sábado, janeiro 23, 2010

A situação é esta

Como os leitores deste blogue já repararam, tenho publicado muito pouco. A razão é simples e ficou num post de há uns meses: comecei a dar aulas. Pois é, as bolsas da FCT não duram para sempre. Mas a experiência tem sido muito boa. Há, no entanto, coisas que não percebo. Por exemplo, ontem ouvi falar no conceito de "pedagogia diferenciada". A ideia base é esta: os alunos ("aprendentes") têm diferentes "inteligências" (musical, motora, etc.). Enfim, para mim isto é um disparate, mas o Ministério da Educação prefere chamar-lhe "arma para combater o insucesso".
Para além desta aventura na escola, arranjei tempo para participar neste colóquio sobre Literatura e Filosofia. E para as pessoas que gostariam de ter alguma coisa parecida com uma resposta para a pergunta "O que é 'arte'?", aqui fica o link para um workshop.

E agora vou ali ouvir um disco destes senhores:

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Vamos lá fazer um balanço...

Agora que é tempo de balanço, aqui fica uma espécie de lista.
Dois filmes de que gostei muito: Inglourious Basterds, do grande Tarantino, e The Hurt Locker. A maior decepção foi o Avatar (cheguei a ter pena da Sigourney Weaver no Daily Show). No meio ficou o Capitalism: A Love Story. Eu, que não morro de amores pelo trabalho do Michael Moore, até achei graça.
Sobre livros, o pior do ano é o Caim. E o livro que recomendo sem hesitação é O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands (li a tradução, que saiu este ano). Este livro passou facilmente no meu teste: chorei muito.
De música... Humm... Como dizia o poeta, 'citar é ser injusto, enumerar é esquecer'. Mas o disco que ouvi mais foi o "My Maudlin Career", dos Camera Obscura.
Em política, o acontecimento do ano foi a trapalhada das escutas. E a frase mais engraçada (e a merecer comentário num seminário de ciência política) foi dita por Sócrates: «Foi pró Algarve, seu maroto». O maroto era Louçã.

Até para o ano!

domingo, dezembro 27, 2009

Como diz o diácono, "não vejo por que razão o protesto de uns possa negar o divertimento a outros"

Li na Sábado desta semana que um diácono anglicano resolveu colocar numa rua em Auckland um cartaz com José e Maria na cama. Houve gente que achou graça, houve gente que não achou graça nenhuma. Como eu me incluo no grupo das pessoas que acham graça, aqui fica o cartaz:

A Letra Encarnada

The Scarlet Letter, pintura de T. H. Matteson

No prefácio que escreveu para a sua tradução de The Scarlet Letter, romance de Nathaniel Hawthorne publicado em 1850, Fernando Pessoa cita vários críticos e conclui que, para a generalidade da opinião crítica inglesa, o romance é uma obra-prima. Não sabemos se Pessoa estaria de acordo com esta opinião geral; como nota George Monteiro na introdução ao texto traduzido pelo autor de Mensagem, «é possível especular sobre o fascínio que o romance deve ter exercido sobre o poeta» (Dom Quixote, 2009, Biblioteca António Lobo Antunes, p. XV).
O texto que li, A Letra Encarnada, é uma tradução – a de Fernando Pessoa –, mas as considerações filosóficas e as analogias, que singularizam a prosa genial de Hawthorne, escapam à traição do tradutor, e mostram um autor empenhado em criar «qualquer coisa de novo em literatura» (p. 35). O «novo em literatura» significará a capacidade de contar uma história a partir da qual possamos aperfeiçoar as nossas teorias sobre a natureza humana («Escolha o leitor entre estas teorias a que lhe parecer melhor», p. 270). E o que diz acerca da ‘natureza humana’ a história de Hester Prynne, a mulher que, no meio de uma comunidade onde reinava a «tristeza puritana» (p. 241), usava um sinal – uma letra encarnada – como marca da ignomínia? Optando por uma «teoria», seria possível incluir na resposta a palavra “sinceridade”. De facto, a ‘loucura’ do padre Arthur Dimmesdale tem a ver com a incapacidade de viver na verdade, com as consequências que essa vida implica. É neste sentido que o discurso de autocrítica proferido a meio de um sermão tem um significado que os ouvintes nunca poderão entender (o padre «tinha falado verdade, transformando-a em mentira», p. 148). Por outro lado, a contrastar com um modo de vida em que o segredo e a lei moral governam as relações humanas, ganha relevo a alegria de Pearl, a ‘criança com movimentos de ave’. Pearl, na sua pureza infantil, tem uma percepção mais nítida, mais próxima da verdade das coisas, e é isso que a torna tão especial no romance de Hawthorne.
(também aqui)

domingo, dezembro 13, 2009

Slogan anarquista

A deputada Maria José Nogueira Pinto chamou "palhaço" a Ricardo Gonçalves. Os anarquistas devem ter achado muito pertinente. Penso que é deles a frase que vi escrita aqui perto: Queremos palhaços com mais decência. Batatinha à presidência!

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Da natureza humana

«Há poucos traços mais antipáticos da natureza humana que esta tendência - que tenho observado em homens que não são piores que os outros - de se tornarem cruéis pela simples razão de que têm o poder para o ser.»

Nathaniel Hawthorne. A Letra Encarnada. Lisboa: Dom Quixote, 2009, p. 39. Tradução de Fernando Pessoa.

domingo, novembro 22, 2009

Para não falar mais de coisas tristes...

Isto tem muita graça:
«A ergasiofobia é uma fobia (medo excessivo ou irracional) ou pavor ao trabalho. Pessoas com essa doença tendem a ser chamadas de preguiçosas, mas precisam de acompanhamento médico profissional e da compreensão dos familiares.»

