Quinta-feira, Julho 09, 2009

Para desanuviar...

Nota sobre o ensaio clássico de Oakeshott

Não conhecia o "On Being Conservative" (1956), de Michael Oaekshoot. Li-o ontem e considero-o um ensaio magnífico: muito bem escrito/pensado, com ideias claras e bons argumentos. Sobre a tese, tenho a dizer isto: identifiquei-me com algumas ideias acerca do que deve ser a política à luz da "disposição" que define o conservador (as ideias que eu tinha sobre o conservadorismo, devo dizer, modificaram-se um pouco com a leitura do ensaio); porém, não concebo a minha vida sem a possibilidade de mudar - sem a possibilidade de decidir mudar sem ter certezas claras sobre os 'ganhos obtidos' com a mudança (este é um ponto que eu ainda não percebi bem no ensaio, porque não sei como se calculam essas coisas; lembra-me o problema de Bentham). Em suma, haverá aqui (estou a fazer o meu próprio diagnóstico...) um pequeno conflito entre personalidade (na descrição de Oaekshoot, sou uma jovem que vive num estado de «delightful insanity»...) e ideologia.

Deixo aqui a parte final do ensaio. Oaekshoot cita Shelley, entre outros. Belíssimo.

Everybody's young days are a dream, a delightful insanity, a sweet solipsism. Nothing in them has a fixed shape, nothing a fixed price; everything is a possibility, and we live happily on credit. There are no obligations to be observed; there are no accounts to be kept. Nothing is specified in advance; everything is what can be made of it. The world is a mirror in which we seek the reflection of our own desires. The allure of fiolent emotions is irresistible. When we are young we are not disposed to make concessions to the world; we never feel the balance of a thing in our hands - unless it be a cricket bat. We are not apt to distinguish between our liking and our esteem; urgency is our criterion of importance; and we do not easily understand that what is humdrum need not be despicable. We are impatient of restraint; and we readily believe, like Shelley, that to have contracted a habit is to have failed. These, in my opinion, are among our virtues when we are young; but how remote they are from teh disposition appropriate for participating in the style of government I have been describing. Since life is a dream, we argue (with plausible but erroneous logic) that politics must be an encounter of dreams, in which we hope to impose our own. Some unfortunate people, like Pitt (laughably called "the Younger"), are born old, and are eligible to engage in politics almost in their cradles; others, perhaps more fortunate, belie the saying that one is young only once, they never grow up. But these are exceptions. For most there is what Conrad called the "shadow line" which, when we pass it, discloses a solid world of things, each with its fixed shape, each with its own point of balance, each with its price; a world of fact, not poetic image, in which what we ahve spent on one thing we cannot spend on another; a world inhabited by others besides ourselves who cannot be reduced to mere reflections of our own emotions. And coming to be at home in this commonplace world qualifies us (as no knowledge of "political science" can ever qualify us), if we are so inclined and have nothing better to think about, to engage in what the man of conservative disposition understands to be political activity.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Maria Filomena Mónica e os queirosianos

Tem tido uma guerra com os queirosianos. Porquê?
Eles começaram a fazer-me guerra.

Mas guerra como?
Tem a ver com as carreiras, luta-se por um poder muito pequenino. Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias. Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno-almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam. Achei aquilo estranho. Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: "Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território" Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse-me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade americana pagaria. Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.

Maria Filomena Mónica em entrevista ao jornal I

Uf!... Assim já estou mais tranquila.

Vou continuar a ser a mesma pessoa (...). (Cristiano Ronaldo)

Lido aqui.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Sublinhado e nota de rodapé

Sobre Freud, eu diria aquilo que escreveu Eduardo Lourenço sobre Fernando Pessoa em Pessoa Revisitado (1973): 'tomo a sério e em toda a sua extensão a ideia de que [Freud] é uma natureza genial'. Daqui não se segue, porém, que eu tome a sério - i.e., como única verdade, como verdade científica - uma explicação psicanalítica do comportamento e das acções de uma pessoa.

