domingo, setembro 06, 2009

Desculpas...

A pessoa que estava sentada à minha frente comentou dizendo «Isto só em Portugal!». Comentava assim a situação de termos estado a ver, no Festróia (no Auditório Charlot), um filme muito bom (The Narrows, do cinema independente norte-americano) numa sala com uma qualidade de som muito, muito má, filme cujo realizador (François Velle) estava presente. No fim - cereja em cima do bolo - a pessoa que tinha falado no início da sessão disse que a organização e (sic!) o realizador queriam pedir desculpa. O realizador a pedir desculpa? Enfim.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Festróia


O programa aqui.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Livros para crianças

«Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças.»

Fernando Pessoa. "Naufrágio de Bartolomeu" (1913). In Crítica. Ensaios, Artigos e Entrevistas. Edição de Fernando Cabral Martins. Assírio & Alvim, 2000, p. 78.

Palmas no avião

Aqui fala-se de pessoas que batem palmas nos voos. Na minha última viagem de avião, ouvi a melhor frase sobre o fenómeno. Foi dita em voz alta pelo homem que estava sentado atrás de mim: «Então era suposto que isto corresse mal?».

As frases do debate de ontem

«Não se irrite» (José Sócrates e Paulo Portas)

«Há um filme chamado Eu sei o que fizeste no Verão passado» (José Sócrates)

terça-feira, setembro 01, 2009

A história de um ataque de riso

Passei hoje na Bertrand e comprei um livro: O que é a filosofia?, de Ortega Y Gasset (uma obra que está incluída na excelente colecção da Biblioteca Editores Independentes). Quando ia pagar, reparo no saco da livraria. No saco lia-se «Cartão Leitor Bertrand - Carregado de Vantagens». Perguntei logo quais as vantagens do cartão (na minha mala só tenho dois "cartões que dão desconto": um do Modelo e outro da Fnac). Ouvi com atenção até à parte em que a pessoa me diz que o cartão de leitor dá desconto imediato de 10% MAS só nas «segundas segundas-feiras de cada mês». Ao ouvir isto tive um ataque de riso. Tive mesmo. Pedi desculpa porque não conseguia ouvir mais nada. Foi quase um minuto de riso. Razões? As perguntas que surgiram na minha mente. Foram várias. Será que há pessoas que esperam pelas «segundas segundas-feiras de cada mês» para comprarem livros? Porquê às «segundas segundas-feiras de cada mês»? E porque não às «segundas quartas-feiras de cada mês»? Ou aos «segundos domingos de cada mês» (como acontece com algumas feiras)? Mas quem é que se lembrou desta grande vantagem?
Lá acabei por pagar - sem desconto, porque hoje é terça-feira, é a primeira semana do mês e eu nem tenho um cartão carregado de vantagens...

A ver se ainda apanho

...a exposição de Henri Fantin-Latour na Fundação Calouste Gulbenkian.

Portrait of Mlle C. D. [Charlotte Dubourg], 1882, Oil on canvas, 117 x 92 cm

«De facto, em toda a pintura de Fantin-Latour, e não só nos retratos, transparece a contenção própria de uma certa tristeza de ser, a contemplação do mundo numa espécie de melancolia posta em surdina.» (Vasco Graça Moura, no DN)

segunda-feira, agosto 31, 2009

Pérola!!!


Encontrada no "ABC do PPM".

Snif, snif... Desculpem, mas estou muito comovida


Do "Delito de Opinião" veio um prémio para este blogue: o prémio de "blogue viciante", «no «bom sentido», como escreve o Pedro Correia. Muito comovida, só tenho de agradecer o prémio. Do "Provas de Contacto" chegou também, há algum tempo, um "biscoito". Tomando a liberdade de juntar os desafios que vinham com os dois prémios, vou então indicar dez blogues que merecem o título de "viciante" e um "biscoito":


O desafio do "Delito de Opinião" exige também que se enumerem três objectivos para os próximos tempos. Aqui ficam:
1) decidir em quem vou votar;
2) ver os filmes do Hitchcock que ainda não vi;
3) escrever o último capítulo da tese (este é mais um "imperativo").

domingo, agosto 30, 2009

Aleluia!!


Segundo li na segunda página do Expresso, há alguém em Portugal - os Gato Fedorento - com vontade de fazer uma coisa semelhante ao "The Daily Show", o programa de Jon Stewart.

"Rousseau e outros cinco inimigos da liberdade"


Este livro fala de um grupo de pessoas que responderam de forma muito diferente aos problemas da filosofia política. Cada uma dessas pessoas - Helvétius, Rousseau, Fichte, Hegel, Saint-Simon e Maistre - reflectiu a partir de um determinado conceito de liberdade, o tema principal dos textos de Isaiah Berlin. Rousseau, por exemplo, queria tanto defender a liberdade individual (é caso para dizer que a intenção era boa) que acabou por limitá-la radicalmente; é neste sentido que Berlin fala de um «paradoxo funesto» (p. 73) quando comenta o pensamento do autor de O Contrato Social.

