quinta-feira, agosto 20, 2009

A "política das pessoas"

Liguei a televisão e Manuela Ferreira Leite estava a ser entrevistada por Judite de Sousa. Por aquilo que ouvi, pareceu-me que a líder do PSD rejeita a ideia de "político profissional"; assim, associa à política o "calculismo", as "frases feitas" e o "powerpoint". A política da verdade não se faz com "políticos". MFL não elabora frases como um "político", ela não fala como eles, e chega a afirmar que comete erros linguísticos como "qualquer pessoa". MFL mantém-se firme e diz que nem a cor do cabelo mudaria: ela é apenas uma pessoa, uma pessoa como eu e o meu vizinho que passa os dias a ouvir Céline Dion.
Pois, sim... Mas é aqui que eu começo a pensar e vejo que não percebi uma coisa na entrevista. Para certos fins (para ganhar votos, o que é legítimo, claro), faz sentido falar de uma política que se faz contra a ideia de política, contra a ideia de que há um conjunto de acções que partilham uma essência ou natureza política. Neste raciocínio, fala-se de e defende-se uma política das pessoas que são autênticas e que, por essa razão, se comportam no exercício do poder de acordo com aquilo que realmente são, ou seja, sem artifício (admito que isto é confuso, mas estou a tentar pôr por palavras aquilo que percebi). No entanto, para outros fins (para justificar a escolha de certos nomes para uma lista), entramos num raciocínio diferente, e, segundo MFL, começa a fazer sentido distinguir entre domínios (justiça/política, privado/público) e falar de acções que não têm uma natureza política, que não são politicamente relevantes.
Clarificando: se eu percebo a ideia de que as pessoas devem ser coerentes e não andar "a tirar e a pôr chapéus" (como diz um professor meu), ou a ideia de que estar na política (expressão muito curiosa) não é desempenhar uma certa performance, o que já não compreendo é onde está a coerência no momento em que se pressupõe, a propósito de certos casos de que a justiça está a tratar, que as pessoas se comportam de maneira diferente quando estão em âmbitos (contextos) diferentes.
Sociologicamente, a tese de que somos diferentes segundo o contexto onde estamos não deixa de ser uma tese interessante (talvez demasiado existencialista para o meu gosto). O ponto é que esta tese só é útil a Manuela Ferreira Leite em certos contextos.

Os comentadores e a ERC. (Não sei se é resultado de uma influência, mas apeteceu-me citar este texto sobre a dignidade das crónicas)

O vírus da influência
A "directiva" que desejava proibir espaços de opinião aos candidatos às eleições legislativas e autárquicas, ideia tão insólita quanto a Entidade Reguladora (ERC) sua autora felizmente desrespeitada por quase todos os media, não nasceu no vazio.
Candidatos ou não, há de facto por aí uma quantidade notável de sujeitos que comentam na imprensa apenas para promover um partido ou, o que é ainda mais comum, o posto deles dentro de um partido. O eufemismo para isto é "influência". Em Portugal, há quem meça o mérito de um comentador pela "influência", ou seja, pelo número, necessariamente hipotético, de eleitores ou militantes de "base" que arregimenta para a sua causa. É por isso que se tende a preferir o termo opinion maker a columnist: o objectivo de muitos dos que emitem desabafos nos jornais ou nas televisões é mesmo fazer opinião, no curioso sentido de ensinarem ao seu público o que pensar. Fazer cabeças seria a expressão exacta.
Naturalmente, acha-se o propósito natural, como não se acharia natural que um romancista escrevesse para converter leitores à IURD e fosse exclusivamente avaliado sob esse critério. Embora a crónica jornalística não possa aspirar à dignidade do romance, era escusado rebaixá-la ao nível do sermão ou, nos caso irremediáveis, da solicitação do dízimo.
Resta saber se alguém paga o dízimo, ou, traduzindo, se a doutrinação resulta. Tenho dúvidas. Se não me engano, o leitor médio procura numa crónica motivos para se irritar ou divertir. Em ambos os casos, quer entreter-se durante cinco minutos, findos os quais vai à sua vida e não volta a lembrar-se do que leu. Excepto se se tratar de uma crónica doutrinária: aí, lembra-se de que não se entreteve nem um bocadinho.
Tamanha maçada acontece porque, do alto da sua pompa, os comentadores "influentes" partem de um princípio partilhado pela ERC: o de que o leitor médio é tonto e engole o que lhe servirem. Provavelmente, julgam-se lidos pelos sujeitos das reportagens da Liga dos Últimos ou pelos entrevistados de Os Contemporâneos. Vaidade deles. Eu, pelo contrário, imagino os meus textinhos frequentados por criaturas equilibradas e com maiores desígnios na vida que o de me dar importância. Não é falsa modéstia, é modéstia autêntica e pavor do ridículo, atributo que alguns dos meus colegas de ofício não demonstram conhecer. Ao contrário da ERC, estão no direito deles.

