quarta-feira, setembro 23, 2009

Um dia na galeria

(Veio daqui)

terça-feira, setembro 22, 2009

Foi o que se pôde arranjar

Sobre as escutas que, parece, não existiram, penso duas coisas. Primeiro, acho que ainda não se sabe tudo. Segundo, aquilo que sabemos faz crer que estamos perante um enredo muito mauzinho, cheio de inconsistências e trapalhadas. É pena. Era bom que fosse mesmo uma coisa em grande, muito bem pensada, muito bem concebida: um verdadeiro escândalo. Ao menos, poderíamos fazer perguntas como estas: como é que estes tipos pensaram numa coisa destas? ou quem concebeu o plano?. Mas não. Fica-se com a ideia de que foi o melhor enredo que se arranjou. Até o e-mail publicado no DN é estranho... Fixei dois pormenores: a parte do «lê este e-mail sentado» e a forma de despedida «vai-te a eles». (Estas últimas palavras, vá lá saber-se porquê, lembraram-me uma passagem d'O Primo Basílio em que Basílio, depois de rever Luísa, exclama: «A ela como Santiago aos Mouros!».)

Séneca

«To some, he appears as unduly morally complacent, and to others as a loathsome hypocrite. He had wide financial interests and was very rich.»

O texto completo está aqui.

Começar bem o dia

é sair de casa e levar isto no mp3:



ou ler um dos textos do Valupi no Aspirina B (eg. "Crespoterapia"); é o remédio certo para manter a boa disposição.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Comichões

«Sempre que na Assembleia se diz que o PSD é de direita, eles torcem-se todos nas cadeiras.»

domingo, setembro 20, 2009

"Estado de Guerra"

Além de ser um filme de guerra absolutamente extraordinário, as senhoras têm direito a um plano muito bem conseguido do belo rabiosque do Jeremy Renner (é aquele onde ele está a fazer a barba). E se passarmos da sensualidade para a poesia, sublinhe-se a descrição da caixa que William James (interpretado pelo Jeremy Renner) tem debaixo da cama: é a caixa onde o sargento guarda "todas as coisas que lhe quiseram fazer muito mal" (aliança de casamento incluída). E é também, claro, o objecto que lhe lembra que entre a vida e um jogo de dados talvez não exista grande diferença.

sábado, setembro 19, 2009

Pedro, o anarquista

No liceu tive um colega que se chamava Pedro. O Pedro era anarquista e lia muitos livros. Infelizmente, a nossa relação ficou marcada por algumas discussões. Foram grandes discussões na aula de História, sempre que comentávamos as notícias mais importantes da semana (a professora usava as notícias actuais para falar do passado; dizia, com toda a razão, que é preciso saber estabelecer relações e perceber como as coisas têm a ver umas com as outras). Na verdade, foi nas discussões com o Pedro que fiquei a saber que simpatizo muito pouco com posições radicais. E quando ele apresentou um trabalho sobre Rousseau, eu estive para arrancar cabelos. O Pedro, se pudesse, mandava apagar Hobbes da História.
Apesar de defender posições que eram, do meu ponto de vista, irrealistas, o Pedro procurou traduzir o seu pensamento num modo de vida. Os pais, professores, tiveram um grande desgosto quando o rapaz, no final do liceu, saiu de casa e foi viver com algumas pessoas num regime que pretendia ser uma imitação do estado de anarquia, segundo o próprio explicou a outros colegas. Penso que chegou a pertencer ao movimento dos «Ocupas». Depois, saiu do país e andou a trabalhar para a revolução, como diz um amigo meu que também o conhecia. Andou a viajar pela América do Sul e chegou a ser preso em Espanha. Nunca mais soube nada dele, desde a história da prisão.
Mas eu lembrei-me do Pedro a propósito de quê? Lembrei-me porque o Expresso, ouvi ontem na Sic, traz hoje umas notícias sobre pessoas do Bloco de Esquerda que têm acções em algumas empresas. Não me espanta, nem eu tenciono atirar nenhuma pedra. Se me é permitida esta ingerência num meio de comunicação social, correndo o risco, é certo, de aumentar a nossa "asfixia", eu diria que aquilo que o Expresso publica (vou agora ali comprar o número) não é a notícia: quem merecia ser capa era o Pedro. O resto é tudo normal.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Simplesmente, música



Sim, «é música, simplesmente».

Amigo e admirador...

Ó Manuel!

