duas gatas felizes)

terça-feira, março 31, 2009

A não perder mesmo


domingo, março 29, 2009

Ainda sobre a 'natureza literária' do adultério. Notas sobre "Madame Bovary" e "O Primo Basílio"

Henri Toulouse-Lautrec. La Toilette (1889), 67 × 54 cm
Musée d'Orsay, Paris.

Um tema - o do adultério - justifica, certamente, a aproximação de duas obras. Falo de Madame Bovary e de O Primo Basílio. Mas a aproximação fica mesmo pelo tema. É que não há semelhança possível entre a Emma de Flaubert e a Luísa de Eça. Emma Bovary é uma pessoa, alguém que desabafa com uma cadela (a cadela Djali), invejando a sorte do animal - 'que nem sorte se chama', como diz o poeta - e maldizendo a condição humana, sempre vulnerável à insatisfação e à tristeza. Emma é também uma leitora, mas não como a Luísa de Eça: como observa com preocupação a mãe de Charles, a 'putinha' lê livros sem religião, livros que citam Voltaire. Dedica-se mesmo a 'leituras sérias': filosofia, história...

Já no romance de Eça, Luísa é concebida como uma leitora incapaz de perceber a antítese entre a literatura ultra-romântica e a vida, ou como alguém que não compreende a lógica da ficção. E é este modo de ler que a faz julgar-se uma personagem de romance, ao contrário de Basílio, que lhe dirá "Fugir é bom nos romances!". O confronto com o "Paraíso" (o local que Basílio prepara para os encontros amorosos) é, neste sentido, uma aprendizagem sobre o lado prosaico da vida, incompatível com os devaneios poéticos. A lição implícita na descrição desse confronto prende-se com a necessidade de acentuar a incompatibilidade, mas deriva do pressuposto de que o «cérebro feminino» (expressão que aparece em O Mistério da Estrada de Sintra) exige protecção em matéria de leituras.

No romance de Flaubert, não é a leitura, por si só, que leva Emma ao adultério. Há nela um ódio contra Charles, contra a existência ridícula do marido (é esta existência que Flaubert apresenta nas primeiras páginas do romance), e, como a dada altura ficará claro, um ódio contra os homens, que não sabem 'o que é ser mulher'. Numa passagem em que Flaubert descreve de forma magnífica aquele ódio, Emma vai estabelecer uma comparação entre Rudolph e Charles; o resultado da comparação é um sentimento de vergonha e a consolidação da ideia de que o casamento constituiu um grande erro. Na verdade, se as causas do adultério, no romance de Eça, se prendem com a 'educação das senhoras' e com o papel que a literatura ultra-romântica tem nessa educação, as acções de Emma Bovary, na obra de Flaubert, nascem de escolhas específicas, escolhas que têm um argumento bastante forte a sustentá-las. Esse argumento é o facto de Charles ter desejado decidir por Emma aquilo que a faria feliz.

Publicidade ao "The Complete Cartoons of the New Yorker"

Lee Lorenz, 1995


Roz Chast, 1993


James Stevenson, 2000

Música para o fim-de-semana (e não só)

Gostaria de ter colocado aqui o tema "Selfish Woman", mas não o encontrei no youtube. O tema está incluído em "The Return of Roosevelt Sykes":

Sim, este post vem com algum atraso (melhor seria ter escrito "música para o fim do fim-de-semana"), o que se explica com o excelente serviço que a Cabovisão presta aos seus clientes.

quinta-feira, março 26, 2009

'The Unbearable Lightness of Being'


The Unbearable Lightness of Being é um filme de 1988 baseado no romance que Milan Kundera publicou em 1984. Sendo a obra de Kundera um romance escrito como uma «partitura musical» (Joana Varela, no posfácio da edição da Dom Quixote, 24.ª ed., p. 362), e um romance onde as digressões filosóficas funcionam como chaves para a interpretação, o filme realizado por Philip Kaufman teve, à partida, um desafio: contar a história sem que se sentisse a ausência de tais digressões, sem que se notasse a ausência do texto literário. Há no romance de Kundera, é certo, uma densidade poética e filosófica que coloca dificuldades a uma tradução para a forma visual, cinematográfica. É o caso da questão do kitsch (e da inevitabilidade do kitsch nas relações humanas), uma questão que, no filme, é formulada numa frase proferida por Sabina, a mulher do chapéu, embora ocupe um espaço significativo nas reflexões do romance; reflexões ou desvios à narrativa em que a problematização filosófica e a caracterização psicológica das personagens - filosofia e psicologia - se confundem.