Alberto Gonçalves na Sábado desta semana (n.º 277)

Ouvi há dias


Pois, o gira-discos dos meus pais ainda funciona (publicidade: é da Pioneer).

E o que eu embirro com isto??!! (sim, é com ponto de exclamação)

Elogio do Romance Policial

«Um dos poucos divertimentos intellectuaes que ainda restam ao que ainda resta de intellectual na humanidade é a leitura de romances policiaes. Entre o numero aureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquellas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Mo[r]rison me pega na consciência ao collo.

Um volume de um d'estes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a ideia de uma chavena de café - trindade cujo ser-uma é o conjugar a felicidade para mim - resume-se n'isto a minha felicidade. Será pouco para tanto, é verdade. É que não pode aspirar a muito mais uma creatura com sentimentos intellectuaes e estheticos no meio europeu actual.»

(Fernando Pessoa, BNP/E3, 20-49,
cf. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 1966, pp. 62-63)

Citado por Ana Maria Freitas no artigo "Pessoa escritor de policiais", incluído no volume Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis (Lisboa: Texto Editora, Junho de 2009). O volume organizado por Jerónimo Pizarro reúne os textos de oito comunicações proferidas num ciclo de conferências que decorreu em 2008 na Casa Fernando Pessoa, no âmbito das celebrações dos 120 anos dos nascimento de Fernando Pessoa.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Férias em Roma

(a viagem de lambretta fica para a próxima)

Antes de ficar aqui a descansar mesmo (sim, está confirmado: as praias da costa alentejana são uma dádiva dos céus), estive em Roma cinco dias. Foi a primeira vez que estive em Itália, e com a visita ganhei também autoconhecimento: fiquei a saber que suporto muito mal o calor, de onde se infere que ver ruínas quando estão 37 graus é para mim uma forma de tortura. Repetir a façanha, como dizia o outro, jamais.

A "cidade"
Para falar sobre Roma tenho alguma dificuldade em utilizar a palavra "cidade". Nova Iorque é uma cidade; Roma, como se diz numa metáfora já gasta, é um grande museu, onde habitam tempos e formas de vida diferentes. À porta das grandes Igrejas há miúdos que jogam à bola, miúdos para quem a metafísica não existe, e no Coliseu podemos ver um gato com ar de poucos amigos que come whiskas. Os turistas que viajam em grupo desempenham o seu papel: passeiam e atropelam-se à procura da melhor foto, mesmo dentro de templos onde o silêncio deveria ser a única linguagem. Mas Roma é também um espaço de contrastes de outro tipo: perto da estação de Termini, por exemplo, percebe-se que não há lugar para poesia. Ali há vendedores que dormem no chão, indiferentes ao barulho dos carros e da estação; os que têm mais sorte conseguiram comprar uma paninoteca que atende durante toda a noite.