A Teixeira de Pascoaes
(Lisboa, 5 de Janeiro de 1914)
[...]
Não que eu julgue O Doido e a Morte uma das suas obras melhores. Mas tem, como tudo quanto o meu Amigo escreve, um sabor espiritual a Eterno. Naquelas páginas álgidas, onde o Mistério esfriou em medalha, tendo de um lado a Loucura e do outro a Morte, Deus é presente na sua nocturna forma de Pavor e Silêncio. A sombra de uma esfinge ao luar - eis o que é para mim esse seu poema. Bem sei que isto é pouco lúcido, mas o meu espírito está bambo e desfiado e já não suporta o peso de um raiocínio e de uma análise. Digo-lhe tudo por imagens e metáforas, e estas são a moeda falsa da inteligência.
Tenho seguido com atenção o que o meu amigo tem escrito. Há páginas das Elegias em que a Dor é quase divina. E há períodos do Verbo Escuro que são estatuetas do Mistério, encontradas em túmulos de reis que, num outrora impossível, falaram talvez com Deus.
Releve-me que me aproveite de lhe estar escrevendo sobre outro e tão diverso assunto para enfim lhe agradecer O Doido e a Morte e lhe falar do que tem escrito. Se não lhe falasse disso agora, quem sabe quando lho diria? Passo a vida a adiar tudo - e para quando?
Ao menos ganho com isso o ser Simbólico. O que é cada um de nós, na sua essência absoluta e divina, senão uma Perfeição adiada para Deus?
Abraça-o comovidamente o seu sincero amigo e eterno admirador

Fernando Pessôa...

Fernando Pessoa. Correspondência (1905-1922). Assírio & Alvim, 1999, pp. 106-107.

Matrix

Ontem à noite, depois de ter visto o programa Quadratura do Círculo, pus-me a pensar numa coisa: se eu fosse jornalista iria embirrar muito com Pacheco Pereira. É que Pacheco Pereira crê na existência de dois mundos: um mundo real e um outro, o mundo sombrio das aparências, onde os jornalistas nos querem manter à viva força. Os jornalistas escondem a luz do mundo real, ocultam, inventam, manipulam. Existe uma verdade, mas os jornalistas não querem que saibamos qual é. Têm sempre outros interesses...

quinta-feira, setembro 17, 2009

A minha conclusão

Concluí que o primeiro-ministro estava muito mal-disposto no dia em que deu esta entrevista. As perguntas que lhe foram feitas por Maria Flor Pedroso, todas pertinentes, não justificam tanta irritação e impaciência. Um bocadinho de delicadeza fica sempre bem.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Os Japoneses não existem

A circunstância humana de eu ter amigos fez com que ontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tóquio. Surpreendeu-me a realidade quase evidente da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse uma criatura, ou sequer cousa, real .
O Dr. Boro — sinto que me custa doutorá-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor existente da Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima.
Preciso explicar que as minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das várias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões- e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país económico de realidade. O professor Boro é sólido, tem sombra — várias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e soluções compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço.
[...]
Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem, e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipónica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa chávena», como dizem outros, é puramente europeia.
[...]

Fernando Pessoa. "Crónica Decorativa" (O Raio, 12 de Setembro de 1914). Crítica. Ensaios, Artigos e Entrevistas, Assírio & Alvim, pp. 94-96.

(A crónica pode ser lida no Arquivo Pessoa)

Ainda gosto mais de ouvir isto



...depois de ter visto há pouco o filme de Anton Corbijn:

terça-feira, setembro 15, 2009

A metafísica dos livros

Ao dirigir-me para o terraço de minha casa, paro para pensar se
é mesmo real,
Uma trepadeira de campainhas na minha janela dá-me mais prazer
que a metafísica dos livros.

Walt Whitman. "Canto de Mim Mesmo". Folhas de Erva

domingo, setembro 13, 2009

Fazer verdades


Pensar é fazer, por exemplo, verdades, fazer filosofia.
Ocupar-se é fazer filosofia ou fazer revoluções ou
fazer um cigarro ou fazer footing ou passar o tempo.
Ortega y Gasset