Invertendo a ordem normal das coisas, o parágrafo anterior é como uma nota de rodapé que eu introduzo para dizer que gostei de ler, no blogue "Ópera e demais interesses", esta análise do filme Gata em Telhado de Zinco Quente.

(Sim, um dos mais belos homens do mundo. Absolutamente.)

Ainda sobre política e tauromaquia

Debate na RTPN, com representantes dos cinco maiores partidos. O do PS, que se confessou amigo de Manuel Pinho, disse que no debate do estado da nação «José Sócrates encostou Paulo Rangel às tábuas». Disse isto depois de ter pedido permissão para «usar uma imagem tauromáquica».

Lido aqui.

A natureza humana à luz do 'cepticismo mitigado' de Hume

É universalmente reconhecido que há uma grande uniformidade nas acções dos homens, em todas as épocas e nações, e que a natureza humana permanece sempre a mesma nos seus princípios e operações. Os mesmos motivos produzem sempre as mesmas acções; os mesmos acontecimentos seguem-se sempre das mesmas causas. A ambição, a avareza, o interesse pessoal, a vaidade, a amizade, a generosidade, o espírito público; estas paixões, misturadas em diversos graus e distribuídas por toda a sociedade, têm sido desde o início do mundo, e ainda são, a fonte de todas as acções e iniciativas que têm sido observadas entre os homens. Quer-se conhecer os sentimentos, inclinações e modo de vida dos gregos e romanos? Estude-se bem o temperamento e as acções dos franceses e ingleses: não se estará muito enganado ao transferir para os primeiros a maior parte das observações feitas sobre os segundos. A humanidade é tão semelhante, em todas as épocas e lugares, que, sob este aspecto, a história nada tem de novo ou estranho a nos oferecer. A sua principal utilidade consiste apenas em revelar os princípios constantes e universais da natureza humana, mostrando os homens nas mais variadas circunstâncias e situações, e oferecendo-nos os materiais a partir dos quais podemos ordenar as nossas observações e nos familiarizarmos com os motivos normais da acção e comportamento humanos. Esses registos de guerras, intrigas, sedições e revoltas são colecções de experimentos pelos quais o político ou filósofo moral fixa os princípios da sua ciência, do mesmo modo que o físico ou filósofo natural se familiariza com a natureza através dos experimentos que realiza com eles. E a terra, a água e outros elementos examinados por Aristóteles e Hipócrates não se assemelham mais aos que actualmente se oferecem à nossa observação do que os homens descritos por Políbio e Tácito se parecem com os que agora governam o mundo.

David Hume. Tratados Filosóficos. I - Investigação sobre o Entendimento Humano. Tradução e introdução de João Paulo Monteiro. Lisboa: IN-CM, pp. 95-96 (secção VIII - Da Liberdade e da Necessidade)

Sábado, Julho 04, 2009

Agradecendo...


Sexta-feira, Julho 03, 2009

Entretanto, eu já devo ter ouvido isto umas vinte vezes...

Citando o João Lisboa, este «é um daqueles casos cientificamente designados como "tiro e queda"».

Almoços felizes

Hoje, fui almoçar com a minha mãe. Esperava um almoço em que falaríamos, sobretudo, de coisas que têm a ver com laços de família. Não foi o caso. Hoje, a conversa foi mais ou menos isto: um resumo (feito por mim) das reacções da imprensa e de alguns blogues que leio ao gesto do ex-ministro Manuel Pinho. A minha mãe, que tinha ouvido falar do caso esta manhã, no rádio, perante a minha descrição exacta do gesto, teve esta reacção: soltou uma gargalhada. Depois, enquanto comíamos, fui-me lembrando de títulos de posts (eg. 'Manuel Pinho a gestor do Campo Pequeno' ou 'Manuel Pinho anuncia grande corrida na TV'), e, quando isto acontecia, parávamos a refeição só para dar mais uma gargalhada (falei-lhe também do cartaz do "Arrastão"). A dada altura, tínhamos uma parte do restaurante visivelmente curiosa com tanta risada.