(o gato do Coliseu)

Era para ser uma experiência como a de Stendhal...
Mas não foi. Refiro-me à minha visita à Capela Sistina. Ver os frescos de Miguel Ângelo - esse milagre - esmagada por hordas de Japoneses e Brasileiros não é o contexto ideal para uma experiência estética, acreditem.

Portugueses
Perto da entrada do Museu do Vaticano, quando falava ao telemóvel, fui identificada: era um português com a família, a mulher e dois filhos. Tinham chegado na véspera, iam para o sul de Itália no dia seguinte e decidiram 'passar para conhecer Roma' (assim como quem vai a Beja e decide passar primeiro por Reguengos de Monsaraz para conhecer aquilo). Só descobri que se tratava de uma família de masoquistas quando me disseram que viajavam de carro. Antes da despedida e dos "votos de continuação de boa viagem", um dos filhos perguntou se era ali que iam ver a "estátua com os putos a mamarem"...

Italianos
Sobre Itália e os Italianos, eu sabia, para além do que aprendi em livros de História, alguma coisa que havia sido construída com imagens, i.e., pelo cinema, e tinha também uma espécie de interesse antropológico que posso resumir nesta pergunta: "O que levou os Italianos a votarem num político como Berlusconi?". Bem a propósito, vi por lá um livrinho cujo autor se propôs responder à questão. Na verdade, numa pesquisa rápida pela Amazon encontram-se algumas obras que pertencem ao mesmo género (eg. esta e esta), o que faz crer que Berlusconi se transformou num objecto de estudo rentável, e possivelmente num tópico para dissertações em sociologia ou ciência política.

quinta-feira, julho 30, 2009

Vou ali descansar

(Este é um daqueles casos em que a imagem
'não corresponde exactamente ao produto descrito')

E antes de ir, um agradecimento ao Paulo Pinto Mascarenhas por ter colocado um link para este pequeno blogue no seu ABC.

O despertar de Saint-Simon

«Dizia-se que havia instruído o seu criado particular para que o acordasse todas as manhãs com as palavras: Levante-se, Senhor Conde - tem grandes feitos a realizar

Isaiah Berlin sobre o Conde Henri de Saint-Simon, «pai do historicismo europeu» (Isaiah Berlin. Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 142)

quarta-feira, julho 29, 2009

Belíssimo o "Breakfast at Tiffany's". E aquele gato?!!...



Holly Golightly: He's all right! Aren't you, cat? Poor cat! Poor slob! Poor slob without a name! The way I see it I haven't got the right to give him one. We don't belong to each other. We just took up one day by the river. I don't want to own anything until I find a place where me and things go together. I'm not sure where that is but I know what it is like. It's like Tiffany's.

Paul Varjak: Tiffany's? You mean the jewelry store.

Holly Golightly: That's right. I'm just CRAZY about Tiffany's!

(...)
Holly Golightly: I'm like cat here, a no-name slob. We belong to nobody, and nobody belongs to us. We don't even belong to each other.

E eu que até prefiro viajar em silêncio

Acabaram as duas horas de leitura mais ou menos tranquila no comboio que me leva até Lisboa: uma mente brilhante achou por bem substituir a música clássica, que os passageiros ouviam até há pouco tempo, pela RFM.

segunda-feira, julho 27, 2009

Sem tristeza e sem melancolia, para sempre

Após a legislação coerciva adequada ter sido instituída, é a vez do educador. Nessa altura, já não precisa de recear ser apedrejado pelos seus discípulos ignorantes e ultrajados. Uma vez protegido pelas leis, poderá ensinar-lhes, em segurança, a virtude, o conhecimento e a felididade. Poderá ensinar-lhes como viver. Poderá explicar-lhes porque é que é errado ser-se asceta ou monge, porque é que é irracional, fruto da má compreensão ou da natureza, tentar mortificar a carne ou estar triste ou melancólico. A tristeza e a melancolia serão assim eliminadas da Terra: toda a gente se tornará jovial, harmoniosa e feliz.
Isaiah Berlin. Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade.
Lisboa: Gradiva, 2005, p. 39 (capítulo sobre Helvétius)