Parece-me, no entanto, que o filme consegue mostrar a intensidade poética e o alcance filosófico e moral daquilo que é vivido pelas personagens, tornando pouco provável que sintamos uma desproporção entre o que cada personagem faz e a sua 'filosofia de vida', i.e., o conjunto de ideias sobre o sentido da vida, que só em certos momentos são explicitamente formuladas (eg. na carta em que Tereza explica as razões que a levam a regressar a Praga depois de 1968, a regressar ao 'país dos fracos'). Dito de outro modo, o filme consegue, a meu ver, impedir que as personagens se assemelhem a 'bonecos' exemplificando as concepções filosóficas e morais que determinam o tom do romance. Há dois momentos em que isso me parece particularmente bem conseguido. O primeiro é o momento em que Tereza (Juliette Binoche) fotografa Sabina (Lena Olin). As lágrimas que correm no momento em que as fotografias são tiradas - ou seja, quando Tereza vai vendo, através da (ou protegida pela) máquina fotográfica, o corpo que o marido, Tomas (Daniel Day-Lewis), deseja - mostram o sofrimento que nasce da consciência da impossibilidade de conceber uma vida 'leve', uma vida cujo sentido não dependa da ligação total a uma pessoa. Ou uma vida em que sexo e amor não signifiquem o mesmo. A agressividade com que tira cada fotografia é, na verdade, a violência que Tereza aplica a si mesma, para se castigar por aquilo a que chama 'fraqueza'; fotografar o corpo de Sabina é, neste sentido, uma provação semelhante a dormir com um desconhecido. Por outro lado, as lágrimas de Sabina e o olhar apavorado que acompanha essas lágrimas no momento em que Franz (Derek de Lint) lhe propõe, como forma de vida autêntica ('a life with no more lies'), uma vida a dois, mostram exactamente o oposto: são uma reacção que traduz a impossibilidade - ou o medo - de aceitar um vínculo, ou de aceitar que a felicidade exige decisões que nos prendam às pessoas.

segunda-feira, março 23, 2009

Nova Iorque: coisas muito boas, coisas estranhas e prendas

Coisas muito boas...

Charles Tolliver Big Band no Blue Note Jazz Club, para interpretar isto:


Coisas estranhas...

Pessoas que vendem 'Obama condoms' em Times Square


(No momento em que escrevo isto, o meu cérebro está a fazer um esforço enorme para não se pôr a imaginar esta ideia em contexto nacional...)

Prendas...

domingo, março 15, 2009

Vou ali passear...

Na verdade, é em trabalho, e justifica que este blogue só volte a ser actualizado daqui a uma semana.

sábado, março 14, 2009

'a quinta linha da página 161'

O Manuel passou-me a corrente aqui: "trata-se de assinalar a quinta linha da página 161 de um livro que se esteja a ler..."

Bom, estou a ler dois, e muito diferentes.

O primeiro é Eça de Queiroz. Literatura e Arte. Uma antologia. Trata-se de um conjunto de textos organizado por Beatriz Berrini (Lisboa: Relógio d'Água, 2000). E a quinta linha da página 161 é:
«seguido pela ideia de um romance histórico e, com uma fina ironia,»

O segundo é poesia. É um livro com reúne vários textos (poesia e prosa) de Rimbaud: Poésies. Une Saison en enfer. Illuminations (Paris: Gallimard, 1999). E a quinta linha - neste caso, verso - da página 161 é:
«Puis, comme rose et sapin du soleil»

Lê-se no prefácio de René Char: «Avec Rimbaud la poésie a cessé d'être un genre littéraire, une compétition.» (p. 12).

Música para o fim-de-semana (e não só)

quinta-feira, março 12, 2009

A 'natureza literária' do adultério


Dance at Bougival (1883) by Pierre-August Renoir
Oil on Canvas 181.8 x 98.1cm; Museum of Fine Arts, Boston

«A maior parte da gente imagina que para uma mulher esta ideia e mesmo esta palavra - ter um amante - significa muito simplesmente - ter um homem que amam.