Este texto serve, portanto, para agradecer ao ex-ministro da Economia, que nos proporcionou um almoço muito agradável.

Este já vem a caminho

Quinta-feira, Julho 02, 2009

A propósito de insultos, eu aqui gostei muito da expressão do Diogo Feio

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Ideologia e personalidade...

Pedro Mexia está neste momento a falar sobre esta e outras questões no programa "Cartas na Mesa", de Constança Cunha e Sá.

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Do filme de Derek Jarman (que vi ontem)

O filme Wittgenstein (1993) pode ser visto aqui.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

O Evangelho segundo Ricardo Costa

«num caso como este as pessoas acreditam no que quiserem mas se acreditarem no que eu vou dizer vão acreditar na verdade.
Ricardo illuminati Costa à sic notícias, a propósito do caso PT/TVI»

Depois de ouvir em directo, encontrei a citação aqui.

Terça-feira, Junho 23, 2009

As cócegas de Nietzsche explicadas por MacIntyre

«[...]
E, resumindo: se tivesses pensado mais avisadamente, observando melhor e aprendido mais, não tornarias a chamar em caso algum a este teu «dever» e a esta tua «consciência» dever e consciência; o conhecimento de como alguma vez os juízos morais puderam ter origem desgostar-te-ia destas patéticas palavras - tal como já acontecera com outras palavras patéticas, por exemplo, «pecado», «bem-aventurança», «redenção».
E não me fales agora do imperativo categórico, meu amigo! Esta expressão faz-me cócegas no ouvido e tenho de me rir, apesar da tua grave presença; lembra-me o velho Kant, que para castigo de ter surpreendido «a coisa em si» - uma coisa também muito ridícula! -, foi surpreendido pelo «imperativo categórico» e, com ele no coração, tornou a desencaminhar-se para «Deus», «alma», «liberdade» e «imortalidade», tal como uma raposa que se torna a desencaminhar para a sua gaiola; e tinham sido a sua força e inteligência que haviam arrombado esta gaiola!»

F. Nietzsche. A Gaia Ciência, secção 335. Lisboa: Relógio d'Água, 1998, p. 235


«The rational and rationally justified autonomous moral subject of the eighteenth century is a fiction, an illusion; so, Nietzsche resolves, let will replace reason and let us make ourselves into autonomous moral subjects by some gigantic and heroic act of the will, an act of the will that by its quality may remind us of that archaic aristocratic self-assertiveness which preceded what Nietszche took to be the disaster of slave-morality and which by its effectiveness may be the prophetic precursor of a new era. The problem then is how to construct in an entirely original way, how to invent a new table of what is good and a law, a problem which arises for each individual. This problem would constitute the core of a Nietzschean moral philosophy. For it is in his relentlessly serious pursuit of the problem, not in his frivolous solutions that Nietzsche's greatness lies, [...]».

Alasdair MacIntyre. After Virtue. A study in Moral Theory. Duckworth, 1984, second edition, p. 114. (itálicos meus)

Os subsídios e o cinema português segundo Vasco Graça Moura

Quem vai pedir ao Estado quer produzir à custa do Estado, em vez de produzir à custa do desafio que é a criação, que é enfrentar o público, etc.. [...] No caso do cinema de autor, vemos coisas tristes como no passado, porque é sempre o mesmo miserabilismo, sempre o mesmo tipo que se droga, sempre as mesmas coisas que não têm pés nem cabeça... E o Estado a pagar. Para mim, isso não tem pés nem cabeça. Não há nada que subsidiar essas coisas.

Vasco Graça Moura entrevistado por Constânça Cunha e Sá, no programa "Cartas na Mesa".

