

Este blogue é uma espécie de diário de leituras





Na história da irmã que vive 'num mundo de vidro e de música', o seu retrato - retrato construído por um irmão que escreve poemas - consiste na negação da ideia que o vidro pode, à partida, sugerir, ou seja, a transparência, ou a possibilidade de um sentido sem interpretação. A rapariga retratada, tendo a capacidade de dizer coisas que não primam pela evidência («Nunca descobri o que queria dizer com aquilo», p. 73), é alguém que vive com certos livros e a quem não ocorre que «um livro é uma coisa que se lê e, uma vez acabado, se põe de parte» (p. 65). Em certa medida, este é o retrato de uma pessoa que não encontra sentido na diferença que Flora (conto "A Coisa Importante") estabelece entre a 'realidade ideal' da escrita e a vida (p. 119), ou na diferença entre verdade e poesia (p. 113, conto "A Semelhança entre um estojo de violino e um caixão") e que, por essa razão, admite que as estrelas possam ter cinco pontas. Já no caso de Billy e Cora (conto "Sociedade a dois"), a coerência dos seus actos releva de uma 'espécie de anarquia moral', que rejeita a sociedade sem espaço para a liberdade individual: «Era uma espécie de anarquia moral o que, indubitavelmente, os mantinha juntos, uma verdadeira aversão que comungavam contra tudo o que fosse restritivo e falso na sociedade em que viviam e contra cuja natureza lutavam sem desfalecimentos» (p. 153). Como eles, a irmã do poeta rejeita uma existência ordenada de certo modo, mas (devido a uma maior fragilidade, que o vidro também sugere) exprime essa rejeição vivendo «à espera que a espécie de brilho de pedra preciosa de cada peça arrancasse do seu espírito a dolorosa realidade» (p. 64).
Nas histórias deste pequeno livro (160 páginas), ganha destaque o dom de T. Williams para escrever com uma clareza, um sentido visual e uma fluidez narrativa que não sacrificam o densidade psicológica das personagens. Talvez isto explique também por que razão a sua obra se prestou a tantas adaptações para cinema.
(a qualidade desta gravação não é a melhor...)
2) O diálogo
Afinal, qual é a essência da vida? A vida é trágica ou cómica? O que se segue é o final do filme Melinda and Melinda.
[quatro pessoas conversam]
- Quem conta uma história acrescenta sempre algo. Ouvimos a história, escolhemos pormenores. Assim, moldamos a história e tornamo-la uma tragédia - como a queda de uma mulher apaixonada. E é assim que tu vês a vida. Enquanto tu pegas nos pormenores e coloca-los numa comédia romântica. Óptimo. É a tua visão da vida. Mas é óbvio que não há uma essência definitiva que se possa eleger.
- Bom, existem momentos de humor. Eu gosto de explorá-los. Mas eles existem dentro de um contexto de tragédia.
- Vocês vão todos ao funeral do Phil Dorfman na semana que vem? Ele teve um ataque cardíaco. Tinha acabado de receber o electrocardiograma, que estava bem.
- Eu detesto funerais.
- Eu também. Rio-me sempre nos momentos errados.
- Aí está. Rimo-nos porque isso disfarça o nosso verdadeiro terror à mortalidade.
- Bom, eu não queria que começássemos a falar sobre funerais.
- Como é que o mundo pode ter alguma piada se nem podemos confiar num electrocardiograma?
- Eu quero ser cremado.
- Agora ou depois de morreres?
- Vamos mudar de assunto. Viemos até aqui para nos divertirmos.
- Vamos brindar aos bons momentos. Trágicos ou cómicos, a coisa mais importante a fazer é gozarmos a vida enquanto podemos porque só passamos por cá uma vez, e quando acabar, acabou. E, com um electrocardigrama ou não, quando menos esperamos, tudo pode acabar assim. [estala os dedos e acaba o filme]
Henri Toulouse-Lautrec. La Toilette (1889), 67 × 54 cm