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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

'Fugir é bom nos romances!'

- Estás doida, Luísa, tu não estás em ti! Pode lá pensar-se em fugir? Era um escândalo atroz, éramos apanhados decerto, com a polícia, com os telégrafos! É impossível! Fugir é bom nos romances!

Eça de Queirós. O Primo Basílio

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Um 'bem haja' ao projecto Gutenberg



Clicando aqui é possível ler esta maravilha: Paisagens da China e do Japão (1906), de Wenceslau de Moraes.

(Obrigada, Manuel)

quinta-feira, outubro 23, 2008

Filosofia e Literatura, segundo Iris Murdoch

«[...] philosophy does one thing, literature does many things and involves many different motives in the creator and the client. It makes us happy, for instance. It shows us the world, and much pleasure in art is pleasure of recognition of what we vaguely knew was there but never saw before. Art is mimesis and good art is, to use another Platonic term, anamnesis, 'memory' of what we did not know we knew. Art 'holds the mirror up to nature'. Of course this reflection or 'imitation' does not mean slavish or photographic copying. But it is important to hold on to the idea that art is about the world, it exists for us standing out against a background of our ordinary knowledge. Art may extend this knowledge but is also tested by it. We apply such tests instinctively, and sometimes of course wrongly, as when dismiss a story as implausible when we have not really understood what sort of story it is.»

Iris Murdoch. "Literature and Philosophy: a Conversation with Bryan Magee". Existentialists and Mystics. Writings on Philosophy and Literature. Edited by Peter Conradi. Penguin Books, 1998.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Fragonard, por Jorge de Sena




«O Balouço», de Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!
Jorge de Sena, Metamorfoses

segunda-feira, setembro 15, 2008

Sangue Sábio


O romance Wise Blood (1949), de Flannery O'Connor, apresenta a história de um pregador - Hazel Motes - que, rejeitando a ideia de uma verdade subjacente a todas as verdades, pretende negar a fé na Igreja de Cristo. Motes procura, em última análise, estabelecer uma diferença entre Cristo e a Verdade (o que significa colocar na negativa João 14.6). A verdade absoluta, dirá Motes pregando a doutrina da 'nova Igreja sem Cristo', é que não há alma e não há consciência; além disso, a nova Igreja não concebe a possibilidade do milagre ('os cegos não poderão ver, os coxos não andarão e aquele que morre não volta a viver'). No entanto (e paradoxalmente), o sentido das acções de Hanzel Motes parece consistir em provar que o falso cego Asa Hawks não se enganou quando sugeriu que a fé é um facto. Saber isto significa, para Motes, perceber que o conhecimento da verdade se revela na integridade.

sábado, setembro 13, 2008

The Portrait of a Lady



Áreas disciplinares como a "narratologia" («a ciência que procura formular a teoria dos textos narrativos na sua narratividade»; cf. M. Bal. Narratologie, 1977) talvez não existissem se os estudos literários partissem da tese de que usamos as mesmas palavras e as mesmas proposições para nos referirmos a personagens e a pessoas - i.e. para procedermos à sua caracterização e descrevermos as suas vidas.

Um dos traços mais interessantes da história da americana Isabel Archer prende-se com o facto de H. James explorar a ideia de que as melhores descrições de cada personagem, das suas acções e do seu destino são fornecidas por outros livros, por outros textos literários. Na verdade, é possível ler o romance como a história de uma mudança na forma de entender a relação entre os livros (a arte) e a vida. Note-se: se Isabel era muito dada a leituras antes da sua chegada a Inglaterra, procurando desse modo saciar a curiosidade e aprender algo sobre a vida (é-nos dito que ela procurava perceber até que ponto as 'descrições livrescas' condiziam com a realidade que encontrara no velho continente), no final da história (quando sabe que o seu projecto de vida falhou) o que caracteriza o seu estado de espírito ao regressar à biblioteca de Gardencourt é, pelo contrário, a 'pouquíssima atracção para os romances'. Há, a meu ver, dois modos possíveis de interpretar esta mudança: 1) Isabel percebe que os livros nada têm a ensinar sobre a vida (o mesmo é dizer que não vale a pena tentar perceber se a vida a e a literatura condizem); 2) Isabel percebe com dor a proximidade entre os livros e a vida (percebe, por exemplo, que 'comédia' e 'tragédia' não são "apenas" categorias literárias, ou, como nós é dito no cap. XLIX, que o epíteto 'perversa' se aplica tanto a personagens histórias como a pessoas). Esta segunda interpretação parece-me a mais justa por várias razões, mas sobretudo porque condiz com a reflexão sobre a arte do romance que acompanha todo o texto (ou - o que é o mesmo - a vida de Isabel). Não é por acaso que Ralph Touchett deixa a sua biblioteca a Miss Stackpole, a melhor amiga de Isabel que viera até à Europa em busca de matéria-prima para os seus artigos, ou seja, procurando, como um romancista, conhecer de perto a vida das pessoas. E é também nas considerações de Ralph que a auto-reflexividade do romance se exibe melhor: Ralph sobrevive até ao final do romance por curiosidade. Sobrevive porque quer saber o que Isabel Archer fará com a sua vida; quer, em suma, apreciar o retrato.

Cómico e Seriedade

«Todos os romances cómicos que valem alguma coisa são sobre assuntos de vida e morte.»
Flannery O'Connor

terça-feira, setembro 09, 2008

O cómico antitrágico de Machado de Assis

«O cómico é essa recusa [i.e. a recusa da consolação da inteligibilidade]: além de antimoderno, o cómico machadiano é antitrágico, no preciso sentido em que denuncia a presunção persistente de que o modelo trágico é o modelo adequado à inteligibilidade da vida e do mundo. A recusa do trágico é rigorosamente antimoderna - quer dizer, modernamente antimoderna - porque conduzida à opção pelo cómico: o tédio e a melancolia, o desconcerto e o absurdo, são e não podem ser senão matéria de comédia, e comédia filosófica, porque são e não podem ser senão matéria da inquirição filosófica que desfigura a face eufórica e providencialista dum mundo ordenado para o progresso.»
Abel Barros Baptista. "Mas este capítulo não é sério..."
(Revista Ler, n.º 72, Setembro 2008)