Já Hegel é descrito como um filósofo obscuro que submeteu a liberdade individual a uma 'grande visão metafísica'. Segundo Berlin, o esquema hegeliano de interpretação racional do Universo e da História não passa de uma 'imensa e perigosa mitologia': o «crime» de Hegel «foi ter criado uma imensa mitologia na qual o Estado é um indivíduo e a História é um indivíduo e existe apenas um único padrão que somente o conhecimento metafísico é capaz de revelar. Criou uma escola de História a priori [...]» (p. 135).

Citável pela clareza é a passagem em que Berlin explica a refutação das teorias contratualistas de Rousseau e outros por Joseph de Maistre:

«[o século XVIII] Ensinou-nos que a sociedade se baseou num contrato. Mas isso é um absurdo, tanto lógico como histórico. O que é um contrato? É uma promessa. Temos então um conjunto de indivíduos racionais que se reúnem - afirma Maistre de modo zombeteiro - com o objectivo de organizarem uma existência pacífica que lhes proporcionará consideravelmente mais bens terrenos, segurança, felicidade, liberdade, ou o que quer que seja que desejem, do que obteriam num determinado estado de natureza. E como o fazem? Construindo um estado como se este fosse um banco ou uma empresa de responsabilidade limitada. Mas mesmo isso exige que a promessa, o contrato social, seja executória. Tem de existir um instrumento para, se alguém a infringir, forçar essas pessoa à submissão ou banição. Mas um conjunto de homens que compreendem conceitos como promessas e o cumprimento de promessas é já uma sociedade completamente madura e sofisticada.» (pp. 178-179).

A exposição de Berlim é clara (a origem dos textos - conferências radiofónicas - ajudará a explicar esta clareza), tornando evidente o perigo de certas ideias. Mas é importante não perder de vista o sentido de "liberdade" que suporta o pensamento de Berlim: «é a liberdade preconizada pelos grandes pensadores liberais ingleses e franceses» (introdução, p. 24), e não um conceito universal e sem história.

Genial, genial, genial

sexta-feira, agosto 28, 2009

quarta-feira, agosto 26, 2009

"Parolo, mas sincero"


Encontrei a pérola no blogue a dignidade da diferença.

segunda-feira, agosto 24, 2009

É oficial


Caríssima, vamos passar à fase da comida light. Eu não queria, mas já estás com seis quilos...

domingo, agosto 23, 2009

"Sinédoque, Nova Iorque"

Havia uma razão importante para eu ir ver o filme Sinédoque, Nova Iorque: Charlie Kaufman escreveu O Despertar da Mente, um dos filmes que eu levaria comigo para uma ilha deserta se lá tivesse um leitor de DVDs. Mas há qualquer coisa que parece faltar no filme protagonizado por Philip S. Hoffman. É certo, como diz a crítica que li no Expresso, que se trata de um grande candidato ao prémio de «filme mais estranho e bizarro do ano». Em mim ficou sobretudo a ideia de que algo não funciona totalmente. Talvez seja a insistência num tópico que (já) não me interessa muito (a relação arte/vida); ou a sensação de que falta uma linha final que dissipe um pouco a confusão de que vive o filme - e, claro, a vida (citando um diálogo do filme: cada pessoa é uma «confusão»). Também me parece que aquilo que se mostra ou o modo como se conta não fazem completa justiça à descrição da dor e do medo - o medo terrível da doença e da solidão - de Caden Cotard. É uma pena. Na verdade, a dada altura torna-se claro que a grande ambição de Cotard era criar um palco com situações que permitissem mostrar a tristeza e a dor de todas as pessoas (e a música que acompanha o genérico final só reforça a importância deste ponto): cada pessoa é única pela dor que tem de enfrentar, e é por esta razão que «ninguém é figurante na vida». No entanto, esta ideia (de onde se deduz que o "dramaturgo ideal" é aquele que capta a universalidade da dor em situações individuais) parece perder-se num modo de narrar que estabelece as suas próprias regras de inteligibilidade.

sábado, agosto 22, 2009

Bom, vou agora tentar piratear isto:

sexta-feira, agosto 21, 2009

Não se pode perder mesmo

... a série "O país dos Zezés" no Provas de Contacto.

(A filosofia moral está com Ferreira Torres!)