É um pequeno livro, da Biblioteca Editores Independentes (2007). O que é a filosofia? corresponde a um curso dado por Ortega y Gasset em Madrid no ano de 1929. Nas várias lições do curso, torna-se evidente uma intenção de filosofar com "gentileza", de acordo com a acepção da palavra que encontramos na segunda lição: «É evidente que eu hei-de procurar ser entendido por todos, porque [...] a claridade é a gentileza do filósofo» (p. 23).
Para responder à pergunta "o que é a filosofia?", Gasset conta, ao longo do curso, uma história. É a história do que foi a filosofia até à época antifilosófica que marca o final do século XIX, quando os filósofos foram humilhados pelo «imperialismo da física» (p. 37) e o seu trabalho reduzido à teorização do conhecimento (epistemologia), levando ao extremo uma tendência que Kant inaugurara com a ideia de um "tribunal da razão". O ponto de viragem nesta história teve início com a «preocupação filosófica dos físicos» e, explica Gasset, com a conclusão de que os factos não impõem princípios teóricos, isto é, com a aceitação da impossibilidade de se encontrar um fundamento último para as teorias.
A história da filosofia contada por Gasset tem três momentos essenciais. Começa, como não poderia deixar de ser, com os Gregos, que só conheciam «um modo de ser que consiste em exteriorizar-se» (p. 118), e tem uma mudança decisiva em Descartes, o pai da idade moderna que inventou a mente enquanto espaço interior, «recinto» (p. 120) (sublinhe-se que Gasset não esquece a importância de Santo Agostinho na história que conduziu à filosofia cartesiana da subjectividade). O terceiro momento é o da superação do idealismo, e é para este ponto que Gasset pretende conduzir a reflexão dos estudantes, apoiando-se no pensamento de Heidegger. Assim, o nosso modo de ser, argumentará Gasset, é sempre em circunstância, ou, em terminologia heideggeriana, um ser-aí, um existir no mundo que implica estar (pre)ocupado. Por exemplo, a fazer verdades: «Eu consisto num ocupar-me com o que há no mundo e o mundo consiste em tudo aquilo de que me ocupo e em nada mais. Ocupar-se é fazer isto ou aquilo; é, por exemplo, pensar. Pensar é viver porque é ocupar-me com os objectos nessa peculiar faina e convívio com eles que é pensar. Pensar é fazer, por exemplo, verdades, fazer filosofia. Ocupar-se é fazer filosofia ou fazer revoluções ou fazer um cigarro ou fazer footing ou passar o tempo.» (pp. 180-181).

O ponto da indecisão

É uma chatice, uma maçada que se repete. Há umas semanas escrevi aqui que tinha de decidir em quem vou votar. Desde então, pus-me a pensar na questão de modo "racional", a enumerar os prós e contras de votar em quem já lá está, ou seja, PS, ou a tentar ver qual é o partido com que me identifico mais em termos ideológicos, mas isto está difícil. A última hipótese não resulta muito porque há áreas em que defendo o mesmo que os partidos mais conservadores. Outras há em que as posições de esquerda recebem a minha aprovação; a política de imigração é uma dessas matérias, e é uma das razões por que eu não voto CDS. Enfim, é a minha dupla personalidade política...
No entanto, já decidi em quem não vou votar, o que é um grande avanço. Não irei votar em Francisco Louçã nem em Manuela Ferreira Leite (sobre o CDS já expliquei). Francisco Louçã diz as palavras "bancos" e "grande capital" num tom especial. O tom com que as diz é o de uma pessoa que acredita, ao contrário de mim, numa solução perfeita (e totalitária) para a sociedade. E o argumento da coerência, que usou recentemente, não me convence; eu posso ser muito coerente e estar errada. Sobre Manuela Ferreira Leite, eu acho que deveria ser posta em sossego. Já chega de sacrifícios pelo partido. Para além do caso mais recente da 'ajuda aos espanhóis', a política da verdade não ajudou nada. Eu, confesso, ainda não sei bem o que é isso. É dizer "a" verdade sobre o país? Afirmar que isto está mesmo muito mal (cf. As Profecias de Medina Carreira, da Editora Grande Abismo)? Defender que o PSD é o único partido que diz a verdade? Hummm... No entanto, é preciso reconhecê-lo, graças à líder do PSD a população inteira ficou a saber o que são as "pequenas-e-médias-empresas".
Bom, isto tudo para dizer que restam duas hipóteses. Ou voto em Sócrates - apesar de discordar do Partido Socialista nas questões da educação (e não é só pelo modelo escolhido para a avaliação dos professores), e de já não poder ouvir o discurso do "país moderno e optimista"... Ou, segunda hipótese, voto em branco. Devo dizer que esta é a hipótese que leva vantagem. Nunca incluo na minha "lógica" o PCP, porque não consigo crer na possibilidade de conjugar a felicidade individual com um modelo de sociedade comunista.
E sobre o último debate, houve surpresa. Pensei que iria ser o melhor debate para o primeiro-ministro, mas não (isso aconteceu no frente-a-frente com Louçã, «o maroto»). Manuela Ferreira Leite esteve melhor ontem do que no debate com Paulo Portas. Mas isto, claro, os comentadores já explicaram ao povo.

* (eu às vezes também tenho saudades de Marques Mendes)

sexta-feira, setembro 11, 2009

Isto é bonito


Está no HubbleSite, mas veio directamente daqui.

quinta-feira, setembro 10, 2009

«Foi pró Algarve, seu maroto...»

quarta-feira, setembro 09, 2009

Publicidade

Se procura um sítio onde é possível ver um filmezinho e fazer sauna ao mesmo tempo, não procure mais! Temos aquilo que quer! Venha ao Festróia (Sala Mário Ventura), a partir das 14h00.

Ciências virtuais

«Repare Fernando Pessoa que a sociologia é uma ciência tão virtual como a metafísica .»

Álvaro de Campos, "O que é a metafísica?" (Fernando Pessoa. Crítica - Ensaios, Artigos e Entrevistas. Assírio & Alvim, 2000, p. 230)