Estas três semanas

Desde que publiquei este post, aconteceram várias coisas que a blogosfera comentou:

Eleições para o parlamento europeu -
Sobre as eleições, o dado mais preocupante é, a meu ver, a possibilidade de certas figuras que actualmente pertencem às juventudes partidárias (veja-se o primeiro vídeo deste post do "Provas de Contacto") estarem, daqui a uns anos, a governar o país.

A entrevista de José Sócrates à Sic-Notícias -
A dada altura, tive uma alucinação: pareceu-me ver uma auréola a surgir por cima da cabeça do primeiro-ministro. Foi no momento do "parte-se-me o coração". Recuperei a sanidade mental, enfim, quando me lembrei de uma crónica de João Pereira Coutinho que já tem alguns anos. A crónica "O pio do engenhario pio", de 24 de Setembro de 1999 (está no volume Vida Independente, que reúne as crónicas publicadas n'O Independente entre 1998 e 2003), falava também de um «engenheiro profundamente chocado, ou profundamente ferido, ou profundamente tocado».

Foi formulada a metáfora mais estranha de sempre da nossa vida política (se não é a mais estranha, é certamente uma forte candidata ao prémio) -
Pacheco Pereira foi descrito como uma «loura». Bom, esta é a prova de que nunca devemos subestimar a capacidade humana para estabelecer analogias.

Vai haver eleições no Benfica -
Eu, como portista que sou, acho que a continuação de Luís Filipe Vieira seria espectacular. Foi, portanto, com enorme alegria que descobri aqui que não sou a única a apoiá-lo. Muitas pessoas (e alguns programas de humor...) também estão a torcer por Vieira.

Sábado, Junho 06, 2009

Tempo de meditação (II)


Notas para o fim-de-semana

O Maradona escreveu sobre a figura do Nuno Melo. Nada a dizer. É um homem muito bonito (a prova está aqui, no "Bomba Inteligente"). Mas, para mim, o mais importante do post é a referência ao psicanalista Carlos Amaral Dias, descrito como «o gajo mais incompreensível de Portugal». Se alguém tem dúvidas, é só ouvir o "Alma Nostra", o programa da Antena 1 que passa «quando os outros vêem televisão», como diz o Carlos Magno no início de cada emissão. Na verdade, seria igualmente correcto dizer que o Carlos Amaral Dias e o Carlos Magno, quando se juntam, conseguem ser os «gajos mais incompreensíveis de Portugal». Sobretudo quando o Carlos Magno (que deve ter andado a ler os positivistas lógicos...) começa a falar do seu fascínio pela linguagem, e a dizer que 'tudo é linguagem', e que 'as palavras determinam tudo' - coisas deste tipo. Coisas que o Carlos Amaral Dias aprofunda.

Bom, amanhã é dia de eleições e eu concordo com a Ana Cristina Leonardo, ou seja, também penso que se deve ir votar (percebo as razões do João Pereira Coutinho, mas não me convencem totalmente). O problema é que hoje ainda não sei em quem irei votar. É verdade: incluo-me na categoria dos "indecisos". Devo, no entanto, deixar uma nota sobre a minha indecisão. Há, evidentemente, alguma desilusão com a classe política, mas o facto é que, desde há algum tempo, estou numa fase de indecisão em termos políticos. Vivo uma espécie de dupla personalidade política. Explicando melhor: há dias em que divido as pessoas em «pessoas de esquerda» e «pessoas de direita»; em que consigo ler os textos do Daniel Oliveira até ao fim; em que os discursos do Francisco Louçã ou da llda Figueiredo me deixam com vontade de vociferar contra os «ricos» e contra «o grande capital»; e em que a palavra «justiça» aparece na minha mente como uma «ideia clara e distinta» (como diria Descartes). Porém, há outros dias em que acontece o oposto, e as frases que acabei de escrever surgem na forma negativa. Nestes dias, fico em pânico só com a ideia de ter alguém a tratar-me por "camarada" (o que já aconteceu...). São dias em que vejo naqueles discursos sinais de uma visão totalitária, e em que recordo o que me dizia uma amiga que escreveu uma tese sobre o conceito de felicidade na obra de George Orwell: o problema dos 'regimes perfeitos' é que são tão perfeitos que não precisam das pessoas. Entretanto, vou continuar por aqui a ler um capítulo do After Virtue, um livro genial do Alasdair MacIntyre, e talvez amanhã, com a ajuda de uma iluminação, a minha indecisão desapareça.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