Já fui mais organizada nas minhas leituras. Agora deixo livros a meio, o que não é nada bom quando se trata de textos de leitura difícil, com um argumento denso. Mas quando a leitura é agradável também sinto que estou em falta. Hoje, por exemplo, interrompi a leitura de um livro que andava para comprar há algum tempo (e que se lê mesmo muito bem), o Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade, de Isaiah Berlin - interrompi para vir aqui escrever sobre uma memória minha. É a memória de uma conversa que tive há uns anos com duas Testemunhas de Jeová. Ia eu apanhar o autocarro para Lisboa (na altura não havia comboio) quando vieram dar-me um daqueles folhetos onde aparecem pessoas com um grande sorriso, animais e muitas cores. Como estava sentada e sem ler nada, entregaram-me o folheto. Não sei se a minha reacção exprimiu simpatia, mas acabaram por se sentar também e, do nada, perguntam-me se eu era uma pessoa feliz (uma pergunta mesmo pessoal, e à qual, em dias de mau humor, eu teria respondido "Não tem nada a ver com isso"). Não respondi a isto, mas a conversa centrou-se na questão da felicidade no reino de Jeová, depois de eu ter tentado perceber como seria a vida nesse paraíso. Basicamente, seríamos todos muito felizes; a tristeza e a melancolia desapareceriam da face da Terra, disseram-me. E eu, lembro-me bem, tentei colocar questões relacionadas com a passagem do tempo. Como iria eu passar os meus dias até à eternidade? O que é que iríamos fazer? O que é que havia para fazer? O exemplo que me foi dado não poderia ser pior (para eles) e melhor (para mim, ou seja, para corroborar o meu cepticismo): arte. Falaram de pintura e disseram que poderíamos pintar - i.e., passar o nosso tempo a pintar - as obras de Jeová (no elogio da mimese mais estranho que eu já ouvi).
O autocarro acabou por chegar e eu fiquei a pensar na conversa. Hoje acho que não mudei muito de ideias sobre a explicação daquele tipo de fé: o que distingue as Testemunhas de Jeová dos católicos que conheço é, essencialmente, a questão do mistério. Os católicos que conheço nunca me diriam como é a vida eterna, nunca dissertariam sobre as coisas que se fazem nessa vida; têm uma fé que admite perfeitamente o mistério e a inefabilidade. Claro que há outras diferenças importantes. Pelo que percebi, as Testemunhas não falam apenas na vida eterna, mas da repetição da felicidade anterior ao pecado original, de um outro paraíso na Terra, onde nós (seres sem memória? corpos imunes à dor?) iríamos reconstruir tudo, depois de uma devastação universal. Enfim, para mim, o mais estranho é admitir-se como inteligível a ideia de pessoas sem dor nem tristeza, vivendo (?) para sempre.

sábado, julho 25, 2009

Um peixinho, uma saladinha e a continha


Eu já tinha dado por isto, e acho que li alguma coisa sobre o caso: há empregados de mesa que usam e abusam dos diminutivos. Mas hoje a situação foi mais grave: fui atendida por uma pessoa que usava apenas formas no diminutivo. Bom, foi mais ou menos assim: eu disse "queria peixe" e o empregado responde "vai um peixinho, então"; depois, pedi o acompanhamento e ouço "muito bem, uma saladinha!"; por fim, peço a bebida e tenho como resposta "então vai ser uma águinha". Depois, no decorrer da refeição, o empregado passou por perto e perguntou "o peixinho está bom?"; nesta altura, a pessoa que estava comigo respondeu "o peixinho está óptimo". Chegou então a altura da sobremesa e aqui, juro mesmo, o meu pedido foi confirmado assim: "ok, uma moussezinha" (ou "mussezinha", na forma aportuguesada). Por fim, lá pedimos a conta, perdão, a continha.

