sexta-feira, maio 28, 2010

Sem rede

Numa sociedade perfeita (que, como diz um poema de que gosto muito, é daquelas coisas que não há mas há – existem utopicamente, em pensamento ou ideia), o trabalho e a vida não se opõem. Num sistema demasiado imperfeito, o trabalho está mais perto da morte do que da vida. É nesse sistema que é possível que "uma empresa peça aos funcionários para assinarem documentos a garantir que não se vão suicidar". E quando nem os monges budistas podem ajudar, o melhor é colocar umas redes para travar as quedas.
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terça-feira, maio 25, 2010

A pergunta do filme

É isto que as pessoas fazem, não é?

segunda-feira, maio 24, 2010

O Zé

«És o maior, Zé»
(Jornal de Setúbal, 24.5.2010)

O Zé é o José Mourinho.

Reforço positivo

No ano em que sofri para ler coisas relacionadas com as ciências da educação, tive discussões interessantes com um professor de psicologia. As discussões começavam com as minhas objecções a uma tese que parte do princípio de que os meninos que se portam mal são meninos que não são reforçados positivamente. Lidar com um problema disciplinar passa por reforçar positivamente - era a ideia que o professor de psicologia da educação pretendia transmitir. E eu e os meus colegas lá fomos assistir a umas aulas para ver como é que esses meninos se comportavam "em" sala de aula. Hoje, com o meu primeiro ano numa escola quase a terminar, concordo mais com o que aprendi nas aulas de psicologia da educação, mas também confirmei que o princípio do reforço positivo não explica tudo. Ainda há pouco um colega me dizia uma coisa pertinente: é na altura em que se exige uma avaliação dos professores (que, evidentemente, é importante, mas não chega; há outros problemas - como o recrutamento e a credibilidade das instituições que formam - que não existem nas mentes de quem concebeu a avaliação), é nessa altura que eles, os professores, estão a fazer aquilo que, à partida, não compete a um professor. Coisas simples, como conseguir que um aluno se sente, ou mais complicadas, como pedir-lhe que largue o pescoço do colega porque essa não é a melhor maneira de pôr termo a uma discussão. Por exemplo.

sábado, maio 01, 2010

O poder de Emerson

Vários leitores de Ralph Emerson sublinharam o seu poder de conversão, o poder de tornar evidente uma afirmação que contém uma filosofia de vida. Harold Bloom fala disto num livro extraordinário chamado Onde está a sabedoria? Quando estava a ler os ensaios de Emerson publicados em A Confiança em Si, A Natureza e outros ensaios, lembrei-me desse "poder". O primeiro ensaio, "A Confiança em Si", faz pensar numa literatura de auto-ajuda (Bloom fala em "autocura"), com Emerson a afirmar, no final do texto, que somos nós próprios que construímos a nossa paz . Emerson defende que o nosso valor reside na nossa singularidade («A minha vida existe por si mesma, não para um espectáculo») e na capacidade de exprimir essa singularidade em ideias. Ser homem, ser humano, implica um afastamento da sociedade e dos grupos: «ser grande é ser incompreendido», ou saber «existir através da História».
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sábado, abril 10, 2010

Muito, muito bom


Beautifully wrong

Ouvi ontem no rádio uma música com estes versos: when you're young / you're beautifully wrong. Não sei o nome do grupo nem o nome da música. Só sei que gosto muito dos dois versos.

sexta-feira, abril 09, 2010

Duas ou três coisas sobre o "2666"

Hans Reiter disse que não sabia qual era a diferença entre um bom livro divução (divulgação) e um bom livro liário (literário). Haldes explicou-lhe que a diferença consistia na beleza, na beleza da história que se contava e na beleza das palavras com que se contava essa história. (p. 754)