"Singularidades de Uma Rapariga Loura"


De Singularidades de uma Rapariga Loura, o filme mais recente de Manoel de Oliveira, retive a cena da janela, onde alguns viram uma vénia ao mestre Hitchcock. A janela - metáfora útil a empiristas como John Locke - enquadra a rapariga loura. Melhor, inscreve-a no filme como a pintura que vemos atrás do leque com que Luísa quase hipnotiza Macário. Com efeito, todo o filme explica (é esse o seu fim, creio) a distância que existe entre aquilo que se vê da janela do escritório - pelo olhar de Macário - e o que se vê na outra janela - Luísa. O problema de Macário foi, citando o texto de Eça, o da «intuição interpretativa dos namorados». ("Singularidades de Uma Rapariga Loura". Contos. Lisboa: Livros do Brasil, 1999, p. 14).

Terça-feira, Junho 02, 2009

O grande Che




Matthew Diffee, 2004
(The Complete Cartoons of the New Yorker)

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Melhor do que o sketch...

Ontem, fazendo zapping, fui dar com um concurso ("Uma canção para ti") que passa agora na TVI e que foi parodiado num dos últimos episódios dos "Contemporâneos". Houve dois aspectos que fixei. Primeiro, o Pedro Granger consegue ser melhor do que o sketch (não é fácil, acreditem), e usa mesmo a expressão "Força na maionese!" (a expressão não é da autoria dos "Contemporâneos", como cheguei, benevolente, a pensar). O segundo aspecto é o facto de se tratar de um programa onde as coisas que se dizem às crianças são quase sempre desonestas, e contribuem para difundir a ideia de que "cantando e dançando somos os maiores!" (Aliás, à mesma hora, outras crianças dançavam no canal 1, num concurso que oferece um MP3!!!) Além disso, a qualidade da voz dos concorrentes nem é o mais importante; a piada que os 'pequenos' procuram ter, sobretudo quando mandam "beijinhos lá para casa", parece sobrepor-se a qualquer tentativa de objectividade na avaliação. A contrastar com a generalidade dos comentários que ouvi (se os levássemos a sério, era razão para crer que os melhores tenores e sopranos da actualidade estavam já a pensar na reforma antecipada...) só mesmo as palavras do 'senhor da maionese' que, pronunciando-se sobre um dos concorrentes, se lembrou de dizer: "eu, quando era da tua idade, tinha a voz ainda mais fanhosa" (!!!).
Com programas destes, quem é que precisa de programas de humor?

Sábado, Maio 30, 2009

Pois, a escola é uma cena marada. E o Camões, o Cesário e o Pessoa são uns bacanos do caraças!


(Postal que encontrei há dias e que pretende divulgar os serviços da rede de bibliotecas escolares.)

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Perfeitos dias

96.
A destinatário não identificado

[...]
Não sei quanto «sol português» esta carta lhe leva; se alguma coisa do dia se infiltrou nela, de certeza que leva algum, porque este é um dos nossos perfeitos dias de Lisboa - um céu como se nunca tivesse havido nuvens no mundo, uma luz puríssima e uma temperatura amena, como numa obra de arte dos gregos.
[...]

Fernando Pessoa. Correspondência. 1923-1935. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 226. Edição de Manuela Parreira da Silva.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Obediência a Mestres

155

A Ofélia Queirós
29/11/1920

[...]

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.
Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

Fernando

Ferando Pessoa, Correspondência. 1905-1922, pp. 360-361.