De modo nenhum: só muito raras, as descendentes de Fedra, pensam no homem. Para a generalidade das mulheres, ter um amante significa ter uma quantidade de ocupações, de factos, de circunstâncias a que, pelo seu organismo e pela sua educação, acham um encanto inefável. Ter um amante - não é para elas abrir de noite a porta do seu jardim. Ter um amante é ter a feliz, a doce ocasião destes pequeninos afazeres - escrever cartas às escondidas, tremer e ter susto; fechar-se a sós para pensar, estendida no sofá; ter o orgulho de possuir um segredo; ter aquela ideia dele e do seu amor, acompanhando como uma melodia em surdina todos os seus movimentos, a toilette, o banho, o bordado, o penteado; é estar numa sala cheia de gente, e vê-lo a ele, sério e indiferente, e só eles dois estarem no encanto do mistério; é procurar uma certa flor que se combinou pôr no cabelo; é estar triste por ideais amorosos, nos dias de chuva, ao canto de um fogão; é a felicidade de andar melancólica no fundo de um cupé; é fazer toilette com intenção, o maior dos encantos femininos, etc.

Estas pequeninas coisas, que enchem a sua existência, que a complicam em cor-de-rosa, que a idealizam - são a sua grande atracção. É o que amam. O homem, amam-no pela quantidade de mistério, de interesse, de ocupação romanesca que ela dá à sua existência. De resto, amam o amor. Havia muito deste sentimento nas místicas e nas antigas noivas de Jesus. Amavam a Deus porque ele era o pretexto do culto.»


Eça de Queiroz. Uma Campanha Alegre de «As Farpas». LXXXV (Outubro de 1872) Lisboa: Livros do Brasil, 2000, pp. 393-394.

quarta-feira, março 11, 2009

O 'iate' de Eça e as 'pedrinhas preciosas' de Flaubert

«Que é a escrita do Flaubert? - Um museu variadíssimo de formas belas, de numerosas espécies: mas cada uma das páginas desse forte artista afigura-se-me um embrechado de pedrinhas preciosas; dir-se-ia fabricada com fragmentos breves, mecanicamente. Todos valiosíssimos, sem dúvida; mas em suma, pedaços, e de naturezas diferentes. O que pouco senti na elocução dos seus livros foi o movimento de conjunto que vitaliza o todo, a unidade orgânica do agregado; a fluidez, em resumo; o espraiamento, a fluência. E ainda que admitamos que se move aquilo, é um mover-se de elefante que traz um jaez magnífico, e que caminha a passo. Mas o estilo do Eça, comparado ao do Flaubert, é um iate à bolina - a cortar com agudeza, a deslizar rapidíssimo, a balançar-se com donaire sobre o entumescer das ondas. Os períodos, fulgentes, são o perpassar de um velame - e deslumbram quem lê. Tudo ali é vivente, tudo aquilo é nervoso; tudo é brilho, esbelteza, agilidade, graça, à luz que se cincunfunde do seu claro estilo.»

António Sérgio. "Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na obra novelística de Queirós". Ensaios, tomo VI. Lisboa: Sá da Costa, 1976 [1.ª ed. 1976], p. 57.

terça-feira, março 10, 2009

Madame Bovary e a cadela Djali


Elle appelait Djali, la prenait entre ses genoux, passait ses doigts sur sa longue tête fine et lui disait:
- Allons, baisez maîtresse, vous qui n'avez pas de chagrins!
Puis, considérant la mine mélancolique du svelte animal qui bâillait avec lenteur, elle s'attendrissait, et, le comparant à elle-même, lui parlait tout haut, comme à quelqu'un d'affligé que l'on console.

Madame Bovary, VII, Première Partie

Contextualizando...


Na capa da Ler deste mês (edição n.º 78), vem destacada uma frase da entrevista a António Barreto. A frase é «O 'Magalhães' é o maior assassino da leitura em Portugal». No editorial que assina, Francisco José Viegas volta a citar a frase e insiste na "ideologia do Magalhães". Com esta apresentação, começa-se a ler a entrevista à espera de encontrar um ataque à distribuição de computadores levada a cabo pelo governo. Mas não é bem disso - ou só disso - que se trata. E a ênfase posta naquela passagem da entrevista pode afastar-nos da ideia que António Barreto apresenta ao longo de várias respostas em que fala sobre a leitura e os livros. Na verdade, a questão é mais geral e prende-se antes com a relação entre informática e leitura; o que António Barreto sugere momentos antes de se referir ao 'Magalhães' é que a Internet e as novas tecnologias que lhe estão associadas constituem uma «ameaça» à leitura, e isto porque a leitura exige «tempo», «tempo de meditação», algo que, supostamente, só o contacto com os livros garante.