«As pessoas não se medem pela viatura ou pela roupa
que usam, mas sim pelo seu carácter»


(Mais pérolas aqui)

quinta-feira, agosto 20, 2009

A "política das pessoas"

Liguei a televisão e Manuela Ferreira Leite estava a ser entrevistada por Judite de Sousa. Por aquilo que ouvi, pareceu-me que a líder do PSD rejeita a ideia de "político profissional"; assim, associa à política o "calculismo", as "frases feitas" e o "powerpoint". A política da verdade não se faz com "políticos". MFL não elabora frases como um "político", ela não fala como eles, e chega a afirmar que comete erros linguísticos como "qualquer pessoa". MFL mantém-se firme e diz que nem a cor do cabelo mudaria: ela é apenas uma pessoa, uma pessoa como eu e o meu vizinho que passa os dias a ouvir Céline Dion.
Pois, sim... Mas é aqui que eu começo a pensar e vejo que não percebi uma coisa na entrevista. Para certos fins (para ganhar votos, o que é legítimo, claro), faz sentido falar de uma política que se faz contra a ideia de política, contra a ideia de que há um conjunto de acções que partilham uma essência ou natureza política. Neste raciocínio, fala-se de e defende-se uma política das pessoas que são autênticas e que, por essa razão, se comportam no exercício do poder de acordo com aquilo que realmente são, ou seja, sem artifício (admito que isto é confuso, mas estou a tentar pôr por palavras aquilo que percebi). No entanto, para outros fins (para justificar a escolha de certos nomes para uma lista), entramos num raciocínio diferente, e, segundo MFL, começa a fazer sentido distinguir entre domínios (justiça/política, privado/público) e falar de acções que não têm uma natureza política, que não são politicamente relevantes.
Clarificando: se eu percebo a ideia de que as pessoas devem ser coerentes e não andar "a tirar e a pôr chapéus" (como diz um professor meu), ou a ideia de que estar na política (expressão muito curiosa) não é desempenhar uma certa performance, o que já não compreendo é onde está a coerência no momento em que se pressupõe, a propósito de certos casos de que a justiça está a tratar, que as pessoas se comportam de maneira diferente quando estão em âmbitos (contextos) diferentes.
Sociologicamente, a tese de que somos diferentes segundo o contexto onde estamos não deixa de ser uma tese interessante (talvez demasiado existencialista para o meu gosto). O ponto é que esta tese só é útil a Manuela Ferreira Leite em certos contextos.

Os comentadores e a ERC. (Não sei se é resultado de uma influência, mas apeteceu-me citar este texto sobre a dignidade das crónicas)

O vírus da influência
A "directiva" que desejava proibir espaços de opinião aos candidatos às eleições legislativas e autárquicas, ideia tão insólita quanto a Entidade Reguladora (ERC) sua autora felizmente desrespeitada por quase todos os media, não nasceu no vazio.
Candidatos ou não, há de facto por aí uma quantidade notável de sujeitos que comentam na imprensa apenas para promover um partido ou, o que é ainda mais comum, o posto deles dentro de um partido. O eufemismo para isto é "influência". Em Portugal, há quem meça o mérito de um comentador pela "influência", ou seja, pelo número, necessariamente hipotético, de eleitores ou militantes de "base" que arregimenta para a sua causa. É por isso que se tende a preferir o termo opinion maker a columnist: o objectivo de muitos dos que emitem desabafos nos jornais ou nas televisões é mesmo fazer opinião, no curioso sentido de ensinarem ao seu público o que pensar. Fazer cabeças seria a expressão exacta.
Naturalmente, acha-se o propósito natural, como não se acharia natural que um romancista escrevesse para converter leitores à IURD e fosse exclusivamente avaliado sob esse critério. Embora a crónica jornalística não possa aspirar à dignidade do romance, era escusado rebaixá-la ao nível do sermão ou, nos caso irremediáveis, da solicitação do dízimo.
Resta saber se alguém paga o dízimo, ou, traduzindo, se a doutrinação resulta. Tenho dúvidas. Se não me engano, o leitor médio procura numa crónica motivos para se irritar ou divertir. Em ambos os casos, quer entreter-se durante cinco minutos, findos os quais vai à sua vida e não volta a lembrar-se do que leu. Excepto se se tratar de uma crónica doutrinária: aí, lembra-se de que não se entreteve nem um bocadinho.
Tamanha maçada acontece porque, do alto da sua pompa, os comentadores "influentes" partem de um princípio partilhado pela ERC: o de que o leitor médio é tonto e engole o que lhe servirem. Provavelmente, julgam-se lidos pelos sujeitos das reportagens da Liga dos Últimos ou pelos entrevistados de Os Contemporâneos. Vaidade deles. Eu, pelo contrário, imagino os meus textinhos frequentados por criaturas equilibradas e com maiores desígnios na vida que o de me dar importância. Não é falsa modéstia, é modéstia autêntica e pavor do ridículo, atributo que alguns dos meus colegas de ofício não demonstram conhecer. Ao contrário da ERC, estão no direito deles.

Alberto Gonçalves na Sábado desta semana (n.º 277)