A história de 2666 faz pensar que estamos perante um livro que 'tem dentro toda a humanidade', como se Roberto Bolaño tivesse pretendido captar muito mais do que «duas ou três coisas da vida» (p. 222). As referências à literatura enquanto reflexão sobre o humano, sobre aquilo que configura o humano, aparecem ao longo das mais de 1000 páginas (a edição que tenho é a da Quetzal/Fnac), sugerindo-se em vários momentos que essa reflexão está sempre em jogo na literatura porque é aqui, nesta «floresta» (p. 901), que o sentido se perde e nós podemos contemplar a beleza e a monstruosidade («Eu também acredito na bondade intrínseca do ser humano, mas isso não significa nada», p. 900). A imagem da floresta permite também descrever a obra, se pensarmos que no livro de Bolaño há muitos caminhos, tendo cada personagem uma história, uma vida que daria um outro romance.
Na última parte, Bolaño narra a vida de um escritor. É belíssima a forma como descreve a percepção especial de Hans Reiter, que, em pequeno, caminhava «pela superfície da terra como um mergulhador novato no fundo do mar» (p. 734). Na infância, Reiter era um menino singular que mergulhava de olhos abertos, um gigante à procura da sua linguagem, um gigante que dizia "liário" em vez de "literário". Descrições como esta confirmam a ideia de que 'toda a poesia pode estar contida num romance' (p. 889). O menino-alga é de facto a imagem justa de quem vê o mundo de outra perspectiva, como se estivesse do outro lado, e o mar fosse, afinal, a morte: «Comentei com ele que trabalhar na morgue levá-lo-ia sem dúvida a reflexões atinadas ou pelo menos originais acerca do destino humano. [...] Insisti. Aquele enquadramento, disse eu alargando os braços e abarcando toda a morgue, era de certa maneira o lugar ideal para pensar na brevidade da vida, em como é insondável o destino dos homens, na futilidade dos empenhos mundanos» (p. 906).

quinta-feira, abril 08, 2010

Conhecimento e perguntas

"A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas". (2666, p. 902)

domingo, março 28, 2010

Vamos lá a isto

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"Um homem sério"


Pois é. O problema do filme dos irmãos Coen é que não há filme. Mas há boas ideias. O prólogo (?) sobre mortos que regressam e a história do homem que queria manter a seriedade têm em comum o facto de nos deixarem numa posição em que não temos muitos instrumentos para interpretar aquilo que vemos, aquilo que (nos) acontece. Todo o filme é como a história contada pelo primeiro Rabino (o mais velho, que reduz a teologia a um exercício sem finalidade), porque estamos à espera daquilo que não podemos ter: uma explicação, um fim que explique a desgraça de um homem. Por mais desgraças que aconteçam a Larry Gopnik (ou a nós), só temos a história absurda do Rabino. Mesmo se soubéssemos que Deus estava a brincar connosco, isso não alterava grande coisa.

sábado, março 27, 2010

Mudanças

Tive um professor que estava sempre a dizer que estudar é antinatural. Eu, como muito gente que conheço, penso que ir para a política a pensar no bem comum é, hoje, uma coisa antinatural. Certas coisas que vamos ouvindo, outras que vamos lendo, fazem crer que assim seja. Querer governar isto - Portugal - porque se tem uma ideia sobre justiça e equidade, e sobre o que fazer para que não nos tornemos mais pobres, parece-me muito estranho. Vem isto a propósito da eleição de Passos Coelho. Nunca tive grande simpatia pela pessoa e nunca percebi bem a novidade das suas ideias, sobretudo porque sempre que ouço a palavra "mudar" fico ainda mais pessimista. Parece-me uma palavra oca, sem sentido, daquelas que usamos para preencher vazios no discurso. Eu gostava mais de alguém que viesse corrigir, emendar, pensar a sério, e, sobretudo, realizar congressos com as mangas arregaçadas, para trabalhar e discutir mesmo. Só assim Passos Coelho mudará alguma coisa. Veremos.

sábado, março 20, 2010

Educação


No outro dia, estava eu a explicar a uma turma de 7.º ano a importância de saber escrever - e de perceber, por exemplo, a diferença entre "vende-se" e "vendesse" -, quando um dos alunos se lembra desta: «Estás a ouvir, Zé? Quando fores trabalhar para as obras, tens de escrever bem nas tabuletas...». Teve graça e fez-me pensar nas justificações que damos para educar alguém. É por esta razão - porque também é sobre essas justificações - que gostei do filme An Education.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

"Um homem metido num chapéu e pendurado num cigarro"