(está na Wikipédia e foi magnificamente citado no Coisas no Arco da Velha).

Começar mal o dia


Domingo de manhã. Saio no carro e vou até à praia. Já não faço isto há algum tempo. Há sol e a temperatura engana. Parece mesmo que vamos ter um dia de Primavera. Chego ao Portinho da Arrábida para não fazer grande coisa: tomar um café, ler o jornal e ficar a olhar para o mar. Mas os planos alteram-se quando vejo a areia. A praia está diferente. Uns estão deitados, outros correm, quase felizes: estão ali, mais ou menos, quinze cães. Um está bastante magro, os outros aguentam-se. Não sei há quanto tempo estão ali. Parecem (é a única personificação que me ocorre) acomodados. Começo a sentir-me muito mal. Ligo para uma associação que conheço, mas percebo que não podem resolver a situação. Não sei como explicar aquilo. Estão para ali, abandonados na praia. Muito perto, um pai e um filho jogam à bola. E uma mulher pede ao menino que não se aproxime porque os cães «podem morder e ter pulgas». Meto-me no carro e volto à cidade. É o que se chama um triste domingo.
(também aqui)

segunda-feira, novembro 09, 2009

"A nossa percepção é tudo o que existe?"

A pergunta surge no filme. E o filme é também sobre isso: sobre percepção e realidade. A grande dúvida do protagonista poderia, aliás, ser explicada com o título de um livro: a realidade é real? Filme de culto do terror científico, passou ontem (corrijo: hoje, porque ainda é domingo) no Estoril Film Festival. Refiro-me a Videodrome, obra de David Cronenberg. Enquanto escrevo, lembro-me do momento em que se fala de catarse como possibilidade de cura pela ficção, e a observação de alguém que diz que isso não passa de um conjunto de 'ideias superficiais'. Como se Cronenberg pretendesse fazer justamente isto: questionar ideias feitas sobre o modo como os seres humanos reagem a certas coisas. Ao cinema, por exemplo.
(também aqui)

sábado, novembro 07, 2009

Disciplina (II)

- Miguel, onde está o seu caderno?
- Só Deus sabe, professora, só Deus sabe...

(esta foi comigo)

Disciplina (I)

- Vocês querem fazer o secundário ou estão só a treinar para feirantes e peixeiras? (uma colega de Matemática)

Tenho de começar a fazer uma lista destas coisas...

sexta-feira, novembro 06, 2009

"Olhos Verdes"

Não deixa de ser estranho: gosto muito de um livro que ainda não li. O livro tem quase duzentas páginas, e eu ainda só li dez. Falo de Olhos Verdes, de Luísa Costa Gomes. Eu, que sempre achei parva a ideia de não se ter tempo para ler, ando a aprender que há alturas na vida em que não há mesmo tempo para ler, para ler aquilo que queremos, bons ou maus livros. São épocas de muito trabalho, em que é preciso ler coisas com uma finalidade específica, para certos fins. No final do dia, o cansaço acumula-se, desafia a nossa curiosidade e vence-a. Nada a fazer. Sentimos saudades de épocas em que vamos à estante e escolhemos qualquer coisa, ou saímos e voltamos com livros novos na mala.
Olhos Verdes fala de pessoas que se definem pelo mistério. Releio na segunda página: «Talvez se espere demais das pessoas muito bonitas. Afinal, o mistério é delas». Está na colecção Mil Folhas, do Público.

(também aqui)

Anotem na agenda

O presidente da SAD do Sporting diz que hoje é «o dia do Paulo».

sábado, outubro 31, 2009

Intuições

Parece que anda aí uma "onda". É verdade. Uma pessoa liga o rádio e pensa que que está ouvir a RFM: a música é sempre a mesma. Anda toda a gente (quase toda a gente) do PSD a dizer o mesmo, a chamar por Marcelo Rebelo de Sousa. O refrão é este: tem excelentes qualidades, é um óptimo candidato, o partido não pode desperdiçar o talento do professor Marcelo... Bom, ou a minha intuição falha ou o PSD volta a enganar-se.

domingo, outubro 25, 2009

Isto dá-me muito jeito

Um dia destes, não preciso de preparar a aula. É que os Gato Fedorento arranjaram material de primeira para um exercíciozinho de 'caça ao erro'...

sexta-feira, outubro 23, 2009

Vasco Pulido Valente sobre «meia dúzia de patetices»

«Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito.»

Vasco Pulido Valente, "Uma farsa". Público. 23.10. 2009

É imaginação minha...

ou nunca se ouviu falar tanto de harakiri desde que o Presidente da República resolveu falar aos portugueses sobre as suas interpretações pessoais? Há dois dias, na Sic Notícias, ouvi dizer - a um economista, creio - que certas decisões políticas seriam o mesmo que um harakiri...
(também aqui)

sexta-feira, outubro 16, 2009

Da Manuela ao Rato Mickey

Bibliotecas

Kansas City Public Library

Sugestões

Há duas semanas comecei a dar aulas. É a primeira vez que estou numa sala com o objectivo de ensinar «conteúdos e competências» a uns miúdos que têm entre 15 e 17 anos. E tenho uma intuição que ando a confirmar: alguns miúdos têm um sentido de humor fantástico. Ontem, numa apresentação que teve lugar na biblioteca da escola, foi-lhes pedido que respondessem a um questionário, onde deviam indicar sugestões para aquisição. Poucos tinham sugestões, mas um lembrou-se de uma e escreveu assim: «para mim, não há dúvidas: considero verdadeiramente imprescindível a aquisição do Borda d'Água».