sexta-feira, julho 24, 2009

Nomes

Ainda não tive tempo nem o interesse suficiente para ler os textos de dois blogues recentes (este e este), mas o nome do blogue de apoio ao PSD - Jamais - é muito mais giro... *

* (e mais inteligível, penso eu)

Numa feira do livro aqui perto

(3 euros)

Confissões

Também já mudei de psiquiatra várias vezes - não tantas como a autora deste texto... - mas acabei por encontrar uma relação estável com um psicanalista que me escuta há cinco anos, e com quem tenho o privilégio - e o grande prazer - de poder discutir sobre as fragilidades da interpretação psicanalítica dos meus problemas. Já me disseram que padeço de uma incoerência profunda e que a minha análise nunca chegará a bom porto porque eu conheço bem os argumentos que anulam as aspirações à verdade de uma descrição psicanalítica. Pode haver, sim, uma incoerência. Mas a verdade é que, com essa pessoa que me escuta há cinco anos (e que também fala, claro), consegui alcançar uma coisa muito importante: lucidez. Ou seja, consegui começar a tomar decisões com base numa narrativa mais clara sobre a minha vida. De felicidade não falo. Porque a felicidade é como a «verdadeira alegria» que Lúcio Séneca descreve a Lucílio: «é uma coisa muito séria» (Cartas a Lucílio. Livro III, Carta 23). É o fim de uma vida, não de uma análise.
A relação que tenho com o meu psicanalista é muito semelhante à de um casal: temos os nossos altos e baixos. Já não adianta contar o número de vezes que entro decidida a pôr fim àquilo. Nessas ocasiões, tento, com todas as minhas forças, ser o que não sou e ponho o ar mais determinado e sério do mundo. Até hoje nunca resultou. Digo sempre "até à próxima", tentando convencer-me de que não estou a ser uma pessoa fraca, de que decidi o melhor para mim. E volto lá. Volto, apesar de ter grandes amigos, os melhores amigos. A Ana Isabel, que pertence a este grupo, está sempre a dizer-me que quem tem amigos não precisa de psiquiatras nem de psicólogos para nada. Amanhã tenho de lhe ligar. Sem falta.

sexta-feira, julho 17, 2009

Pois é...


Dana Fradon, 1976.
(The Complete Cartoons of The New Yorker)

terça-feira, julho 14, 2009

Pessoas sem memória

Chorei sempre com o filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Vi-o três vezes: no cinema, na televisão (passou recentemente) e em DVD. Hoje, falo dele como sendo um dos filmes da minha vida; tive até uma discussão interessante com uma pessoa que o considera 'inferior' ao Lost in Translation (espero não chocar ninguém com isto, mas não consigo ver no filme de Sofia Coppola uma obra transcendente).


O Eternal Sunshine... parte da ideia de que seríamos pessoas mais felizes se pudéssemos apagar certas memórias. Há uma empresa - de nome "Lacuna" - que faz o trabalho, começando por reunir todos os objectos que ligam o cliente à pessoa que ele deseja apagar. O trabalho parece simples: começa pela identificação de reacções àqueles objectos e pela elaboração de um mapa do cérebro. Mas é um trabalho sujeito a falhas. Na verdade, a analogia entre memória e impressão não funciona no argumento do filme, e é por esta razão que o cliente, Joel Barish (Jim Carrey), pode tentar esconder Clementine (Kate Winslet), ligando-a a uma narrativa de vida que começa na infância. Fugir com Clementine, e sair do mapa que a empresa "Lacuna" desenhou, é a forma de assegurar aquela ligação.