Domingo, Maio 24, 2009

"Arena" ganha prémio em Cannes


Quando vi o filme no IndieLisboa, tive a oportunidade de felicitar o realizador João Salaviza. O filme - uma curta-metragem - chama-se Arena e venceu o Grande Prémio para Curtas-Metragens em Cannes. A notícia de última hora no Público.

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Irmão em Além!

48

A Armando Côrtes-Rodrigues
28-6-1914

Irmão em Além!

Eu vos saúdo e vos peço que amanhã, entre o soar duplo das duas e o soar simples das duas e mais metade de meia hora, surjais com a vossa presença carnal - sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva - à vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos artísticos que dá pelo nome humano de «Brasileira do Rossio». Da vossa tese vos falarei, insciente ainda se então pronta, mas pronta de certo, se não a essa, ora marcada, hora, ao cair lento e morno do crepúsculo de amanhã. Não vos aflijais! Os deus têm tempo para tudo. E no dia 30 entregareis a vossa tese, se antes o Destino a não dactilografar de pronta.
Guarde-vos Deus; e que a Futura Divindade Tutelar das Estranhezas Irritantes vos assente à sua mão direita.

Fernando Pessôa

Fernando Pessoa. Correspondência. 1905-1022, p. 118 (referência bibliográfica completa no fim deste post)

Terça-feira, Maio 19, 2009

Academic Earth: video lectures from the world's top scholars

É só dar um salto até aqui.

Domingo, Maio 17, 2009

"Colossal Youth" (não, não é o filme do Pedro Costa)

Fernando Pessoa sobre 'um poeta com desvantagens psíquicas'

(ano de 1915)
87
A William Bentley

«[...] se o senhor quiser passar os olhos por toda a literatura portuguesa do passado, encontrará um factor constante, que é a estranha falta de formas elevadas de intelecto nos seus criadores. Tome como exemplo Camões. É um grande poeta épico e um razoavelmente bom poeta lírico. Mas submeta as suas obras a uma análise imparcial e tente encontrar nele um alto grau de inteligência genuína. Não será bem sucedido. Ele é altamente emotivo; tem entusiasmo e sensibilidade. Mas é assinalavelmente desprovido de todas as qualidades puramente intelectuais com as quais a poesia mais elevada - e a literatura mais elevada - é construída. Não tem em si a profundidade; não tem uma profunda intuição metafísica (tal como poderia encontrar às dúzias numa página de Shakespeare). Não tem fantasia. Não tem imaginação, propriamente dita; embora a sua emoção suba por vezes tão alto que o leva a imaginar a imaginar a despeito da sua incapacidade. E mesmo aí, a sua incapacidade fundamental revela-se nos pormenores. Repare no Adamastor, que foi o melhor que ele fez. Note a extraordinária incapacidade para conceber os grandes pormenores, veja como ele cai no superficial e no mesquinho, mesmo no centro da sua inspiração. Ele está em terreno mais seguro em episódios como os de Inês de Castro, pois aí está mais dependente da pura emoção, sem necessidade de imaginação. Para encurtar razões, Camões, que é o mais imaginativo dos poetas portugueses antes de 1860, é, para ser brusco e franco, tão pouco inteligente como pouco imaginativo. O milagre é que, com estas desvantagens psíquicas, ele foi capaz de produzir um poema relativamente bom.»

Fernando Pessoa. Correspondência. 1905-1922. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, pp. 202-293. Edição de Manuela Parreira da Silva.

Terça-feira, Maio 12, 2009

"Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX"




Está na Feira do Livro, no sítio da Fundação Calouste Gulbenkian, e a um preço insignificante (3 euros). Refiro-me à edição crítica de Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, o texto de Antero de Quental «que foi dado a lume na Revista de Portugal, dirigida por Eça de Queirós, nos números referentes a Janeiro, Fevereiro e Março de 1980, ano do Ultimatum inglês e da efervescência política, social e cultural por ele suscitada» (Joel Serrão, Introdução, p. 29).