Não compro a revista Ler há algum tempo. Não há nenhuma razão especial que explique isso; simplesmente, dei por mim, um dia, a pensar "olha, este mês não comprei a Ler". Desde então, limito-me a folheá-la numa livraria ou num quiosque. Por ter deixado de comprar a revista, só este fim-de-semana li o artigo de Francisco Belard sobre Manuel Medeiros. O artigo saiu na edição de Janeiro e é sobre o livreiro da Culsete, uma livraria de Setúbal. O Sr. Medeiros (é assim que o trato) - conhecido, literariamente, por Resendes Ventura (publicou, em 2009, Papel a Mais) - recebeu-me em 2000, nas minhas férias da faculdade. Trabalhei com ele dois meses, tempo suficiente para perceber que tinha à minha frente um profundo conhecedor de livros. Lembro-me de algumas pessoas que entravam na livraria à procura de um livro; podiam não saber sequer o nome do autor, mas bastavam cinco ou seis palavras e o Sr. Medeiros aparecia com o livro. É um grande livreiro, e, acima de tudo, um leitor, um conhecedor dos grandes livros, aqueles que, como diria Emerson («Leio em busca de cintilações»...), dizem sobre nós aquilo que nós não conseguimos dizer.
Aprendi muito com o Sr. Medeiros, mas a memória mais feliz que guardo dos meus tempos na Culsete tem a ver com cigarros. Contra as indicações do médico, que a família queria que seguisse, o Sr. Medeiros continuava a não recusar o prazer de um cigarro. Por isso, sempre que me dizia para ir comprar o Público ao quiosque, pedia-me que levasse, escondido no jornal, um maço de cigarros. A forma como fazia este pedido obrigava-me a responder com um sorriso: falava muito baixinho e piscava-me o olho.
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"Temos de olhar para os gráficos"

O momento mais importante do Plano Inclinado é aquele em que Medina Carreira mostra um gráfico que serve para provar que Portugal está à beira do fim. É sempre um momento que o Mário Crespo prepara dizendo "por favor, mostre às pessoas que nos estão a ver". Naqueles segundos em que a câmara se vira, espera-se o pior, o horror... Platão já tinha avisado: o caminho até à verdade é doloroso. E Medina Carreira, em glória absoluta, mostra, então, um daqueles gráficos com uma curva descendente.

sábado, fevereiro 06, 2010

Os futuros críticos

No outro dia, pedi aos meus alunos um trabalho escrito: uma crítica a um filme. Os resultados foram fabulosos. Um dos textos começava assim: «O Eragon é um filme muito mau (e às pessoas que pensam o contrário, só tenho uma coisa a dizer: vão ao oftalmologista ou consultem um psicólogo).».

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Em vez de colocarem papéis sobre reuniões, ou folhetos do sindicato...

...podiam pôr isto lá na sala de professores.

Entretanto, depois de eu ter recusado a proposta de um aluno, que queria ler e apresentar, este período, o romance Fúria Divina, e de lhe ter sugerido, em vez do José Rodrigues dos Santos, o Edgar Allan Poe (os contos), ouvi este comentário: «Ohh, não é justo! A stôra só gosta dos escritores que já morreram!».

domingo, janeiro 24, 2010

Muito, muito bom


Um filme sobre o que significa ter uma "filosofia de vida".

sábado, janeiro 23, 2010

A situação é esta

Como os leitores deste blogue já repararam, tenho publicado muito pouco. A razão é simples e ficou num post de há uns meses: comecei a dar aulas. Pois é, as bolsas da FCT não duram para sempre. Mas a experiência tem sido muito boa. Há, no entanto, coisas que não percebo. Por exemplo, ontem ouvi falar no conceito de "pedagogia diferenciada". A ideia base é esta: os alunos ("aprendentes") têm diferentes "inteligências" (musical, motora, etc.). Enfim, para mim isto é um disparate, mas o Ministério da Educação prefere chamar-lhe "arma para combater o insucesso".
Para além desta aventura na escola, arranjei tempo para participar neste colóquio sobre Literatura e Filosofia. E para as pessoas que gostariam de ter alguma coisa parecida com uma resposta para a pergunta "O que é 'arte'?", aqui fica o link para um workshop.

E agora vou ali ouvir um disco destes senhores:

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Vamos lá fazer um balanço...

Agora que é tempo de balanço, aqui fica uma espécie de lista.
Dois filmes de que gostei muito: Inglourious Basterds, do grande Tarantino, e The Hurt Locker. A maior decepção foi o Avatar (cheguei a ter pena da Sigourney Weaver no Daily Show). No meio ficou o Capitalism: A Love Story. Eu, que não morro de amores pelo trabalho do Michael Moore, até achei graça.
Sobre livros, o pior do ano é o Caim. E o livro que recomendo sem hesitação é O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands (li a tradução, que saiu este ano). Este livro passou facilmente no meu teste: chorei muito.
De música... Humm... Como dizia o poeta, 'citar é ser injusto, enumerar é esquecer'. Mas o disco que ouvi mais foi o "My Maudlin Career", dos Camera Obscura.
Em política, o acontecimento do ano foi a trapalhada das escutas. E a frase mais engraçada (e a merecer comentário num seminário de ciência política) foi dita por Sócrates: «Foi pró Algarve, seu maroto». O maroto era Louçã.

Até para o ano!