Quando revi o filme, fiquei a pensar na cena em que Joel descobre que foi apagado da memória de Clementine. Esta cena e aquela em que os dois ouvem as gravações que justificaram o procedimento de eliminação da memória são profundamente belas e tristes, de tão verdadeiras. Dizer a uma pessoa que gostaríamos de apagá-la da nossa memória não é exactamente ofender ou magoar. Na verdade, é até uma forma bastante clara de dizer que essa pessoa nos marcou definitivamente, a ponto de não nos deixar seguir com a vida, como se tivesse deixado a nossa existência em pausa. Mas a descoberta de que foi apagado suscita em Joel um desespero absoluto, próximo da loucura. Trata-se, a meu ver, de uma reacção verosímil - corrijo: a única reacção verosímil - à possibilidade de a sua história de vida se ter transformado numa narrativa que não pode partilhar, da qual só ele tem conhecimento, e que deixou de estar articulada com a narrativa de outra pessoa.

quinta-feira, julho 09, 2009

Para desanuviar...

Nota sobre o ensaio clássico de Oakeshott

Não conhecia o "On Being Conservative" (1956), de Michael Oaekshoot. Li-o ontem e considero-o um ensaio magnífico: muito bem escrito/pensado, com ideias claras e bons argumentos. Sobre a tese, tenho a dizer isto: identifiquei-me com algumas ideias acerca do que deve ser a política à luz da "disposição" que define o conservador (as ideias que eu tinha sobre o conservadorismo, devo dizer, modificaram-se um pouco com a leitura do ensaio); porém, não concebo a minha vida sem a possibilidade de mudar - sem a possibilidade de decidir mudar sem ter certezas claras sobre os 'ganhos obtidos' com a mudança (este é um ponto que eu ainda não percebi bem no ensaio, porque não sei como se calculam essas coisas; lembra-me o problema de Bentham). Em suma, haverá aqui (estou a fazer o meu próprio diagnóstico...) um pequeno conflito entre personalidade (na descrição de Oaekshoot, sou uma jovem que vive num estado de «delightful insanity»...) e ideologia.

Deixo aqui a parte final do ensaio. Oaekshoot cita Shelley, entre outros. Belíssimo.

Everybody's young days are a dream, a delightful insanity, a sweet solipsism. Nothing in them has a fixed shape, nothing a fixed price; everything is a possibility, and we live happily on credit. There are no obligations to be observed; there are no accounts to be kept. Nothing is specified in advance; everything is what can be made of it. The world is a mirror in which we seek the reflection of our own desires. The allure of fiolent emotions is irresistible. When we are young we are not disposed to make concessions to the world; we never feel the balance of a thing in our hands - unless it be a cricket bat. We are not apt to distinguish between our liking and our esteem; urgency is our criterion of importance; and we do not easily understand that what is humdrum need not be despicable. We are impatient of restraint; and we readily believe, like Shelley, that to have contracted a habit is to have failed. These, in my opinion, are among our virtues when we are young; but how remote they are from teh disposition appropriate for participating in the style of government I have been describing. Since life is a dream, we argue (with plausible but erroneous logic) that politics must be an encounter of dreams, in which we hope to impose our own. Some unfortunate people, like Pitt (laughably called "the Younger"), are born old, and are eligible to engage in politics almost in their cradles; others, perhaps more fortunate, belie the saying that one is young only once, they never grow up. But these are exceptions. For most there is what Conrad called the "shadow line" which, when we pass it, discloses a solid world of things, each with its fixed shape, each with its own point of balance, each with its price; a world of fact, not poetic image, in which what we ahve spent on one thing we cannot spend on another; a world inhabited by others besides ourselves who cannot be reduced to mere reflections of our own emotions. And coming to be at home in this commonplace world qualifies us (as no knowledge of "political science" can ever qualify us), if we are so inclined and have nothing better to think about, to engage in what the man of conservative disposition understands to be political activity.

terça-feira, julho 07, 2009

Maria Filomena Mónica e os queirosianos

Tem tido uma guerra com os queirosianos. Porquê?
Eles começaram a fazer-me guerra.

Mas guerra como?
Tem a ver com as carreiras, luta-se por um poder muito pequenino. Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias. Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno-almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam. Achei aquilo estranho. Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: "Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território" Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse-me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade americana pagaria. Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.

Maria Filomena Mónica em entrevista ao jornal I